De deusas a predadoras: entenda por que as cobras causam tanto medo e fascínio

Reações históricas causadas por estes répteis podem ter resposta biológica descoberta por cientistas

Foto de Ada Bahl

Ada Bahl Florianópolis

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O aparecimento de cobras em ambientes urbanos tem sido cada vez mais frequente em Santa Catarina. Os registros, por sua vez, conquistam e surpreendem tanto os curiosos usuários da internet quanto os apreciadores de répteis. No ND+ os bichanos frequentemente chamam a atenção dos leitores e desencadeiam de discussões a reações de pavor.

Fascínio e medo de cobras pode ter relação biológica – Foto: Pixabay/Pexels/Divulgação/NDFascínio e medo de cobras pode ter relação biológica – Foto: Pixabay/Pexels/Divulgação/ND

O fato é: não importa o sentimento, é difícil ignorar uma serpente, sendo considerada um objeto de medo e fascínio por séculos. Um estudo realizado em 2013, inclusive, pode ter descoberto o motivo dessa reação natural, comprovando que cobras podem ocupar um espaço especial no cérebro dos primatas.

A teoria da detecção

As cobras foram “os primeiros e mais persistentes predadores” dos primeiros mamíferos, diz Lynne Isbell, bióloga evolucionária da Universidade da Califórnia. Segundo ela, esses répteis eram uma ameaça tão crítica que moldaram o surgimento e a evolução dos primatas.

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Muitos cientistas assumiram a vantagem com a captura de insetos para a alimentação. Mas Isabell abalou essa visão da evolução em 2006, quando elaborou o livro “The Fruit, the Tree and the Serpent: Why We See So Well” (“A Fruta, a árvore e a serpente: Porque Nós Enxergamos Tão Bem”, em tradução livre).

Livro “Why We See So Well?”, de Lynne Isbell – Foto: Amazon/Reprodução/NDLivro “Why We See So Well?”, de Lynne Isbell – Foto: Amazon/Reprodução/ND

No livro a autora explica que as disputas de vida ou morte na copa das árvores e nas pradarias teriam sido responsáveis por selecionar características comportamentais e cerebrais dos ancestrais primatas. Esse seria o motivo para possuírem uma boa visão, percepção de profundidade e diferenciação de cores: enxergar e evitas as cobras venenosas.

Ela descobriu ainda que primatas em partes do mundo com muitas serpentes venenosas desenvolveram uma visão melhor do que os primatas sem contato com essas cobras. “Não é por acaso que os lêmures em Madagascar têm a pior visão do mundo dos primatas, lá não existem cobras venenosas”, diz.

Isbell também trouxe questionamentos. “Se o sistema visual dos primatas realmente evoluiu por causa disso, deveria haver alguma evidência biológica em seus cérebros”. Foi quando surgiu a ideia de estudo para analisar o estímulo nervoso causado pela identificação de serpentes.

Evolução visual dos primatas estaria relacionada à existência de cobras venenosas – Foto: Biological Sciences/Mount Holyoke/Reprodução/NDEvolução visual dos primatas estaria relacionada à existência de cobras venenosas – Foto: Biological Sciences/Mount Holyoke/Reprodução/ND

O estudo

Com base na teoria, um estudo com apoio do programa asiatíco Core, reuniu cientistas da Universidade de Toyama, no Japão, Universidade Davis, nos Estados Unidos, e do Centro de Primatas da Universidade de Brasília para analisar a parte do cérebro do macaco japonês (Macaca fiscata) envolvida no processamento visual.

Rafael Maior, professor do Instituto de Ciências Fisiológicas da Universidade de Brasília e participante do estudo, conta que as pesquisas já estavam sendo direcionadas a uma região de processamento emocional e memória chamada de “velho cérebro mamífero” quando a teoria de Isbell chegou a eles. A ideia, então, era captar a atividade neuronal de macacos provenientes de estímulos visuais envolvendo as cobras.

A equipe inseriu sondas nessa região cerebral, permitindo medir respostas a cobras, rostos, mãos de macacos e de formas geométricas. No primeiro estudo, então, eles encontraram que as células dessa região respondiam mais rápido e com uma latência maior para estímulos de serpente. “Essa se tornou a primeira evidência neurocientífica para essa teoria da evolução”, diz o professor.

Exemplo de um neurônio pulvinar que respondeu mais fortemente às cobras – Foto: Scientific Reports/Nature/Reprodução/NDExemplo de um neurônio pulvinar que respondeu mais fortemente às cobras – Foto: Scientific Reports/Nature/Reprodução/ND

Rafael explica que outros testes oriundos dessa primeira analise permitiram explorar mais essa reação neuronal. “Tem um outro artigo que avalia os estímulos causados quando é apresentada uma imagem de cobra deitada e em posição de bote. E a gente encontrou uma variedade não na velocidade, mas na intensidade dos disparos”, conta.

Antes de afirmar o sucesso do estudo, é necessário fazer uma série de outros testes para basear a teoria e comprovar que a linha de pensamento de Isbell realmente estava correta.

“E isso tudo evidenciou para a gente, não a comprovação da teoria, mas registros a favor dela. Agora estamos fazendo alguns outros trabalhos nessa direção, tentando explorar isso na medida do possível”, explica o professor.

Comparação da força entre as três fases em torno do início do estímulo – Foto: Scientific Reports/Nature/Reprodução/NDComparação da força entre as três fases em torno do início do estímulo – Foto: Scientific Reports/Nature/Reprodução/ND

Se a teoria de Isbell realmente está correta, poderíamos explicar melhor o porquê da ofidiofobia (fobia de cobras) ser a mais prevalente entre humanos, ou, também, o porquê das culturas envolverem tanto o animal. “Ela nos dá um norte. A partir dela conseguimos propor inúmeras outras, inclusive em relação ao sistema nervoso”, explica.

Talvez não tenha sido por acaso que a serpente foi um dos animais que mais despertou interesse durante a história da humanidade, sendo atribuída a características muito particulares que a levaram a ser venerada ou odiada.

Simbologia das cobras

Assim, a serpente se tornou um símbolo representativo em diferentes civilizações. Na antiguidade eram atribuídos inúmeros significados para esse réptil, como sabedoria, eternidade, reencarnação (por conta da troca de pele), sol, espiritual, paixões humanas, fertilidade, cura e morte, entre outros.

Na Índia, onde a religião predominante é o hinduísmo, a cobra é tão importante e sagrada que há templos dedicados a ela e muitas pessoas procuram manter esse animal por perto. Segundo a lenda hindu, uma cobra teria salvo a vida do deus Brahma, a quem o réptil protegia dos raios do sol com a cabeça.

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Nas religiões asiáticas, as serpentes também são vistas como animais muito antigos que cuidam de seus deuses. É o caso da serpente que cobre Buda enquanto ele está meditando e o protege da chuva. Na mitologia egípcia a serpente também se destaca por Renenutet, uma deusa da cobra que representa fertilidade, comida e colheita, e que era guardiã do faraó.

Para a cultura espiritual dos diferentes povos indígenas nativos americanos, a serpente representa poderes bons e maus. Mas, em geral, eles concebem esse tipo de animal como um ser protetor e com poder medicinal a quem rezam para pedir sabedoria e a cura para um ente querido.

Já para a cultura ocidental, a mais famosa foi a do Jardim do Éden, que, no contexto bíblico, convenceu Adão e Eva a comer o fruto proibido. Embora existam múltiplas interpretações da serpente na Bíblia, a maioria delas é negativa e está associada a maldade, engano, tentação e pecado.

Seria esse o motivo pelo qual costumamos associar o réptil a coisas ruins e, consequentemente, temê-lo?

Jackson cuida de três jiboias, duas fêmeas e um macho; a da foto é Jenifer, sua mais velha – Foto: Arquivo pessoalJackson cuida de três jiboias, duas fêmeas e um macho; a da foto é Jenifer, sua mais velha – Foto: Arquivo pessoal

Na biologia

Para o biólogo Jackson Preuss, o ser humano sempre lidou de forma diferente com esses animais, muito pelo fato de serem bastante fora do comum, não possuírem membros de locomoção e alguns ainda terem peçonhas.

Ele explica que a existência de muitas histórias e crendices envolvendo esses répteis ajudaram a moldar a forma como pensamos e vemos o animal. O fascínio e os tantos contos poderiam ser relacionados, exatamente, por não compreendermos como eles agem e vivem.

“Mundialmente esses animais sempre foram vistos com um certo temor. Por alguns deles possuírem peçonhas, o ser humano demorou para ter contato e iniciar estudos sobre eles. Por esse motivo muitas pessoas, não tendo clareza e informações suficientes, acabam mistificando o animal”, explica.

Jackson também é professor e possui três jiboias em casa. Ele diz que o que o motivou a adquiri-las foi servir como instrumento de educação ambiental, gerando curiosidade por parte de seus alunos e desmistificando algumas crendices populares.

Jenifer “maratonando filmes” com Jackson – Foto: Arquivo pessoalJenifer “maratonando filmes” com Jackson – Foto: Arquivo pessoal

“Conviver com esse animal hoje é muito mais do que tê-lo na minha casa. Ele também é um importante instrumento de trabalho frente às questões de educação ambiental, com objetivo de proteger e educar as pessoas”, conta o biólogo.

Desde novo, Jackson possuía um fascínio por cobras. Estimulado muitas vezes por programas de televisão, a curiosidade para entender o comportamento de tais répteis o motivou a estudá-los mais. “Conviver com as cobras tem me ajudado a entender melhor, principalmente, a dependência dos fatores ambientais para a saúde, como a temperatura e umidade do ar”, diz.

Ele começou adquirindo a Jenifer, sua jiboia mais velha, de 16 anos. Logo depois, Morena, de 11 anos, e Felipex, de 8 anos, também vieram dividir a casa. Em suas redes sociais, Jackson brinca e mostra o dia a dia e evolução das serpentes. Vale lembrar que as três foram adquiridas em um criatório legalizado, com autorização do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente).

Cuidados

O biólogo alerta para eventuais encontros com estes animais. Jackson explica que a serpente naturalmente tende a seguir seu caminho e não atacar, mas, se ela estiver acuada, o momento é de atenção.

“O ideal é evitar o contato mais próximo. Se o animal não conseguir naturalmente sair do local, é necessário chamar um órgão ambiental para fazer a retirada, uma vez que não é recomendado que as pessoas se aproximem ou manuseiem esse animal”, explica Jackson.

Outro ponto de alerta é para o abate de serpentes. Uma vez que são animais silvestres, estão protegidos por leis. Dessa forma, matar cobras é considerado crime ambiental. “Não é um ato correto e você ainda pode responder criminalmente por isso”, finaliza o biólogo.

Jenifer tem 16 anos e mede mais de três metros de comprimento – Foto: Arquivo pessoalJenifer tem 16 anos e mede mais de três metros de comprimento – Foto: Arquivo pessoal