Celtics varre o Nets: uma cultura de draft destruindo o desapego aos jovens talentos

Com um time recheado de jogadores de escolhas de draft, Boston Celtics despacha o Brooklyn Nets, "reincidente" no mesmo erro

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Os playoffs da NBA estão entregando tudo que foi prometido. Jogos emocionantes, times tidos como coadjuvantes roubando a cena vez por outra, atuações sublimes e uma varrida. Apenas uma. O único time que não venceu nos playoffs foi o time que, quando a bola subiu para a temporada de número 75, era considerado um dos favoritos ao título. O Brooklyn Nets foi varrido pelo Boston Celtics em um 4-0 que, para muitos, foi considerado humilhante.

Boston Celtics, com as principais estrelas vindo do draft, varreu o Brooklyn Nets, que trocou seu “futuro” por estrelas que não conseguiram levar o time a sequer uma final de conferência – Foto: NBA/DivulgaçãoBoston Celtics, com as principais estrelas vindo do draft, varreu o Brooklyn Nets, que trocou seu “futuro” por estrelas que não conseguiram levar o time a sequer uma final de conferência – Foto: NBA/Divulgação

E é, de fato. Pela expectativa que se tinha na equipe, pelo fator Kevin Durant e Kyrie Irving, pela maneira como foi completamente dominado pelo Celtics e por ser o único entre os 16 times das duas conferências a não vencer um jogo sequer. E olha que muita gente colocava disputas que chegaram ao jogo 6 como “ganhas”.

A ironia da varrida vem de muitos anos atrás, não apenas da última temporada, quando o roteiro foi invertido. Em 2021, no entanto, o Boston mesmo desfalcado conseguiu roubar um joguinho e foi eliminado, também na primeira rodada, mas sem a humilhante marca da varrida. Além de devolver a eliminação do ano passado com requintes de “crueldade” e sem dar chance para o Brooklyn, suposto favorito ao título, reagir, a torcida celta comemorou a eliminação de Kyrie Irving, persona non grata em Boston após sua passagem tida como tóxica, sua saída “ingrata” e, pior, suas declarações e atitudes dentro do TD Garden.

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Mas, o roteiro dessa eliminação tem outros detalhes interessantes e que começaram a se desenhar há quase 10 anos. O último título do Celtics veio em 2008, em cima do Los Angeles Lakers, com um big 3 que deixa saudade em todo torcedor. Naquele ano, Paul Pierce, Kevin Garnett e Ray Allen provaram que, como disse Garnett, “anything is possible”.

Negociação levou os campeões celtas ao Brooklyn e escolhas enviadas em troca se transformaram na base do time celta que varreu o Nets em 2022 – Foto: Arquivo/Brooklyn NetsNegociação levou os campeões celtas ao Brooklyn e escolhas enviadas em troca se transformaram na base do time celta que varreu o Nets em 2022 – Foto: Arquivo/Brooklyn Nets

Mas, depois do título as coisas ficaram complicadas em Boston e antes de começar a temporada 2014, Kevin Garnett, Paul Pierce e o veterano Jason Terry foram envolvidos em uma troca com? Brooklyn Nets. Os Nets envolveram, além de jogadores, escolhas de primeira rodada nos drafts de 2014, 2016 e 2018. À época, a franquia do Brooklyn fez um movimento muito parecido com o recente – embora a comparação entre os jogadores trocados seja injusta pela idade e pico da carreira – abdicando de um futuro pela tentativa de rechear o elenco de estrelas para conquistar algo.

As escolhas de draft envolvidas naquela troca se transformaram em Jaylen Brown e Jayson Tatum, crias de draft de Boston e, ironicamente, as principais estrelas do time que, nesta semana, varreu o Brooklyn Nets. Mas, esse Nets de hoje também é fruto de movimento parecido. A construção de um time que apostou em Steve Nash como treinador “novato” e trouxe Kevin Durant, Kyrie Irving e James Harden em detrimento, novamente, a escolhas de draft e jovens talentos como Jarrett Allen e Caris LeVert. Novamente, o movimento não deu em nada, a não ser decepção.

Na temporada passada, o Brooklyn Nets parou no Milwaukee Bucks e, neste ano, bem, parou em suas próprias escolhas de draft enviadas por um projeto estrelado e furado.

Se do lado do time eliminado o apego às escolhas de draft está longe de ser uma prática, no lado celta é justamente nas escolhas que se firmam o elenco atual e as estrelas atuais que lideram a equipe e fizeram a diferença no 4-0 para cima do Nets.

A cultura de draft sempre foi uma das premissas do Boston Celtics, que escolhe e evolui seus jogadores e, as últimas, tiveram o dedo de Danny Ainge, ex general manager da equipe e que levou a fama de “assaltar” o Nets justamente na troca que virou a dupla Jay Jay. Mas, não foram “apenas” eles.

Do elenco atual, as principais peças vieram do draft. Do time titular na maior parte da temporada, quatro são escolhas celtas. Jayson Tatum, Jaylen Brown, Marcus Smart, Robert Williams III estão entre os starters de Boston, todos vieram de draft. Tatum em 2017, Brown em 2016, Smart em 2014 e Williams em 2018.

“Tríade” do Boston Celtics é formada por três jogadores escolhidos no draft – Foto: NBA/Divulgação“Tríade” do Boston Celtics é formada por três jogadores escolhidos no draft – Foto: NBA/Divulgação

E, novamente, não são apenas eles. Payton Pritchard e Grant Williams, jogadores fundamentais na rotação e no esquema de jogo de Ime Udoka são escolhas de draft. Grant chegou em 2019 e Pritchard foi o último grande presente de Danny Ainge. Ele foi draftado em 2020, ao lado de Aaron Nesmith.

As escolhas de draft são consideradas jóias e não é à toa. Todo processo de reconstrução de um time é – ou deveria ser, não é mesmo, Nets? – baseado nos jovens talentos monitorados e escolhidos a dedo.

Além de ter montado um time forte e que briga por título com paciência, o Celtics soube jogar o jogo. Em 2017, desceu para a terceira escolha, fez um movimento considerado ousado e o resultado? Jayson Tatum.

Enquanto times se desfazem de jovens talentos que invariavelmente se tornam bases de outras equipes despejando talento em quadra, outros reconstroem histórias tendo como base os jovens.

Se no passado e no presente o Nets se desfez do seu futuro por big 3 que nada conquistaram, o Celtics formou o seu próprio big 3 – ou big 4?. Como? Draft, paciência e evolução de seus jogadores. O time não conquistou um título, embora tenha marcado presença em finais, no plural, de conferência. Mas, se há um time que tem paciência e vê sua equipe evoluir a ponto de varrer, sem dificuldade, um favorito, é o Boston Celtics.