Balões, faixas, cartazes, criançada com os olhos brilhando na pista de treino e o abraço caloroso dos familiares, amigos e treinadores ainda no aeroporto, antes da ‘heroína’ de Joinville desfilar no caminhão de Bombeiros. Essa foi a recepção de Leticia Oro Melo na tarde desta terça-feira (26), menos de dois dias depois que a atleta joinvilense cravou seu nome na história ao mesmo tempo que seus pés atingiram a marca de 6,89m no Mundial de Atletismo.
Letícia Oro Mello foi recebida com muito carinho na Univille – Foto: Drika Evarini/NDTímida, emocionada e ainda processando a conquista e o impacto que o seu salto tem sobre a carreira, o futuro e sobre o esporte em Joinville, Leticia brilhava os olhos ao falar de sua primeira medalha em um Mundial.
“Eu ainda estou processando tudo que aconteceu. Estou muito feliz, emocionada, estou em choque e acho que vai demorar muito para cair a ficha. Estou vindo de uma cirurgia e conquistar isso para o Brasil, para Joinville, é muito bom. Hoje todo mundo está falando de Joinville”, falou assim que desembarcou e colocou os pés em sua cidade natal.
SeguirJoinvilense da zona Sul da cidade, Leticia começou a treinar por insistência de uma professora, que via na ainda adolescente, o talento que o mundo viu na noite de domingo (24). Foram anos de treinamento, campeonatos e conquistas até o momento mais importante da carreira da atleta de apenas 24 anos, que hoje faz parte do Time UniSociesc, além da Corville.
Mas, antes do Mundial, dos metros que antecederam a vitória e do salto, Leticia foi superação. Uma lesão grave semanas antes do Jasc (Jogos Abertos de Santa Catarina) a tirou das pistas e fez se materializar um pesadelo na vida dos atletas: cirurgia e meses de recuperação.
Leticia Oro Melo desembarcou em Joinville por volta das 14h50 desta terça-feira (26) – Foto: Drika Evarini/NDA mãe, Luciane Oro, lembra dos dias difíceis e do baque para Leticia. “Ela estava treinando forte para o Jasc e uma semana antes, sofreu a lesão. Isso a abalou muito. Neste período de recuperação ela foi convocada duas vezes e desde os 14 anos ela fala em convocação e elas vieram justo quando ela não poderia ir. Mas, nada vem por acaso, isso é para a maturidade, para que ela faça o melhor naquele dia e não deixe para amanhã e acreditar mais no próprio potencial”, fala.
Foram cerca de sete meses longe das competições. Em abril, Leticia voltou às pistas para treinos controlados e, em junho, em sua primeira competição após romper o ligamento cruzado anterior e o menisco do joelho esquerdo, o ouro estava no peito. O primeiro lugar no Troféu Brasil indicava que Leticia estava pronta para voltar e voltar no topo.
No Mundial, a joinvilense encantou. Muitos dizem “a medalha mais improvável”, mas Leticia sabia que era provável, possível e assim fez. Um salto, o único: 6,89m, melhorando quase 30 centímetros sua marca de antes de embarcar para os Estados Unidos. E com um salto, o bronze. “EU só consegui um salto, queimei todos os outros, mas eu só preciso de um para a vitória e foi o que aconteceu, consegui o bronze para Joinville e estou muito feliz. Meu objetivo é sempre subir no pódio e melhorar meu resultado”, diz.
Leticia Oro Melo foi recepcionada na Univille, onde treina para as competições – Vídeo: Drika Evarini/ND
A ficha ainda não caiu, a recepção com caminhão de bombeiros, buzinas, gritos, fotos, autógrafos e a recepção onde treina todos os dias talvez a ajudem a entender o tamanho de sua conquista e a importância que ela tem para a cidade, para os atletas mais jovens que se inspiram nela. Não à toa, os olhos das crianças quando Leticia chegou no topo do caminhão, com bandeiras de Joinville e do Brasil e com a medalha de bronze no peito, se encheram de luz e as vozes ecoaram rapidamente: Leticia, Leticia.
O impacto de Leticia vai além. Em menos de 48 horas após sua conquista, dois nomes históricos do atletismo brasileiro entraram em contato com o treinador, João Carlos, para melhorar a estrutura de treino atual, que está a anos-luz de distância de um local ideal. “Já está impactando, a Maurren Maggi já conversou porque ela quer conseguir uma pista sintética. Joinville tem muitos talentos, a base é muito forte”, fala Leticia.
Além de Maurren, um campeão olímpico também fez o telefone de João tocar. “As nossas dificuldades são impressionantes e minha emoção é a mesma dela neste momento. Essa conquista já fez a diferença, já temos promessa de pista sintética. O Joaquim Cruz entrou em contato comigo para fazermos, de qualquer jeito, uma pista aqui em Joinville e melhorar as condições de treino dela”, disse.
No futuro, já há mais a conquistar. A atleta deve participar de competições internacionais nos próximos meses e já tem um objetivo claro. “Quero estar nas Olimpíadas, no pódio e saltando sete metros”, garante.
Leticia Oro Melo é jovem, tem 24 anos, muito a conquistar. e uma frase que a guia: “se eu tivesse medo, não sairia de casa”.
A joinvilense de 1,58m multiplica seu tamanho com cada superação, a cada salto, a cada conquista e a cada olhar de crianças e adolescentes que, até têm inspirações em atletas mais velhos e de longe, mas que encontram dentro de Joinville, na pista em que treinam, a maior inspiração, a inspiração de 1,58 m, talento, determinação e dedicação que não cabem em uma medida simples.