Josi Maldaner chegou em Florianópolis aos oito meses de vida, quando o pai, Casildo Maldaner, veio de Maravilha, no Oeste catarinense, para assumir o primeiro mandato de deputado estadual.
Formou-se em medicina veterinária pela Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), em 1996, pós graduou-se em clínica e cirurgia em pequenos animais e especializou-se em odontologia veterinária, há mais de 15 anos, em São Paulo.
Casada com o cirurgião-dentista Ivan Borges Jr., com quem troca saber profissional, é mãe de Joanna, dos gêmeos Joaquim e Jessica, e ainda tem a Nala Jolie, uma Golden Retriever de um ano, “amorosa, brincalhona e companheira”, descreve a tutora.
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Dra. Josi Maldaner com um de seus pacientes – Foto: Divulgação/NDFoste criada perto de bichos?
Não exatamente, porém meu pai sempre foi muito conectado ao campo e o convívio com os animais domésticos era frequente nas férias. E em casa, sempre tínhamos cachorro, coelho…
Ser médica veterinária sempre foi o teu desejo?
Desde adolescente sempre gostei muito de animais e fiz hipismo clássico. Acompanhava o trabalho do médico veterinário, e foi natural o gosto pela área. Levava comida aos animais de rua e gostava de estudar a área da saúde.
Por que se especializar em odontologia veterinária?
O título de “especialista” ainda não está aprovado no Brasil para essa área, porém há dois cursos de especialização em odontologia veterinária com duração de dois anos, onde o profissional sai habilitado a efetuar tratamentos específicos, como endodontia, ortodontia, prótese, cirurgias avançadas.
O interesse pela odontologia veio após conhecer a área em um outro curso de pós-graduação, além de estágio nos Estados Unidos, onde abriu a minha visão para as áreas da medicina veterinária. Eu fiz residência em anestesia veterinária e fiquei atuando por um bom tempo até poder me dedicar exclusivamente a cuidar das boquinhas dos pets.
Trocas informações com o teu marido que ajudam no trabalho um do outro?
Sim! Conheço meu marido desde pequena, mas fomos nos encontrar mais tarde, quando pedi ajuda a ele (era meu dentista) para concluir um trabalho na pós-graduação.
Gosto muito de compartilhar casos com ele, cirurgião-dentista, porque posso oferecer o melhor ao meu paciente com técnicas e materiais mais avançados na odontologia. Ele fica surpreso com alguns problemas que não imaginava que existiam em animais. Há uma troca de ideias.
No entanto, já há médicos veterinários odontólogos muito experientes no Brasil, e com eles que divido o dia a dia, tentando viabilizar o melhor para casos complicados.
Ivan Borges Jr. e Josi Maldaner: enquanto ele cuida da dentição dos humanos, ela trata a saúde bucal de animais – Foto: Divulgação/NDQuais espécies animais tratas?
Eu cuido da dentição de cães, gatos e furões, porém há colegas que atuam na área da odontologia em equinos e em silvestres, como porquinho-da-índia e coelhos, bem como aqueles que tratam animais em zoológico. Já atendi um macaco e foi uma experiência marcante.
Qual a necessidade da escovação dental em animais domésticos?
A enfermidade que mais acomete cães de gatos, cerca de 85% acima de três anos de idade, é a doença periodontal, causada pela placa bacteriana oriunda da alimentação. Esta placa vai formar o cálculo conhecido como tártaro. O animal fica com mau hálito e poderá perder os dentes.
A prevenção dessa doença se faz por meio da escovação e profilaxias anuais. Quando filhote, durante o esquema vacinal, o médico veterinário avalia a troca da dentição e já instrui sobre a escovação. Porém, pets adultos se adaptam também, desde que estejam com a saúde bucal em dia, livre do tártaro.
Como a escovação deve ser feita?
O indicado é escovar todos os dias, tal qual nós, humanos! Contudo, há bons resultados fazendo a higiene três vezes na semana. Teoricamente, a placa bacteriana que dará origem ao tártaro se organiza em 48 horas. Há animais mais susceptíveis a esse acúmulo e precisam de uma assiduidade maior.
A escova indicada deve ter cerdas macias e de cabeça com tamanho de acordo com o porte do animal, bem como pasta dental coadjuvante veterinária, porque não contém flúor, não faz espuma e possui um gosto mais agradável ao paladar dos cães e gatos.
Cuidados com a saúde bucal dos animais de estimação deve ser constantes – Foto: Divulgação/NDComo proporcionar aos pets conforto em dias muito quentes?
Ideal ambiente bem ventilado, água fresca e disponível em mais ambientes da casa, água corrente para gatos torna mais atrativo. Não passear na rua entre 10h e 17h, quando a temperatura se encontra mais alta, evitando insolação e queimadura dos coxins [“almofadas” das patas]. Oferecer cubos de gelo ou picolé caseiro feito com frutas ou carne. Banhos frequentes, respeitando o tipo da raça.
Gelo?
Sim! De preferência, dentro do pote de água e com tamanho dos cubos não muito grande para não favorecer fratura dental.
E sorvete?
Tanto o sorvete quanto o picolé para cães são opções refrescantes e que podem vir a calhar no verão. Você pode misturar várias frutas e até deixar alguns pedacinhos no meio do líquido para ele experimentar texturas diferentes. Mas nada de botar chocolate, açúcar, nem nada muito elaborado, hein? Os sorvetes e picolés devem ser totalmente naturais. Uva e abacate devem ser evitados.
Há veterinários que recomendam apenas ração a animais de estimação. Por quê?
A ração é um alimento prático e balanceado. No entanto, alguns animais podem desenvolver distúrbios por conta de alguns componentes, e a alimentação natural veio mais forte para tratar esses casos. Hoje, temos médicos veterinários nutricionistas, que fazem uma dieta balanceada, podendo ser inclusive mista ou somente com alimentação natural.
Quais riscos sofre um animal que come os mesmos alimentos dos humanos?
Há alimentos e temperos que não são indicados aos pets, como cebola, alho, alho-poró, uva, macadâmia, carambola, noz-moscada, açaí, semente de maçã e pera, chocolate, podendo levar a distúrbios gastrointestinais e intoxicação.
Cada espécie tem necessidades específicas: gatos gostam de água corrente – Foto: Joyce Mussi Gonçalves/Divulgação/NDA imagem do cão roendo osso é clássica. Todos crescemos achando natural. Há problema nisto?
Cães são carnívoros e gostam da carne que tem ao redor do osso. Uma vez retirada a mesma, só funciona como recreativo.
Como veterinária dentista eu não indico dar aos pets ossos ou brinquedos muito rígidos porque são a grande causa das fraturas dentárias!
Uma dica: se a marca da unha do seu dedo ficar no objeto a ser ofertado ao seu pet, dificilmente irá fraturar o dente.
Há quem indique ossos não cozidos de tamanho maior que a cabeça do animal para evitar engasgos e perfurações no trato digestivo. Porém, eu já presenciei animais com vários problemas por brincarem com ossos.
O que pode causar ao cão fechado em um carro exposto à alta temperatura?
Os cães não transpiram pelo corpo, apenas trocam calor pela língua, coxins e focinho. Cerca de 30 minutos são suficientes para aumentar em 80% a temperatura do animal em ambientes fechados e mal ventilados. A hipertermia pode levar à convulsão, desmaio e até a morte.
Uma lei em vigor desde 2001 em Florianópolis proíbe cães na praia. Agora, tramita na Câmara Municipal um Projeto de Lei Complementar para criar espaços nas praias e condições para a presença deles. Por que o CRMV/SC (Conselho Regional de Medicina Veterinária de Santa Catarina) é contra a mudança? Que perigos reais eles representam?
O CRMV/SC é uma entidade que tem meu respeito, e a maior preocupação é com a saúde dos animais, das pessoas e do ecossistema.
Já foram feitas reuniões com entidades da classe médica, biólogos, do meio ambiente, entre outras, quando um projeto semelhante foi apresentado em 2018.
Como “mãe” de pet que gosta de água, eu acho muito interativo o tutor brincar com seu animal na praia, refrescar na água, interagir com a família em ambiente arejado, assim como em algumas áreas delimitadas em praias americanas.
Porém, mesmo que nossos animais estejam bem cuidados, com vacina e vermifugação em dia, há muitos animais sem dono que frequentam as praias. A maior preocupação é com a saúde dos animais e das pessoas.
Questão difícil de equacionar, não?
Creio que debates envolvendo entidades de classe possam trazer uma solução para esse projeto que tem como objetivo inicial o bem-estar de todos.
Josi e Ivan com os filhos, Joanna (centro), Joaquim e Jessica, e a mascote, Nala Jolie – Foto: Divulgação/NDPor que algumas pessoas sentem mais a perda de um animal do que a de um amigo ou parente?
Esta é uma questão cada vez mais comum no nosso dia a dia. Com o avanço na medicina veterinária, os animais de estimação estão tendo mais longevidade e fazendo parte da família de forma mais interativa.
Muitas pessoas convivem com esse pet mais do que um parente ou amigo, manifestando cuidado, carinho, alegria e parceria diária, levando a perda do mesmo causar um vazio na alma.
Os pets são animais de companhia e trazem inúmeros benefícios para nós. Só quem teve a oportunidade de ter um melhor amigo animal sabe a dor da perda.
Que sinais mostram que um tutor passa do limite ao tratar o bicho cada vez mais como humano e não como animal?
Esta nova tendência tem sido favorecida pelo consumismo e pelo individualismo, e é resultado do isolamento pessoal, da insegurança e da cibercomunicação.
Isso foi reforçado quando apareceram filmes onde eles eram os protagonistas. Todos queriam certas raças, independentemente de serem as mais adequadas para as necessidades.
Além disso, animais domésticos são muito sensoriais, eles percebem nossas emoções muito antes de nós mesmos colocarmos para fora. Nós, humanos, sentimos que temos no pet um psicólogo, um melhor amigo e/ou um filho.
Entretanto, não é saudável e indicado tratar um cão ou gato como se fossem humanos ou esperar que se comportem como crianças pequenas, pois além de prejudicá-los – afinal, são seres pertencentes a outras espécies e possuem instintos e comportamentos próprios –, pode fazer mal aos tutores.
Tudo é questão de bom senso.