“Desceu, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto dos pobres familiares que cobriam a boca com as mãos enquanto se comprimiam ao pé da escada”. Os dedos estavam a ponto de apertar o gatilho. O dedo, na verdade. Indicador. A pele morna sussurrando o metal estrelado e limpo, num cumprimento inconsciente, mas daqueles comuns em reencontro de amigos. A arma postada junto ao ouvido. O tambor em silêncio. Ninguém pensava em sinfonia. O ar ossificado, cru. O assombro, uma janela opaca na parede. A mais longa travessia de um homem seria feita em poucos passos.
Ele pediu que ninguém interferisse, senão iriam ver o que não queriam. É sempre impossível desver. Não pediu, na verdade. Era homem de poucas palavras e não iria desperdiçá-las naquele momento vulgar. Foi com um movimento de olho, um gesto, um enrijecer de músculos, o balançar do ferro. Sutil, rápido e eloquente, a sua maneira. Não havia dúvidas. Passou pelo cunhado e elogiou a camisa listrada. Parecia nova. Faixas verdes e claras, na horizontal. Passou pelo sobrinho e o convidou para jogar futebol no domingo. Era praxe, nem precisava convidar. O tom era de convocação. O menino abaixou a cabeça, confuso.
Passou pela irmã e agradeceu as tortas de limão que ela fazia. Geralmente no sábado pela manhã, a parte do dia mais tranquila na semana. Passou pela prima e apenas fez um aceno de cabeça. Ela decifrou o código. As pupilas dilatadas abrindo um dicionário particular de significados. Apenas não conseguia se ver sabendo do que via. Olhar é verbo conjugado por espelhos. Mais dois passos e ele chegou até o pai. Frente a frente com o velho, afastou a arma do ouvido e a deixou estar deitada na palma da mão direita. Como um garçom que segura na bandeja um copo de água e, gentilmente, oferece ao cliente. O pai ficou imóvel e, numa calma trêmula, recusou o refresco. Fazia calor.
SeguirO filho consentiu. Sempre entendeu as razões do pai. Não seria agora que iria contestá-las. Segurou firme a arma e apontou novamente contra o ouvido. O choro de uma criança na sala quebrou o ato solene. Ele nem piscou. Seguiu caminhou em direção à porta, dando às costas para os outros. Era ele e os outros, só. Não mais os reconheceria. Os olhares alheios eram espinhos nos ombros. Mas ele atravessou o limiar. Fechou a porta com a mão que não segurava nada. No estalo da fechadura, parece que o tempo voltou a correr. Alguém gritou lá dentro. No andar de cima, Lúcia e o outro já não existiam, mas estavam vestidos. O gato lambia o pelo no telhado de zinco. Abusado, indiferente.