Entenda o drama das baleias mortas em SC com início da temporada

Julho marca o início da temporada das baleias no litoral brasileiro, mas quantidade de animais mortos volta a chamar atenção no Estado

Isabéli Bender Florianópolis

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O mês de julho marca o início da temporada das baleias no litoral brasileiro. Com a chegada dos animais, um drama recorrente deste período volta a chamar atenção: a quantidade de baleias encontradas mortas em praias de Santa Catarina.

Décima baleia-jubarte foi encontrada morta em Florianópolis e enterrada nesta segunda-feira (19) – Foto: Regina Reis/R3 Animal/Divulgação/NDDécima baleia-jubarte foi encontrada morta em Florianópolis e enterrada nesta segunda-feira (19) – Foto: Regina Reis/R3 Animal/Divulgação/ND

Santa Catarina é conhecida como uma área de reprodução das baleias-francas, e nesse ano, elas chegaram ainda mais cedo ao Estado. A primeira aparição ocorreu no dia 12 de junho. Porém, para a surpresa de pesquisadores, está sendo registrada uma grande quantidade de baleias-jubarte no litoral catarinense.

Os jubartes vistos em Santa Catarina são animais jovens, estão entre o 1º ano e o 5º ano de vida, e registros de encalhes mostraram que muitos deles estão magros – o que pode estar relacionado com a falta de alimento para esta espécie.

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Este pode ser um fator responsável pela aproximação destes animais à costa catarinense, já que as baleias-jubarte se alimentam de pequenos
peixes, diferente das baleias-franca, que se alimentam somente de organismos planctônicos, como o krill existente na Antártida.

Baleia na praia do Plaza, em Itapema, foi encontrada morta – Foto: Reprodução/NDBaleia na praia do Plaza, em Itapema, foi encontrada morta – Foto: Reprodução/ND

Somente em 2021, 27 baleias-jubarte foram encontradas encalhadas no litoral do Estado. Sendo que, segundo o diretor do Projeto Baleia Jubarte, Milton Marcondes, 85% a 90% das baleias estão mortas quando encalham e 10% a 15% estão vivas.

“Há uma tendência no aumento de encalhes no Brasil, porquê há mais baleias. Em 2002, nós tínhamos cerca de 3.500 baleias, e agora temos mais de 20.000”, afirmou Marcondes. “Então temos mais baleias no mar aqui do Brasil, e isso é bom, mas significa mais baleias que morrem por causas naturais, ou como está acontecendo muito em Santa Catarina, por atividades do ser-humano”.

Com a aproximação dos animais nas costas, na procura por alimentos, as baleias acabam feridas por embarcações que passam por cima dos mamíferos, ou os animais acabam enrolados nas redes de pesca. Em 2020 três baleias-jubarte foram encontradas presas em equipamentos de pesca, mas em 2021 já são 22 baleias.

Em Florianópolis, já é a décima vez que o animal marinho é avistado morto. Desses casos, cinco foram encontrados com apetrechos de pesca no corpo. “Esse ano há um recorde de baleias-jubarte presas em rede de pesca, alguns desses casos são de baleiras que chegam nas praias com a rede presa no corpo”, conta o diretor do projeto.

Ele também ressalta que em muitos casos não há como identificar a causa da morte dos animais, já que eles chegam às praias em um estágio avançado de decomposição, dificultando o exame de necropsia, assim, não são inclusos na estatística.

Veja como é feita a necropsia em baleias encalhadas

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    Baleia-jubarte foi vista à deriva no sábado (10) - PMP/BS-Univille
    Baleia-jubarte foi vista à deriva no sábado (10) - PMP/BS-Univille
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    Ela ficou encalhada em Itapoá, no Litoral Norte de SC - PMP/BS-Univille
    Ela ficou encalhada em Itapoá, no Litoral Norte de SC - PMP/BS-Univille
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    Equipe do PMP esteve no local no domingo (11) - PMP/BS-Univille
    Equipe do PMP esteve no local no domingo (11) - PMP/BS-Univille
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    Baleia foi rebocada até a parte superior da praia - PMP/BS-Univille
    Baleia foi rebocada até a parte superior da praia - PMP/BS-Univille
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    Com a ajuda de um maquinário, foi possível fazer a necropsia - PMP/BS-Univille
    Com a ajuda de um maquinário, foi possível fazer a necropsia - PMP/BS-Univille
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    Necropsia indicou marcas de utensílios de pesca - PMP/BS-Univille
    Necropsia indicou marcas de utensílios de pesca - PMP/BS-Univille
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    Animal tinha marcas de utensílios de pesca pelo corpo - PMP/BS-Univille
    Animal tinha marcas de utensílios de pesca pelo corpo - PMP/BS-Univille
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    Baleia foi enterrada no local do encalhe - PMP/BS-Univille
    Baleia foi enterrada no local do encalhe - PMP/BS-Univille

Equipe é treinada para retirar animais presos em redes de pesca

Milton Marcondes destaca que soltar uma baleia presa em uma rede de pesca é uma atividade arriscada. “Uma jubarte adulta pode chegar a 35 toneladas, e ela tem muita força na cauda”, afirma. “Se você está tentando soltar uma baleia, ou entra na área próxima à cauda dela, é arriscado levar um golpe, caso ela esteja assustada, ou se debata para tentar se soltar da rede”, ressalta.

“Já aconteceu, inclusive, no Canadá, uma pessoa treinada para fazer a soltura de baleias de rede, com experiência de ter soltado mais de 20 baleias acabar morrendo. Era um colega nosso, que morreu porque uma baleia-franca, que ele estava soltando, se debateu na hora que ele estava cortando a última corda”.

“Todo mundo se preocupa, quer soltar uma baleia, mas é importante esclarecer isso. A baleia não sabe que você está ali para ajudar, ela está assustada, está machucada e pode se debater”, acrescenta.

Em Santa Catarina há uma equipe treinada para fazer a soltura dos animais, mas o diretor do Projeto Baleia Jubarte afirma que ainda é preciso trabalhar sobre a questão.

“Nós precisamos ter mais pessoas treinadas, com equipamentos corretos ao longo da costa do Brasil, para soltar essas baleias. Mas isso é trabalhar naquela pontinha do iceberg, é trabalhar depois que o problema aconteceu”, continua.

“Temos que tentar começar a trabalhar prevenção de emalhes, ou formas de tentar deixar os equipamentos de pesca mais fáceis de serem detectados pelas baleias, como colocar um alarme sonoro, ou modificar o tipo de equipamento de pesca que é utilizado quando as baleias estão por ali”, explica.

“Usar apetrechos que tenham menos chance do animal se enroscar. O que pode se tornar outro problema, pela resistência dos pescadores em trocar seus equipamentos”, reflete.

Apesar disso, Marcondes assume ser um problema para ambas as partes, já que em muitos casos a baleia acaba levando centenas de metros de rede, gerando um prejuízo muito grande para os pescadores que tiram dali seu sustento. “Temos um problema em comum, e precisamos encontrar uma solução boa para os pescadores e boa para as baleias”, diz Marcondes.

Primeiro encalhe de baleia-franca da temporada 2021

Neste domingo (18), o primeiro encalhe de baleia-franca da temporada 2021 aconteceu. Um filhote de baleia franca foi encontrado encalhado já sem vida na Praia do Camacho, em Jaguaruna.

A equipe do Projeto ProFRANCA foi até o local para realizar o registro da ocorrência, seguindo os procedimentos do Protocolo de Encalhe da Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca/CMBio.

O animal era um macho com 4,8 metros de comprimento. Não foram identificados sinais externos que indicavam a causa da morte, porém as dobras fetais mostravam se tratar de um filhote, com poucos dias de vida.

A baleia estava em estado avançado de decomposição, sendo assim, não foi possível realizar necropsia. A prefeitura do município enterrou o animal na manhã desta segunda-feira (20).

Primeira baleia-franca da temporada 2021 é encontrada encalhada em praia de Jaguaruna – Foto: ProFRANCA / Instituto Australis/Prefeitura de JaguarunaPrimeira baleia-franca da temporada 2021 é encontrada encalhada em praia de Jaguaruna – Foto: ProFRANCA / Instituto Australis/Prefeitura de Jaguaruna

Como ajudar em casos de encalhes

Animais mortos

  • Ligue para o telefone (0800) 642-3341, do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos;
  • Informe o local do encalhe e outras informações úteis;
  • Evite se aproximar do animal sob risco de contaminação biológica.

Animais vivos

  • Não tente devolver o animal para a água, pois pode ser perigoso;
  • Obtenha fotografias do animal, possibilitando a identificação da espécie e documentação do caso;
  • Evite respirar o ar expirado pelos animais;
  • Não se aproxime da cauda; são animais grandes em situação de debilidade física, que podem se tornar ariscos com a aproximação de outros indivíduos e, assim, causar ferimentos.

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