Uma horta comunitária, além de oferecer todos esses alimentos, é gerida pela comunidade – Foto: DivulgaçãoAntes de falarmos sobre as hortas comunitárias, precisamos falar sobre a terra, conceito amplo que transita sobre vários cenários da nossa vida: biologicamente é um organismo vivo, que oferece as condições ideais para o cultivo de alimentos. Socialmente, pode ser vista como um meio de transformação social, ocupação, trabalho, cooperação e, principalmente, saúde.
Neste universo de possibilidades, um dos usos da terra que mais envolve esses conceitos são as hortas – locais de cultivo de alimento, de integração com o ambiente e a com a sociedade. E o programa Agro, Saúde e Cooperação visitou três hortas para saber mais sobre seus benefícios e como elas funcionam na prática.
Horta que valoriza conceitos ambientais e sociais
O Bairro do Campeche, em Florianópolis, é uma das regiões com o crescimento mais acelerado da Capital e de Santa Catarina. Rapidamente, prédios e construções tomaram a paisagem natural e transformaram o visual.
Diante dessas transformações, há o Parque do Pacuca, uma área federal com cerca de 34 hectares, em que a prefeitura disponibiliza aproximadamente 180 mil metros quadrados para a associação do parque, onde há uma horta comunitária.
A Lucilene Faustino, manezinha nativa do Campeche, acompanhou todo o crescimento do bairro ao longo de seus 55 anos. Ela conta que brincava no local com os avós e que eles usavam o espaço para plantar mandioca, milho e melancia – produtos da época.
Hoje ela vai até o parque com a neta Lívia, de seis anos, ao menos duas vezes por semana para levar o lixo orgânico, composto que virará adubo e contribuirá com o funcionamento da horta comunitária.
Sabemos que uma horta é um local de produção de alimentos como leguminosas, hortaliças e frutas das mais variadas espécies. Agora, uma horta comunitária, além de oferecer todos esses alimentos, é gerida pela comunidade, contando com o apoio de pessoas voluntárias que irão mantê-la viva.
Falando nisso, na horta do Parque do Pacuca, um grupo de voluntários se reveza há sete anos para cuidar e manter a horta. O trabalho diário, com contato direto com a terra, enxadas, pás, e envolve a tradição nativa da região.
O projeto conta com o envolvimento da comunidade, do Conselho Comunitário, e de parcerias; seus recursos são colaborativos e sem fins lucrativos. Uma das voluntárias, Ana Maria Santa Helena, explica que a horta é da comunidade. Que as pessoas vão até o local e fazem sua parte, levando mudas, plantando hortaliças, regando e limpando os canteiros, por exemplo. Além disso, tudo o que é plantado por lá é orgânico.
Para garantir a qualidade do solo, o adubo é feito na própria composteira do parque. A comunidade recolhe restos de comida nas redondezas, que são transformados em composto orgânico. Depois de maturado, ele vira o adubo da horta.
Outro ponto essencial no Parque do Pacuca é o papel da horta como elemento social de transformação. Até 2015 o local era usado como um depósito de lixo, era uma área insegura, o que gerava preocupação na comunidade.
Hoje, com a horta, as pessoas conseguem ter mais contato com a natureza, socializar com os vizinhos e demais moradores do bairro, além de ajudar mais pessoas. Os alimentos produzidos são distribuídos para o asilo da região, para um hospital e várias comunidades quilombolas do Rio Vermelho. O composto orgânico produzido no parque também é doado para outras hortas da Capital.
Como as hortas auxiliam na educação infantil
O projeto começou ainda em março deste ano, junto com o início das aulas – Foto: DivulgaçãoAs hortas e o conceito de terra, alimentação saudável e cultivo podem modificar o ensino público de crianças e adolescentes no Estado. No Centro Educacional Amélia Inácia de Medeiros, em São José, uma escola pública recém-inaugurada, atende mais de 600 alunos e conta com um diferencial: uma horta pedagógica, administrada pelos próprios estudantes.
“- A gente acredita, aqui na escola, na educação pública de qualidade. E, educação de qualidade se dá fazendo, não só ouvindo. Às vezes as boas práticas, colocar a mão na massa, ensina muito mais do que estar em sala. Acho que é uma sementinha que a gente planta hoje. Além de ser uma aula diferente, com a mão na massa, literalmente plantando, a gente espera colher bons frutos daqui a alguns anos, que é realmente essa questão do cuidado com o meio ambiente, com a preservação e o consumo consciente” – explica Juliana Prudêncio, diretora da escola.
O projeto começou ainda em março deste ano, junto com o início das aulas. De lá para cá, os alunos do sétimo e do oitavo ano experienciaram na prática o sonho da agroecologia e, também, do currículo tradicional de Ciências da Natureza. Toda a estrutura do programa foi feita em parceria com uma ONG, sediada no Centro de Ciências Agrárias da UFSC, em Florianópolis. Um dos pontos interessantes do projeto é que tudo começa na sala de aula. Os professores levam a teoria para os quadros, embasando os alunos, para que depois eles apliquem na prática, na horta da escola.
O local também conta com uma composteira e todo o resíduo orgânico produzido na merenda é separado e levado para ela – tudo isso com a participação dos alunos, que analisam, tomam notas e aprendem sobre o processo de produção do adubo.
Da comunidade para a casa
Saindo das comunidades, indo para o jardim de casa. Já deu para entender a importância das hortas e do trabalho com a terra para o fortalecimento da agricultura em centros urbanos, certo? Agora, você sabia que também pode levar essa experiência para a sua casa? E acredite: esse processo é mais fácil do que se imagina.
Para mostrar e ensinar como você também pode usufruir desse pedaço de vida no seu quintal, a equipe do Agro, Saúde e Cooperação encontrou o Jefferson Mota, agrônomo formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, que ministra oficinas para famílias urbanas.
Jefferson explica que montar uma horta no quintal de casa é como fazer uma receita de bolo. E aí a qualidade dos ingredientes, principalmente dos substratos que vão na terra, é essencial.
É importante saber que há diferentes composições de terras: as pretas, os compostos, os estercos e os húmus. A ideia, segundo o agrônomo, é que se faça um mix com elas. A terra preta, em geral, possui compostagem de folha, de casca, um pouco de cinza de arroz. O esterco, em geral, ou é de frango, ou é de boi, e o húmus ajuda a reter água.
Para fazer uma horta em casa, é possível mesclar plantas medicinais, hortaliças, temperos e flores – que, inclusive, podem ir na salada. A compra de todos os materiais para montar uma horta com cerca de um metro quadrado, sai em torno de R$ 220.
Depois disso, é só buscar um local com uma boa iluminação no quintal, cavar, colocar uma contenção de madeira e começar a plantar. E Jefferson dá uma dica importante: o plantio das mudas deve ser feito de forma inteligente, para que as plantas não se sufoquem, ao crescerem.
Aproveite também para ficar de olho no Programa Agro, Saúde e Cooperação, que vai ao ar todo domingo, às 9h, na NDTV e conta com a parceria da Ocesc e da Aurora.