Com o mercado veterinário e da alimentação focados principalmente em cães e gatos, tutores de animais exóticos ou não convencionais precisam ter cuidados especiais para manter seus pets. Este é o caso de algumas famílias de Joinville, no Norte catarinense, que optaram por ter um animal não convencional.
A cobra Jade e o porco Julio – Foto: Arquivo PessoalO porco Julio e a família Almeida estão juntos desde que ele era um filhote e, ao longo do tempo, adaptações foram necessárias para trazer conforto ao porquinho. “Minha mãe sempre gostou de animais diferentes, somos todos veterinários. Um dia, meu marido contou que uma porquinha de um sítio de um amigo tinha tido filhotes e um estava fraquinho, a mãe não estava dando de mamar, ficamos com dó e pegamos ele para criar”, conta Daniele Almeida, veterinária.
Hoje, Julio vive dentro de casa, em meio aos cachorros e gatos da família. Ele, porém, precisa de cuidados especiais. A família precisou, por exemplo, colocar tapetes para que o porco pudesse andar pela casa, pois ele não consegue ter estabilidade no piso liso. Ele também toma banho uma vez por semana e usa hidratante, já que a pele do animal é seca.
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Julio dorme com os cães da casa – Foto: Arquivo PessoalAlém dos cuidados cotidianos, a família precisou encontrar profissionais especializados para atender Julio. “Apesar de sermos veterinários, não somos especialistas em porcos e os veterinários que atendem não são acostumados com porcos como Pet, mas sim para criação”, conta.
Por isso, a família recorreu à internet, onde encontraram uma especialista em suínos pets de São Paulo. “A veterinária vem a cada ano polir as presas, cortar os cascos e vacinar, e sempre que temos alguma dúvida, ela nos atende”, explica Daniele.
Julio tem a própria carteirinha de vacinação – Foto: Arquivo PessoalO retificador Maykol Stela também precisou adequar sua rotina para dar qualidade de vida para Jade, sua jiboia de estimação. “Tive um problema com a Jade logo que cheguei em Joinville. Éramos de São Paulo e ela demorou um tempo para se adaptar ao clima da região. Sendo assim, ela parou de comer por um tempo, mas com a ajuda de profissionais conseguimos logo entender a situação e reverter o quadro”, conta Maykol. Hoje, Jade pesa nove quilos e tem pouco mais de dois metros.
Jade também requer cuidados especiais constantes. O principal é manter a temperatura e umidade do terrário. De acordo com o Maykol, é necessário garantir o máximo de conforto pro animal e, ao mesmo, tempo simular o ambiente natural.
Jade pesa nove quilos e mede mais de dois metros – Foto: Divulgação/ND“No terrário dela, por exemplo, eu uso uma placa aquecedora que a ajuda a controlar sua temperatura corporal , na digestão e no processo de troca de pele. Quando ela sente que precisa se refrescar, tem uma bacia com água que ela entra e fica o tempo que achar necessário e algumas vezes ela só fica do lado mais frio do terrário”, explica.
Assim como Julio, a cobra Jade também precisa de cuidados veterinários de especialistas. “Por ser um animal não convencional a demanda de profissionais nessa área ainda é bem pequena comparada ao setor de convencionais, porém o mercado de animais exóticos está em alta constante, sendo assim mais pessoas tem se dedicado a essa área médica também”, comenta o retificador.
Jade tem seis anos – Foto: Divulgação/NDAtenção com a alimentação dos animais
De acordo com o veterinário Igor Magno, especializado em animais exóticos, um dos pontos de atenção para se ter este tipo de animal é a alimentação. O especialista conta que já atendeu gambás que, por exemplo, apareceram com os membros e mandíbulas tortas porque tentaram tratá-lo em casa e houve um desequilíbrio na alimentação.
Nestes casos, é necessário conversar com um especialista para ver a melhor opção para o bicho. “Muitas espécies não têm rações. Para gambás, não existe ração específica no Brasil. Para as cobras, tem que dar alimento vivo ou congelado”, explica.
Para o veterinário, a alimentação é o coração da medicina de animais selvagens, mas o mercado ainda é muito novo e há poucos suplementos e rações. “Hoje é melhor do que anos atrás, mas ainda não é perfeito, mas vai atualizando”, opina. Além disso, o especialista conta que há poucos profissionais voltados para este tipo de bicho, por isso, ele viaja pelo Brasil fazendo atendimentos.
Além da alimentação, Igor fala sobre a necessidade dos cuidados nos ambientes, como no caso dos répteis, em que é preciso controlar a temperatura, manter terrário aquecido e fornecer iluminação correta. “Se colocar atrás do vidro da janela, já não é o suficiente, precisa manter [ a janela] aberta para pegar sol”, conta.
Lei de proteção
O veterinário destaca que as pessoas não podem sair pela rua pegando os animais, pois é crime. Segundo a lei 5.197/1967, é proibido a utilização, perseguição, destruição, caça ou apanha de espécimes da fauna silvestre. Antes de adquirir um animal silvestre, é necessário ter uma autorização do Estado.
De acordo com Igor, há criadores legalizados que fazem a socialização destes animais com seres humanos e, a partir destes espaços, os interessados podem pedir uma autorização para ter o pet. Porém, para ter o registro de autorização, é preciso corresponder a uma série de critérios.
Estes locais também podem indicar acompanhamento veterinário após venda e qual deve ser a base nutricional do animal. O veterinário lembra que, apesar de serem mais domesticados quando vindos de criadores, todos ainda possuem seu instinto selvagem.
Relação entre os animais e humanos
No caso da família Almeida, o porco Julio vive em meio aos cães e gatos e todos convivem bem. “Se dá super bem com outros pets da casa. Os cachorros dormem com ele. Apesar do tamanho, ele é bem delicado e cuidadoso com os pets”, destaca Daniela.
Julio enquanto filhote, passeando com os cachorros – Foto: Arquivo Pessoal
A tutora conta que o porco e os demais animais da casa se dão super bem – Foto: Arquivo PessoalJulio também aprendeu a reconhecer motociclistas, conta a tutora. “Ele ama pizza. Escuta o motoqueiro e já fica gritando. Não podemos comer pizza na sala que ele levanta do colchão dele e vem querendo nossa pizza”, ri a veterinária.
Jade também convive bem com humanos e animais. “Nunca podemos esquecer que a Jade é um animal silvestre. Porém nascido em cativeiro, ou seja , desde muito pequena sempre teve contato com o ser humano”, diz Maykol.
A gata da família é muito curiosa e costuma observar a Jade. Houve uma época que Jade era menor e Maykol podia deixar a cobra e a gata juntas. “hoje eu não arrisco mais. Temos que saber respeitar a natureza de cada animal”, lembra.
Maykol e Jade – Foto: Thiago Fraga
Jade e a gata da família Letty – Foto: Divulgação/NDHoje , a jiboia entende que humanos e animais não são ameaçados e permite o manuseio tranquilamente. “Mas, sempre com alguns cuidados específicos também. A Jade particularmente é um animal extremamente dócil”, conta o tutor.
Por isso Maykol decidiu trabalhar com a conscientização sobre os animais. “Levo a Jade pras escolas e divulgo as informações corretas nas redes sociais. Acredito que possa mudar pelo menos um pouquinho a mentalidade de algumas pessoas e mostrar que as cobras não são as vilãs. Basta termos respeito por ela e seu habitat.”
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