Bill Russell, o maior da história: legado de ‘mais anéis que dedos’, luta, respeito e inclusão

Bill Russell morreu neste domingo (31), aos 88 anos, mas deixa o maior legado da história da NBA e um dos maiores do esporte

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Nos preparamos para ver nossos ídolos partindo, entendemos, ao menos racionalmente, que embora eles sejam quase divindades, no fim das contas, eles são como nós, feitos de carne e osso e que a partida acontecerá, inevitavelmente. Mas nunca estamos preparados, de fato, para isso. Bill Russell tinha 88 anos e apesar de suas quase nove décadas de vida – e que vida! – nunca me fez sentir que poderia partir a qualquer momento. Mas partiu. Em um domingo de sol do lado de cá do mapa, com aquela luz que ele resplandecia sempre.

Bill Russell, o maior jogador da história da NBA, colecionou títulos e prêmios em quadra, e construiu um legado incomparável fora dela – Foto: Divulgação/NDBill Russell, o maior jogador da história da NBA, colecionou títulos e prêmios em quadra, e construiu um legado incomparável fora dela – Foto: Divulgação/ND

O “Lord of The Rings” foi o maior. Não apenas de sua época. Ele foi o maior. De toda a história e, por mais que a NBA tenha nos presenteado com jogadores até melhores e que atualmente nós temos tido a sorte de ver, diante dos nossos olhos, grandes jogadores, ninguém, nunca, será maior que Bill Russell.

O eterno camisa 6 tem números que justificam a minha fala. Em 13 anos de carreira profissional, Bill Russell conquistou 11 títulos, oito deles consecutivos, e em dois deles ele os venceu jogando e sendo treinador. A número 6 está pendurada no teto do TD Garden há muito tempo e o Boston Celtics rendeu honrarias ao seu maior ídolo, sua maior lenda, seu maior, em vida. Mas tudo ainda é pouco diante da grandeza incomparável de Bill Russell.

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Com mais anéis do que dedos nas mãos, ele ainda foi eleito MVP em cinco oportunidades, além de ser 12 vezes All Star, campeão olímpico e duas vezes eleito ao Hall da Fama? Duas? Duas. O único. A primeira como jogador, a segunda como treinador. A primeira, inclusive, icônica e que mostra como Russell era gigante, se posicionava e não arredava pé. Ele negou receber a honraria por entender que não deveria ser ele o primeiro negro a recebê-la e sim quem veio antes dele.

Bill Russell foi técnico e jogador do Celtics. Ao mesmo tempo. Aliás, foi o primeiro treinador negro na história, não só da NBA, mas de todas as ligas profissionais americanas. Como jogador, disputou 21 jogos 7 entre partidas na NBA, NCAA e Olimpíadas. Os jogos 7, para quem não está habituada com a NBA e o basquete em geral, é o famoso “perdeu, volta para casa” ou “perdeu, já era o título”. Bill Russell venceu todos.

O maior ídolo celta mudou o jogo, mas ele foi além. Ele mudou o mundo. Do seu jeito. Draftado pelo Celtics em 1956, Bill Russell chegou chutando a porta. Como calouro, conquistou o primeiro título da franquia de Boston e foi eleito o melhor jogador. A partir da escolha de Red Auerbach, que escolheu o pivô, a história do Celtics mudou, a história da NBA mudou, a história dos jogadores negros mudou.

Bill Russell não foi o primeiro jogador negro na NBA, mas foi o primeiro a brilhar tanto, a ponto de colocar todas as franquias aos pés de Boston, aos pés do número 6. E essa dominação em quadra caminhou ao lado de uma postura firme e revolucionária. Caminhou até mesmo atrás, porque a grandeza de Russell é justamente por seu impacto para além da bola laranja, para além das vitórias, dos títulos, de tornar o Celtics o maior campeão da NBA por décadas.

Bill Russell sofreu, e muito. Insultos racistas, ações racistas, foi impedido de se hospedar em hotéis, de comer em restaurantes, teve sua casa violada, sua família ameaçada. Nada, absolutamente nada o fez desistir. Imagine ser um jogador dominante, empilhar títulos, colecionar troféus de prêmios individuais, ter uma coleção de anéis maior do que quase todas as franquias da NBA – ele só não tem mais títulos do que o próprio Celtics e Lakers. A terceira franquia mais vitoriosa tem sete títulos, Russell tem 11 – e ainda assim ser alvo de racismo. Ele passou por isso, rotineiramente.

Mas, Bill Russell era um atleta, o maior da NBA, um dos maiores da história do esporte. E como atleta, usou toda sua força para lutar por direitos civis, por igualdade, respeito e inclusão. Marchou ao lado de Martin Luther King, moveu a NBA, se uniu a Muhammad Ali quando ele se negou a ir ao Vietnã, usou reiteradamente seu espaço para falar, exigir espaço e respeito.

Bill Russell sempre se posicionou e lutou pelos direitos civis nos Estados Unidos – Foto: Divulgação/NDBill Russell sempre se posicionou e lutou pelos direitos civis nos Estados Unidos – Foto: Divulgação/ND

Os anos se passaram e Bill Russell continuou e se tornou inspiração, no jogo, na vida. Em 2010, o maior da história recebeu de Barack Obama a maior honraria civil dos Estados Unidos, a Medalha Presidencial da Liberdade.

Bill Russell venceu 11 títulos, fez história em quadra, conquistou tudo que era possível, mas ele foi mais. E sempre será mais. Seu legado esportivo é incomparável, mas seu legado é maior, inatingível, inalcançável.

Bill Russell lutou por igualdade, marchou por direitos civis, foi às ruas, aos microfones e travou batalhas pela população negra. Ele venceu em quadra. Venceu muito. Mas foi mais. Muito mais. O legado de Bill Russell é o de ser um ser humano que fez valer cada segundo nessa terra, de um homem que esteve sempre do lado certo. O lado de quem briga pelos seus, de quem abre portas para os seus, de quem puxa os seus para cima. Bill Russell foi e sempre será o maior da história. Sempre.