Frutos do draft: desenvolvendo talentos, Celtics e Warriors decidem a histórica NBA 75

Franquias “originais” que fundaram a NBA mantiveram a tradição do draft, de lapidar talentos, e colhem os frutos fazendo a final da icônica e histórica temporada de número 75 da NBA

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Um ano após o último título do Boston Celtics na NBA e um ano antes da última aparição da franquia de Massachusetts nas finais da Liga, o Golden State Warriors começava a montar um time que já está cravado na história. Das últimas oito finais, seis delas tiveram o Warriors como o finalista pelo lado Oeste.

O Boston Celtics venceu o Miami Heat na final do Leste e voltou às finais da NBA após 12 anos – Foto: Boston Celtics/DivulgaçãoO Boston Celtics venceu o Miami Heat na final do Leste e voltou às finais da NBA após 12 anos – Foto: Boston Celtics/Divulgação

A “dinastia” começou em 2015, seis anos após o draft de um tal Wardell Stephen Curry II. Foi em 2009 que o Warriors começou a construir um time baseado em escolhas certeiras no draft, trazendo para si o único MVP unânime da história da NBA, o primeiro a receber o troféu Magic Johnson de MVP da final do Oeste e o armador que está na discussão “é maior que o próprio Magic?”. Isso sem contar a mudança provocada pelo camisa 30… na própria NBA. As bolas do perímetro não são mais as mesmas após a chegada de Stephen Curry.

Há 13 anos, o Golden State começava essa construção que começou a dar “resultado” em 2015, com o primeiro título da “dinastia”. E vieram outros dois. A sequência de aparições em finais não é exatamente algo comum na NBA. Depois da era Jordan-Pippen, entre 1991 e 1998, só os Warriors comandados por Steve Kerr conseguiram esse feito. Um time formado por draft com a longevidade que as franquias que se baseiam no “troca-troca” não conseguem ter.

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Golden State Warriors chega à sexta final em oito anos – Foto: Golden State Warriors/DivulgaçãoGolden State Warriors chega à sexta final em oito anos – Foto: Golden State Warriors/Divulgação

No atual elenco dos Warriors, sete jogadores chegaram pelo draft e foram cuidadosamente lapidados para se tornarem campeões. Em 2011 chegou Klay Thompson, Draymond Green em 2012, Kevon Looney em 2015, Jordan Poole em 2019, James Wiseman (que está machucado) em 2020 e Jonathan Kuminga em 2021. Uma base campeã que acrescenta talentos anos após anos e que, na histórica temporada de número 75, chega às finais.

Do lado Leste, a trajetória segue o mesmo roteiro. A história do Boston Celtics é forjada em vitórias, títulos e a mais longa dinastia da NBA. São 17 títulos, oito deles consecutivos e, em 20 anos, foram 14 banners pendurados no alto do Garden. Uma das franquias originais da NBA, nascida antes mesmo da Liga e oriunda da BAA (Basketball Association of America), a precursora da NBA, o Celtics sempre teve como DNA a manutenção e o desenvolvimento de jogadores e, 75 anos depois, continua com a mesma premissa.

Marcus Smart, Jayson Tatum e Jaylen Brown, os alicerces do Boston Celtics, finalista após 12 anos – Foto: NBA/DivulgaçãoMarcus Smart, Jayson Tatum e Jaylen Brown, os alicerces do Boston Celtics, finalista após 12 anos – Foto: NBA/Divulgação

Eleito o primeiro MVP das finais do Leste e carregando o troféu que leva o nome de Larry Bird, um dos maiores celtas da história e, não por coincidência, “cria” do draft, Jayson Tatum segue o mesmo caminho. Escolhido em um movimento inteligente do Celtics em 2017, Tatum é o franchise player de Boston e, ao lado de Jaylen Brown, escolhido em 2016, Marcus Smart (2014), Robert Williams III (2018), Grant Williams (2019), Payton Pritchard e Aaron Nesmith (2020), forma um dos times com mais jogadores que chegaram na famosa noite do draft e ficaram. Ficaram para fazer história.

Se o núcleo do Warriors já tem finais e títulos “nas costas”, marcando seus nomes na história com conquistas e a mudança do jogo e dos rumos da franquia, o grupo celta tirou Boston de um jejum de 12 anos sem aparições em finais da NBA. E o fez em uma temporada mágica, com detalhes e conquistas que tornam o feito ainda mais especial do que a quebra de mais de uma década sem conhecer o gostinho da NBA Finals.

Os Warriors tiveram uma temporada mais regular e comemoraram a volta de Klay Thompson após 941 dias fora das quadras devido ao rompimento do tendão de Aquiles, já os Celtics precisaram lidar com turbulências pesadas em 2021. Após mudanças no front office e no comando técnico, Boston começou a temporada apresentando um basquete que está a anos luz do que o time tem jogado. Brad Stevens deixou a beira da quadra para se dedicar à montagem do time e, em seu lugar, Ime Udoka, o “estreante” na função de head coach trouxe expectativas, muitas, mas todas frustradas nos primeiros meses de temporada.

Mas, queriam os deuses do basquete que a temporada histórica, a NBA 75, tivesse o desfecho perfeito, com duas das franquias originais na grande final. O ano virou e, com ele, os Celtics se transformaram em uma máquina. Segundo lugar na temporada regular no Leste, varrendo o Brooklyn Nets na primeira rodada dos playoffs, despachando o Milwaukee Bucks, atual campeão em sete jogos e reconquistando a Conferência após 12 anos ao derrotar o Miami Heat também em sete jogos.

A “revenge tour” foi concluída com sucesso. Nos últimos três anos, Boston foi eliminado pelos três times. Em 2021, caiu na primeira rodada para os Nets, o Heat venceu o Leste em cima do Celtics em 2020 e, em 2019, um ano após chegar à final da Conferência, foi eliminado pelo Bucks.

O roteiro é digno de filme e tem, ainda, acréscimos. Ime Udoka, o estreante, chegando à final. Marcus Smart eleito DPOY 14 anos após o último celta, Kevin Garnett, vencer o prêmio – mesmo ano do último título. O mesmo Smart eleito para o First Defense Team, com Timelord no Second Team. Jayson Tatum, além do troféu Larry Bird, já havia sido eleito para o All NBA First Team.

Ao lado de Jaylen Brown, Tatum forma a terceira dupla com 25 anos ou menos a chegar às finais com média de 20 pontos por jogo. Al Horford, depois de 141 jogos de playoffs na carreira, chega à sua primeira final de NBA. O grupo celta, como um todo, é estreante em NBA Finals, apesar de ter chegado às finais de conferência em três de quatro temporadas (2017, 2018 e 2020).

De um lado, a experiência em finais e um grupo forte, acostumado a vencer e que cresceu junto, com a mistura da juventude também lapidada pelas mãos de Steve Kerr. De outro, um grupo jovem, com a experiência de Al Horford para unir a maturidade adquirida nos tropeços ao ímpeto de fazer história.

A temporada 75 pedia tradição, história e ela nos deu. A final entre Boston Celtics e Golden State Warriors nos mostra que, enquanto franquias se esfarelam tentando unir estrelas sem identificação com a franquia e com a cidade, outras apostam em desenvolvimento, manutenção, amadurecimento e a vontade de cravar o nome na história do time que fez seu nome ecoar em uma noite de sonhos para jovens, a vontade de trocar o boné da escolha pelo banner de campeão.