O mar de São Francisco do Sul, no Litoral Norte de Santa Catarina, foi cenário de um registro raro em toda a costa brasileira: 38 exemplares de mero, uma espécie de peixe considerada criticamente ameaçada de extinção, foram vistos no local, uma cena única e histórica.
O mero é uma espécie de garoupa e é considerado criticamente ameaçado de extinção – Foto: Athila Bertoncini/Projeto Meros/DivulgaçãoO registro foi feito pela equipe de pesquisa do Projeto Meros do Brasil, que se dedica a garantir a conservação deste peixe que é a maior espécie de garoupa do Oceano Atlântico. Segundo a equipe, esta é a segunda maior agregação registrada desde o início do monitoramento, há 20 anos.
As imagens foram feitas durante um mergulho para a manutenção da rede de telemetria acústica, usada para estudar os padrões de movimentação dos meros. Com base nos dados, é possível contribuir para preservar as áreas de reprodução, essenciais para a conservação da espécie.
Seguir“Flagrar uma agregação já é algo que exige muita sorte, pois temos que estar no local certo, na hora certa. Este é um evento raro, que acontece em poucas luas do ano, em poucos locais na costa brasileira”, explica Maíra Borgonha, gerente geral do Projeto Meros. Veja o vídeo:
Esta foi a segunda maior agregração vista desde o início do monitoramento – Vídeo: Athila Bertoncini/Projeto Meros/Divulgação
A maior agregação já avistada reuniu entre 45 e 50 peixes no mesmo local. Houve outros números expressivos de meros reunidos, mas aí em apreensões de meros pescados ilegalmente, somando mais de 40 exemplares. “No passado, essas agregações chegavam a reunir centenas de meros, porém, com décadas de exploração e com a pesca irregular que ainda acontece, os números foram ficando cada vez menores”, diz Maíra.
Registro é histórico, mas não significa recuperação da espécie
Alguns fatores fazem com que o mero seja considerado uma presa fácil para os pescadores. A espécie tem maturação tardia (por volta dos sete anos), se reproduz em áreas rasas, apresenta alta fidelidade aos locais de desova, é extremamente dócil e, além disso, é grande, podendo chegar a 2,5 metros de comprimento e pesar mais de 400 quilos.
Diante disso, considerando toda a área de distribuição da espécie no Brasil, estima-se que a redução dos meros no Brasil tenha sido superior a 80% nos últimos 65 anos. Desde 2002, a captura, beneficiamento, transporte e comercialização do peixe são proibidos no país.
Dócil e grande, mero é atraente para a pesca – Foto: Athila Bertoncini/Projeto MerosAssim, um registro como o feito em São Francisco do Sul é uma boa notícia, mas ainda não significa uma recuperação dos estoques. “Quando olhamos para os números de apreensão a avistagem dessa quantidade de exemplares não indica que as populações de meros ao longo da costa brasileira estão recuperadas já que em uma única operação de pesca ilegal, agregados com este podem desaparecer”, explica Leonardo Bueno, doutor em Oceanografia Ambiental e pesquisador do Projeto.
As agregações reprodutivas dos meros ocorrem anualmente entre dezembro e março e eles podem migrar por centenas de quilômetros. Há registro, inclusive, de um mero que nadou cerca de 400 km para chegar ao local de agregação na Flórida.
Nesta época, os cardumes chegam a ficar quatro vezes maiores que em períodos não reprodutivos, o que é a única chance de reprodução da espécie do ano, mas também se torna uma oportunidade atraente para a pesca irregular.