Leandra da Luz, Florianópolis - 28 de janeiro de 2024

Engenho de farinha artesanal: como funciona e qual sua importância em Santa Catarina

Conheça a história, importância e como funciona um engenho de farinha artesanal, uma grande tradição de Santa Catarina

Força econômica de Santa Catarina ao longo de séculos, o engenho de farinha artesanal guarda a história do trabalho em épocas pré-industriais. Em uma entrevista exclusiva, o proprietário de um desses engenhos, Jorge Luiz da Silveira, compartilhou detalhes sobre seu engenho, em Florianópolis. Ainda, o portal ND Mais conversou com o historiador Rodrigo Rosa da FCC (Fundação Catarinense de Cultura) sobre a história desses empreendimentos no Estado.

O boi anda em círculos movimentando o trapiche (maquina que faz moer os grãos) – Foto: Leandra Luz/NDO boi anda em círculos movimentando o trapiche (maquina que faz moer os grãos) – Foto: Leandra Luz/ND

Tradição do engenho de farinha artesanal

Jorge Luiz explicou que a motivação por trás do seu projeto é conservar a tradição, algo que sempre foi um sonho pessoal. “Eu tinha um sonho de ter um engenho, para manter a tradição”.

Ao ser questionado sobre as dificuldades encontradas durante a montagem do engenho, ele destacou a escassez de especialistas na região.

“Tem muito problema, e um é encontrar uma pessoa que faça. Tem uma dificuldade grande, porque dentro da Ilha [de Santa Catarina, isto é, Florianópolis], tem só uma pessoa que sabe fazer tudo isso daqui”, afirma Jorge.

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    Segundo Jorge, os bois de seu engenho são mansos.. - Leandra Luz/ND
    Segundo Jorge, os bois de seu engenho são mansos.. - Leandra Luz/ND
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    O boi anda em círculos movimentando o trapiche (maquina que faz moer os grãos) - Leandra Luz/ND
    O boi anda em círculos movimentando o trapiche (maquina que faz moer os grãos) - Leandra Luz/ND
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    Embaixo de onde fica a farinha de mandioca tem um forno, usado para esquentar a farinha e assim tirar a sua umidade - Leandra Luz/ND
    Embaixo de onde fica a farinha de mandioca tem um forno, usado para esquentar a farinha e assim tirar a sua umidade - Leandra Luz/ND
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    É preciso tapar o olho do boi, para que o animal não fique tonto - Leandra Luz/ND
    É preciso tapar o olho do boi, para que o animal não fique tonto - Leandra Luz/ND
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    Um dos maiores problemas dos engenhos tradicionais atualmente é a falta de profissionais capacitados para a montagem do engenho - Leandra Luz/ND
    Um dos maiores problemas dos engenhos tradicionais atualmente é a falta de profissionais capacitados para a montagem do engenho - Leandra Luz/ND
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    Jorge resolveu criar seu próprio engenho para poder manter a tradição viva, ele até mesmo recebe escolas no local - Leandra Luz/ND
    Jorge resolveu criar seu próprio engenho para poder manter a tradição viva, ele até mesmo recebe escolas no local - Leandra Luz/ND
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    As estruturas eram inicialmente feitas de estuque, pau a pique, barro e bambu - Leandra Luz/ND
    As estruturas eram inicialmente feitas de estuque, pau a pique, barro e bambu - Leandra Luz/ND
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    A mandioca já foi muito importante para a economia de Santa Catarina - Jorge Luiz/ND
    A mandioca já foi muito importante para a economia de Santa Catarina - Jorge Luiz/ND

Como funciona o engenho

Sobre o funcionamento do engenho, Jorge Luiz compartilhou informações sobre o cuidado com os bois utilizados no processo. “A gente coloca esse tampão no olho do boi, para ele não ficar tonto e perdido. A gente também não deixa ele ficar muito tempo, de meia em meia hora a gente troca os bois pra eles não cansarem. Geralmente eles são bem mansinhos”.

Segundo Jorge, é preciso tapar o olho do boi para que o animal não fique tonto – Foto: Leandra Luz/NDSegundo Jorge, é preciso tapar o olho do boi para que o animal não fique tonto – Foto: Leandra Luz/ND

Veja o vídeo:

Jorge mostra como funciona o engenho de farinha artesanal – Vídeo: Leandra Luz/Jorge Luiz/ND

Importância Histórica

O historiador Rodrigo Rosa, da FCC, contou a história dos engenhos de farinha em Santa Catarina, destacando sua importância desde a chegada dos açorianos no século XVIII até os dias atuais.

Rodrigo aponta que “o grande fluxo migratório açoriano no século XVIII marcou o surgimento dos engenhos na Ilha de Santa Catarina. Os açorianos, ao chegarem, trouxeram consigo a prática do consumo e manufatura da farinha, transformando-a em um produto fundamental na região”.

Engenho de farinha artesanal típico da Ilha de Santa Catarina no traço do artista Domingos Fossari. Do álbum “Florianópolis de Ontem” (1978)Engenho de farinha artesanal típico da Ilha de Santa Catarina no traço do artista Domingos Fossari. Do álbum “Florianópolis de Ontem” (1978). – Foto: Domingos Fossari

“A introdução da tecnologia dos engenhos representou, segundo alguns autores, o primeiro processo de industrialização no Brasil, ocorrendo na metade do século XVIII”, diz o historiador.

A produção da farinha de mandioca se tornou a principal indústria, movimentando a economia de Santa Catarina por quase dois séculos.

Desafios

Sobre os desafios enfrentados pelos trabalhadores dos engenhos, Rodrigo destacou as condições rudimentares das estruturas, inicialmente feitas de estuque, pau a pique, barro e bambu.

As estruturas eram inicialmente feitas de estuque, pau a pique, barro e bambu – Foto: Leandra Luz/NDAs estruturas eram inicialmente feitas de estuque, pau a pique, barro e bambu – Foto: Leandra Luz/ND

A introdução da força motriz animal, especialmente a dos bois, foi um marco na evolução tecnológica dessas instalações.

A economia de Santa Catarina, que inicialmente limitava-se ao litoral, experimentou uma transformação significativa com a ascensão dos engenhos.

A farinha de mandioca produzida tornou-se um produto de exportação crucial, abastecendo cidades como Montevidéu Colonial, Buenos Aires, Portugal Continental e até mesmo na América do Norte.

A mandioca produzida em um engenho de farinha artesanal já foi muito importante para a economia de Santa Catarina – Foto: Jorge Luiz/NDA mandioca produzida em um engenho de farinha artesanal já foi muito importante para a economia de Santa Catarina – Foto: Jorge Luiz/ND

Rodrigo explica que, ao longo do tempo, mudanças sociais, avanços tecnológicos e a busca pela modernidade levaram ao declínio dos engenhos de farinha artesanal.

A partir dos anos 1960 e 1970, a resistência ao que era considerado antigo e a introdução de tecnologias mais avançadas levaram à diminuição da importância dos engenhos.

Somente nas décadas de 1980 e 1990, alguns engenhos foram redescobertos como elementos históricos e etnográficos.

Segundo Rodrigo, atualmente, a Fundação de Cultura está em processo de reconhecimento dos engenhos como Patrimônio Cultural Imaterial de Santa Catarina. A certificação está em andamento.