As tainhas, muito famosas em Florianópolis, são protagonistas de um fenômeno migratório intrigante que conecta a Argentina à região Norte do Brasil. Caio Magnotti, doutor em Aquicultura e supervisor do Laboratório de Piscicultura Marinha da UFSC, compartilhou detalhes sobre a pesca da tainha e sua relevância ecológica.
Tainhas pescadas na praia Retiro dos Padres em Bombinhas – Foto: Reprodução/NDTainhas pelo Brasil
Considerada Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Estado de Santa Catarina (Lei Nº 15922,/2012), a tainha é um peixe versátil com várias espécies, embora no Brasil a principal seja a Mugil liza.
“O termo tainha é muito genérico. Se a gente for pensar no grupo dos Mugilidae, temos aqui no país cinco ou seis espécies diferentes, mas a grande maioria delas fica nos rios”, explica Caio.
SeguirCaio compartilhou que “aqui em Santa Catarina nós temos a Mugil curema, bem fácil de identificar, com a ‘bochecha’ amarela. E as tainhas que vão para o mar aberto, que são o alvo da pesca, aqui no Brasil só tem uma espécie, a Mugil liza”.
Biometria da Mugil curema – Foto: Reprodução/Juliano Santos Gueretz/UDESC/NDNova divisão
Historicamente, as tainhas de mar aberto eram divididas em duas espécies: Mugil liza e Mugil platanus, porém, estudos genéticos realizados em 2010 confirmaram que ambas pertencem à mesma espécie, a Mugil liza, mas são populações diferentes.
“A grande diferença é que as tainhas do Sul migram da Argentina, Uruguai e da Lagoa dos Patos para o Norte do país, fugindo do frio, indo até São Paulo. Já a população que vive em São Paulo e se desloca para o Norte faz migrações menores”, explica Caio.
O especialista explicou que por serem populações diferentes, elas têm aspectos morfológicos diferenciados, como tamanho, cor, cabeça, olhos e escamas.
Tainhas gigantes em Florianópolis
Lanço de Tainha na Barra da Lagoa impressionou pescadores pelo seu tamanho – Foto: Roberto Zacarias/SECOM/NDUma questão que intriga pescadores e entusiastas é a origem das tainhas gigantes avistadas recentemente em Florianópolis. Segundo Caio, esses exemplares provavelmente migraram de áreas mais ao Sul, como a bacia do Rio da Prata.
A pesca industrial, voltada para capturar essas tainhas maiores, se concentra em águas mais profundas, possivelmente relacionadas à sua migração de longa distância.
“A questão do tamanho está mais relacionada à pesca industrial, que geralmente captura os peixes maiores, chamados de lombo preto. Normalmente ficam em lugares mais profundos, onde a pesca industrial atua. Embora as tainhas da Lagoa dos Patos, da Argentina e do Uruguai se encontrem no mar e migrem juntas para desovar, não podemos caracterizá-las apenas as observando”, explica Caio.
Importância da tainha
A tainha é muito importante para economia e cultura de Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/NDAlém da importância econômica, a tainha desempenha um papel crucial no ecossistema marinho. Além de revirar o solo em busca de alimento, ajudando na oxigenação e na renovação da água, elas servem como base alimentar para uma variedade de espécies, incluindo tubarões, golfinhos e aves.
“Elas têm uma importância muito grande, seja como fator ambiental, de qualidade de água e do solo ou como alimento para as espécies carnívoras”, finaliza Caio.