No dia 8 de março deste ano, a NBA sequer havia divulgado o nome dos três finalistas ao prêmio de DPOY (Defensive Player Of The Year), mas mais uma vez o nome de Marcus Smart era mencionado exaustivamente como um dos que merecia a honraria que, por mais de duas décadas, passou longe das mãos de todos os armadores da Liga.
Oito anos após ser draftado pelo Boston Celtics, Marcus Smart faz história e é eleito DPOY – Foto: Boston Celtics/DivulgaçãoE ele, claro, não hesitou em mencionar essa peculiaridade em suas redes sociais. O último guard a conquistar o prêmio foi Gary Payton, em 1996, quando Smart era apenas uma criança de 2 anos de Dallas. Uma criança que teria uma vida bem difícil e de perdas antes de cravar seu nome na história e receber, das mãos do próprio Gary Payton, em 2022, quando a NBA comemora 75 anos, o troféu de DPOY.
SeguirSomewhere in the fine print for winning this is…
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“?? ??? ?????? ??????? ??? ???????? ?? ??? ??????? ?? ??? ????” https://t.co/aOzQFwmXco— marcus smart (@smart_MS3) March 8, 2022
Marcus Smart superou Rudy Gobert, que venceu três dos últimos quatro prêmios, e Mikal Bridges, para se tornar o primeiro armador, após 26 anos, a ser eleito o defensor do ano, cravando seu nome na história do Boston Celtics. Ele é apenas o segundo jogador a conquistar o prêmio em toda a história da franquia. Antes dele, Kevin Garnett foi o DPOY em 2008, ano do último título celta.
O próprio Gary Payton foi até Boston entregar o prêmio a Marcus Smart – Foto: Boston Celtics/DivulgaçãoA conquista demorou a voltar para as mãos de um armador, mas chegou para um que vinha merecendo ser reconhecido por sua força defensiva há anos. A melhor defesa da NBA elegeu o melhor defensor da NBA. Draftado em 2014, Marcus Smart precisou de oito anos para conquistar o título de “melhor” naquilo que ele já se prova excelente desde que colocou os pés em uma quadra de basquete.
Com “apenas” 1,91 de altura, bem “baixo” para os padrões de DPOYs dos últimos anos – Rudy Gobert tem 2,16 e Giannis Antetokounmpo tem 2,11 – Smart chegou à NBA em 2014, quando foi a sexta escolha do draft, da Universidade de Oklahoma direto para o Boston Celtics. A identificação de Marcus Smart com os Celtics foi imediata.
Com uma cultura de draft, de força defensiva e de basquete coletivo, Boston era a casa que o armador precisava e não demorou tanto assim para que ele se tornasse a personificação do “espírito celta”. Não é à toa que a torcida o encara como a “alma e o coração” do time. Basta um vídeo de highlights de Marcus Smart na NBA para entender os motivos que levaram a torcida a identificá-lo dessa maneira.
The @celtics tone-setter.
The first guard to win #KiaDPOY since Gary Payton.Marcus Smart.
BOS/BKN Game 2, 7pm/et, TNT pic.twitter.com/Nz1xs0VkpV
— NBA (@NBA) April 20, 2022
Incansável em quadra, fora dela Marcus Smart travou batalhas difíceis. Quando ainda era criança, Smart viu o irmão mais velho morrer de câncer, o irmão que havia apresentado o basquete e o feito se apaixonar pelo esporte que, hoje, parece ter se apaixonado por ele também. Em 2018, a mesma doença levou sua mãe. Além disso, o armador foi, mais de uma vez, vítima de racismo na cidade do time pelo qual já se declarou inúmeras vezes.
Em quadra, Marcus Smart personifica o que atribuíram a ele: a alma e o coração do Boston Celtics. Não existe bola perdida, não existe jogador “imarcável”, não existe adversário impossível. Para Marcus Smart, toda bola deve ser do Celtics, todo jogo precisa ser de Boston e toda oportunidade precisa ser aproveitada.
A virada dos Celtics, que se transformou de uma equipe candidata a ser uma das principais decepções da temporada àquela com a melhor defesa e candidato, desta vez, ao título, se baseia no camisa 36. Ele é um dos responsáveis diretos por mudar a “cara” do time e por evoluir, um a um, os companheiros em defensores de elite.
Marcus Smart lidera o Boston Celtics, que terminou a temporada regular com a melhor defesa da NBA – Foto: Boston Celtics/DivulgaçãoMarcus Smart é o tipo de jogador capaz de marcar qualquer adversário, qualquer posição, independentemente do momento do jogo, do momento do time, da força física e técnica de quem está à sua frente. A atuação do armador diante da dupla Kyrie Irving e Kevin Durant, uma das mais letais da NBA, é prova do impacto que Smart tem e de como é capaz de minimizar qualquer um. Das 79 posses combinadas da dupla em que ele estava na marcação, Smart permitiu apenas 21 pontos.
Nesta temporada, são 12.1 pontos por jogo, 3.8 rebotes e 5.9 assistências, liderando defensivamente o time que cede, apenas, 104.5 pontos por jogo, em média, aos adversários.
Doris Burke, uma das principais analistas da NBA, ao revelar seu voto em Marcus Smart foi taxativa ao dizer que escolheu o melhor defensor do time com a melhor defesa da NBA. Além disso, ela mencionou o jogo centrado no perímetro e o impacto que Smart tem ao contestar e anular shooters em suas zonas de “conforto”.
É sintomático que a principal força do Boston Celtics nesta temporada seja, justamente a defesa, que faz, inclusive, o time vencer a série contra o Nets até aqui, abrindo 2-0 com uma postura defensiva capaz de minimizar o impacto de alguns dos jogadores mais fatais de toda a Liga.
Marcus Smart terminou a temporada regular liderando a melhor defesa da NBA e no Top 10 em roubos de bola, uma de suas principais características. Com um QI defensivo acima da média, é Marcus Smart quem comanda a narrativa de um time que mudou da água para o vinho, mas, mais do que uma narrativa, é o coração e alma celta personificadas no camisa 36 que transformou a narrativa em realidade e que pode, no que depender de sua incansável perseguição ao que lhe é de direito, transformar, novamente, o time do DPOY no time campeão.
E parece que, agora, a NBA permite que um armador sem “GP” no nome seja reconhecido como o que é: o melhor defensor.