Eles podem entrar em alguns shoppings e restaurantes, viajar com os tutores no avião e são considerados, por muita gente, membros da família. Defensora da causa animal, a vereadora de Florianópolis Priscila Fernandes (Podemos) apresentou um PLC (Projeto de Lei Complementar) para permitir a presença de cães e gatos nas praias, em locais cercados e, desde que estejam com as vacinas em dia. O CRMV-SC (Conselho Regional de Medicina Veterinária de Santa Catarina), no entanto, é contra.
Isadora está na torcida pela liberação da lei para passear livre com Noah e a pequena Dora – Foto: Leo Munhoz/NDNão é a primeira vez que um vereador apresenta projeto com o objetivo de liberar as areias das praias para os patudos. Em 2019, projeto semelhante foi apresentado e depois arquivado. Na Capital, uma lei em vigor desde dezembro de 2001 veta a presença de pets domésticos nas praias. No entanto, a fiscalização praticamente inexiste e muitos tutores se arriscam a serem multados pela infração.
É o caso da estudante de medicina Isadora Pandini, 18 anos, que mora no Santinho, Norte da Ilha. Tutora do Noah, de um ano, e da Dona, filhote que ainda não colocou as patas no chão, porque não é vacinada, Isadora sempre está com os cães na praia.
“Todo mundo ama ver o Noah correndo”, contou a jovem, que está torcendo pela aprovação da lei. “Falam que cachorro faz parte da família, mas aí não pode trazer para os lugares. É chato isso”, desabafou.
Gaúcho de Porto Alegre, o professor Arthur Vinadé, 28 anos, está visitando a mãe Claudia, nos Ingleses, Norte da Ilha. Na viagem, trouxe o Jorel e a Lori, que também o acompanham nos passeios na praia. Ele é mais um na torcida.
Arthur, de Porto Alegre, é mais um na torcida pela aprovação do projeto; ele é o tutor de Jorel e Lori – Foto: Leo Munhoz/ND“Super adepto da ideia! Precisa ter a condição da higiene. Sempre andamos com saquinho e damos uma volta antes, para a higiene deles ser fora da areia. Eles brincam muito, então, também tem que cuidar das crianças. Evito deixar eles correrem muito quando a praia está cheia”, explicou o turista.
Em relação à saúde dos animais, Vinadé disse que ficam cansados de tanto brincar, que leva dois litros de água só para eles e que não exagera na exposição ao sol. “Considero que é benéfico para a saúde mental deles. Os meus adoram”, comentou.
Ponderações necessárias
Turista de Campo Grande (MS), o empresário Antônio Mendes Ferreira, 60 anos, disse que é favorável à presença somente de animais menores. “O pitbull, por exemplo, pode ser um cachorro traiçoeiro. Se ele pega uma criança e o dono não vê, imagina. Esse tipo de cachorro, sou contra”, disse Ferreira, que teve uma experiência negativa com cachorro na praia dos Ingleses: “Ele chegou perto, não chegou a me pegar, mas passei medo”, contou.
De Joaçaba, no Oeste do Estado, a empreendedora Cremice Satiq, 37 anos, está passando férias com o marido, o comerciante Marcos Satiq, 36 anos, e a filha Bianca, de seis anos.
“É legal que as pessoas possam trazer os animais, mas elas têm que ter a responsabilidade de deixar tudo limpo quando eles fazem suas necessidades, até para evitar a contaminação da areia. Nós temos criança, então, tem essa preocupação”, explicou a turista.
Até os pets da Argentina estão em Florianópolis. A psicóloga social licenciada Nora Graciela Sanches, 55 anos, de Resistência, é tutora do Chiqui.
“Sou a favor de que os mascotes acompanhem seus donos na praia, sobretudo raças pequenas. São animais que estão bem adestrados e que não sujam a praia, porque tampouco sujam a casa. O que fazem em casa, fazem na praia”, argumentou a turista.
Argentina, Nora também quer aprovação da lei; ela resgatou Chique, que sofria maus-tratos – Foto: Leo Munhoz/ND“Esse meu, por exemplo, está aqui, em cima de mim e, se tiver desejo de fazer suas necessidades, avisa. No mais, quando viemos para cá, não podemos deixá-los sozinhos e nem aos cuidados de outras pessoas, porque isso os entristece, mesmo quando são bem cuidados”, relatou.
“As pessoas querem estar com seus pets”
França, Itália, Portugal, Espanha, Inglaterra, Canadá e Estados Unidos são países que aceitam animais na praia, segundo a vereadora Priscila Fernandes. No Brasil, em algumas praias do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, além de Santos, no Litoral paulista, os tutores podem levar seus animais de estimação para a praia.
A vereadora observou que a proibição não impede as pessoas de levarem os animais à praia. “No início das manhãs e final do dia, muita gente passeia com os animais. Tem aqueles que levam o bicho quando todo mundo está na praia e isso incomoda muita gente, mas não podemos ignorar que as pessoas querem estar com seus pets”, frisou.
Ferreira é contra presença de animais que podem ser mais agressivos – Foto: Leo Munhoz/NDPor meio do projeto, Priscila Fernandes quer uma flexibilização do atual regramento, para respeitar quem não gosta dos animais na praia e dar uma oportunidade a quem gosta.
Ela explicou que o projeto indica que os animais devem estar vacinados, com a vermifugação em dia e que permanecerão em espaço demarcado e fiscalizado. “Se o animal estiver com a saúde dentro das regras, não vai colocar ninguém em risco”, ponderou.
Sob responsabilidade do tutor
Para utilizar o espaço demarcado na praia, a vereadora autora do projeto ressaltou que os tutores devem juntar as fezes do animal, mantê-los sob seu controle e não será permitida a entrada de bichos no cio ou pré-cio. O projeto não detalha as dimensões da área demarcada, quem fará a fiscalização, nem se os espaços serão criados em todas as praias.
Em seu primeiro mandato, Priscila Fernandes tem a causa animal como principal bandeira – Foto: Divulgação/NDPriscila Fernandes também disse que, no começo, a medida pode ser testada em poucas praias. “A minha rede [de apoiadores] quer muito isso. Se todo mundo que deseja a mudança realmente começar a levar, acredito que duas, três, quatro praias vão ser pouco”, comentou.
O projeto apresentado em janeiro deste ano, será analisado pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara de Vereadores e, possivelmente, em outras comissões antes de chegar ao plenário. Para ser aprovado, necessita de 12 votos – maioria simples.
Preocupação com a saúde dos animais
Assessor técnico do CRMV-SC, o médico veterinário Paulo Zunino disse que o conselho ainda não viu o projeto, mas é contrário à presença dos animais na praia, porque se preocupa com a saúde das pessoas, do meio ambiente e dos animais.
No caso dos humanos, a preocupação é com o risco de zoonoses e possível agressividade de alguns cães. O risco ambiental, segundo Zunino, é que os pets podem modificar o comportamento da fauna nativa da praia, podendo levar doenças para aves e crustáceos.
O casal Marcos e Cremice se preocupa apenas com a higiene das praias – Foto: Leo Munhoz/NDNo caso dos pets, a preocupação é com possíveis problemas de saúde que eles possam ter. “É legal ver um cachorro correndo na praia, mas isso pode trazer risco para eles”, ressaltou Zunino. Segundo o assessor técnico, o conselho não foi consultado sobre o projeto.
Principais problemas de saúde que os pets podem ter na praia:
- Dermatopatias por exposição ao calor, contato com a umidade e agentes infecciosos;
- Exposição aos raios solares, que pode levar ao câncer de pele, que também acomete os cães;
- Desidratação, insolação e intermação pela exposição ao calor;
- Transtornos comportamentais, envolvendo fuga e agressividade com outros cães e pessoas;
- Risco de afogamento, principalmente para animais com focinho achatado, que podem ter dificuldades na água;
- Lesões na visão, principalmente nos mais baixinhos e mais vulneráveis ao contato com areia nos olhos;
- Lesões nas orelhas, principalmente nos animais com orelha pendular, direcionada para baixo.