A missão de Tatum e Brown e a virada do Celtics, que passou de ‘piada’ a contender

Depois de um começo de temporada desastroso em que o Boston Celtics chegou a ficar fora da zona de play-in, time virou a chave em 2022 com campanha avassaladora e ascensão ao topo do Leste

Receba as principais notícias no WhatsApp

O basquete tem como premissa a imprevisibilidade. As mudanças, o dinamismo e as viradas de chave dentro de um mesmo jogo tornam o esporte apaixonante e o Boston Celtics levou isso a ferro e fogo, se transformando por completo assim que a folha do calendário virou.

Depois de chegar a fica fora da zona de play-in no começo da temporada, Boston Celtics se transformou em contender com campanha avassaladora em 2022 – Foto: Boston Celtics/Divulgação/NDDepois de chegar a fica fora da zona de play-in no começo da temporada, Boston Celtics se transformou em contender com campanha avassaladora em 2022 – Foto: Boston Celtics/Divulgação/ND

A mudança na postura – e consequentemente nos resultados – alçou uma das franquias mais vencedoras da história da NBA de “piada” em 2021 para contender (candidato ao título) e uma das principais sensações em 2022. Se o time de Boston foi, no início da temporada, chamado de decepção chegando até mesmo a ficar fora da zona de play-in mesmo tendo em seu roster estrelas como Jayson Tatum e Jaylen Brown, a virada de ano e todas suas tradições de mudança de vida e de rumo foram seguidas à risca.

E, desse time frustrante, o Celtics “virou” aquele com o melhor basquete da NBA, saindo da amarga 11ª colocação onde chegou a estar para o atual 3º lugar no Leste, brigando pela seed #1 apesar do começo desastroso.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

As mudanças na offseason mexeram com a estrutura celta de maneira literal. A saída de Brad Stevens da beira da quadra para assumir o comando cerebral da montagem do elenco e a chegada de Ime Udoka para ficar à frente do time criaram expectativas na torcida.

Nos dois casos, estreias em seus postos. Stevens saiu de técnico para sua primeira experiência como general manager e surpreendeu, liberou espaço na folha salarial, dispensou jogadores que pouco contribuíam e trouxe peças pontuais, como Al Horford fazendo, até mesmo, mudança de rota na trade deadline, como a saída de Dennis Schröder e Enes Kanter para chegadas como a de Derrick White e o retorno de Daniel Theis. Movimentos possíveis e que deram ao Celtics um pouco do que faltou na temporada passada: alguma profundidade à sua rotação.

Ime Udoka chegava com a experiência de ter sido auxiliar em franquias como Brooklyn Nets e, principalmente, ter trabalhado com o lendário Gregg Popovich em San Antonio e na seleção americana. O treinador já havia trabalhado com Tatum, Brown e Marcus Smart em convocações e passou pelo crivo da dupla Jay Jay. Com uma forte característica defensiva, ele chegou para sua primeira experiência como head coach tendo nas mãos um grupo com muito potencial e os primeiros meses foram, de fato, decepcionantes.

O padrão de jogo não era visível, a defesa, que deveria ser o ponto alto, era castigada pelos adversários, o mesmo erro do individualismo persistia e o time não tinha consistência e foco, entregando vantagens assustadoras no segundo tempo.

Para um time que tem uma dupla jovem como Jayson Tatum e Jaylen Brown, uma campanha e um desempenho pífio eram imperdoáveis, até mesmo as atuações individuais das duas estrelas, que não conseguiam fazer o time jogar e assumir a responsabilidade de comandar e levar Boston ao topo de um Leste cada vez mais competitivo e equilibrado. O Celtics fechou 2021 com uma campanha de 17-19, muito aquém do que se esperava do time.

O Celtics conseguiu uma profundidade de rotação que não tinha em temporadas passadas – Foto: Boston Celtics/Divulgação/NDO Celtics conseguiu uma profundidade de rotação que não tinha em temporadas passadas – Foto: Boston Celtics/Divulgação/ND

Então, chegou 2022 e a vida nova realmente desembarcou em Boston. A virada do ano marcou também uma virada de chave para Jayson Tatum, Jaylen Brown e o Boston Celtics que se transformou no time com o melhor basquete da Liga baseado, justamente, em uma defesa assustadoramente forte. Depois de três meses de campanhas negativas, janeiro chegou com um 10-6, que emendou em um 9-2 em fevereiro, uma campanha de 11 vitórias e apenas três derrotas em março e as atuais três vitórias e uma derrota de abril.

Em 2022, o Celtics tem 33 vitórias e apenas 12 derrotas. Em três meses, virando completamente a campanha para os atuais 50-31 e subindo para a confortável posição de playoffs garantidos com mando de quadra.

A ascensão celta está diretamente ligada à mudança de postura de seus jogadores depois de um começo de temporada frustrante. Declarações pesadas, reuniões e “cobranças” nos microfones tiveram efeito.

O Celtics foi formado desde o draft de Jaylen Brown, em 2016 e de Jayson Tatum, em 2017, para a dupla. O entorno foi pensado para que as potencialidades dos dois pudessem ser exploradas e os Jays têm, ao lado, uma peça importante em Marcus Smart, que já estava no time quando os dois chegaram à NBA e é o “coração celta”, Nesta temporada, todos ganharam responsabilidades a mais e depois de um começo tortuoso, vestiram com perfeição seus papéis.

Enquanto o Celtics subia e subia, Tatum e Brown faziam o mesmo, ou melhor, puxavam essa arrancada celta ao lado de Marcus Smart, do experiente Al Horford e do gigante Robert Williams III. Uma formação escolhida a dedo por Udoka, com dois bigs que fizeram do Celtics a melhor defesa da NBA. A proteção do garrafão, a marcação implacável, as trocas inteligentes que deixam os adversários sufocados, com suas melhores opções de ataque limitadas e que forçam os erros foram o motor para um ataque consciente, avassalador em transições rápidas e agressivas.

Baseado em uma defesa forte que sempre teve como espelho Marcus Smart, o Celtics se tornou o time a ser batido. A evolução defensiva da equipe tem todos os dedos de Udoka e também da própria aplicação de quem já evoluía ano após ano, mas que precisava de um “empurrãozinho”. E ele foi dado. Atualmente, o Celtics é o time que mais limita os adversários, tendo como média apenas 104,4 pontos sofridos por partida e, invariavelmente, faz seus adversários sofrerem ainda mais sem chegar sequer até a marca dos 100 pontos.

Franchise player, Jayson Tatum virou 2022 jogando em nível MVP e puxa a arrancada celta – Foto: Boston Celtics/NDFranchise player, Jayson Tatum virou 2022 jogando em nível MVP e puxa a arrancada celta – Foto: Boston Celtics/ND

A missão de chegar levantar o 18º banner não era exatamente palpável no início da temporada, mas Jayson Tatum e Jaylen Brown incorporaram o objetivo como nunca antes. Os dois tiraram a temporada para fazer história, quebrar recordes e levar o Celtics com eles. Tatum entrou na corrida pelo prêmio de MVP e, embora saibamos que não será dele, desta vez, mostrou que “não tem só 19 anos” e se transformou em uma estrela em prateleiras mais acima do que muitos o colocam.

São 26.8 PPG, 8 RPG e 4.4 APG para o franchise player de Boston. Jaylen Brown tem 23.7 PPG, 6.2 RPG e 3.5 APG. A dupla marcou mais de 20 pontos (cada um) em nove jogos seguidos com uma média combinada de 57,8 pontos neste período e com uma campanha de 8-1.

Com essa capacidade ofensiva, o Celtics tem, ainda, peças fundamentais como Marcus Smart, a pedra fundamental da defesa celta e o armador que contrariou os haters que bradavam a suposta incapacidade do camisa 36 de ser o criador primário do Celtics; a experiência de Al Horford, que do auge de seus 35 anos continua fazendo partidas fundamentais para a campanha celta; tem em Robert Williams III  e toda sua dominação do garrafão um fator que desequilibra completamente e dá solidez ao time.

Sua ausência após a lesão no menisco criou um grande ponto de interrogação que Boston vem contornando nessa reta final de temporada regular ansiando por sua volta, estimada para o final da primeira rodada dos playoffs. Além do quinteto de starters, a eficiência de Payton Pritchard, que é uma válvula de escape para as partidas mais fincadas no garrafão, a evolução defensiva e criativa de Grant Williams e a profundidade trazida por Derrick White e Daniel Theis que são opções de rotação confiáveis de Ime Udoka.

O Celtics conseguiu, com poucos e bons movimentos, tornar o time mais consistente, mantê-lo saudável é fundamental para as pretensões e sempre foi um dos pesadelos da torcida a ponto de a notícia da lesão de Timelord deixá-los em desespero acionando gatilhos das últimas temporadas.

O fato é que o Boston Celtics deixou para trás o basquete baseado em isolations e individualista de 2021 para se tornar um time que roda a bola, que consegue se movimentar com ela e ainda executar movimentos off ball com perfeição, que explora o passe extra enquanto se movimenta nos espaços deixados pelos adversários além de criá-los para si e que potencializa cada uma das características de seus jogadores de acordo com o momento do jogo. Mudanças que fizeram o time deixar seu basquete mais plástico, coletivo como é de sua história sem deixar de lado o “comando” de talentos individuais.

Jaylen Brown faz a melhor temporada da carreira, com sequências de jogos +25 – Foto: Boston Celtics/Divulgação/NDJaylen Brown faz a melhor temporada da carreira, com sequências de jogos +25 – Foto: Boston Celtics/Divulgação/ND

A torcida está empolgada e não é para menos. O Celtics tem talentos individuais e coletivos e deixou de ser alvo de chacota por não aproveitar os Jays para um time que bate de frente com qualquer outro da NBA. Saiu de um time que foi humilhado em mais de uma oportunidade após construir vantagens consistentes para o time que multiplica suas vitórias com vantagens que superam os 10, 15, 20 pontos – Brooklyn Nets e Philadelphia 76ers que digam.

Saiu de um time que, talvez, brigaria por uma das últimas vagas aos playoffs e pode terminar a temporada com o 18º banner pendurado no alto do TD Garden.