Era perto das 3h da manhã e os pés já estavam no chão. O direito primeiro. Foi assim que Eni Griss Costa, de 72 anos, levantou da cama naquele domingo. Bebeu um, dois, três goles de água para hidratar o corpo.
Tomou um banho quente. Vestiu a camisa laranja e preta, a bermuda fitness e o par de tênis cor-de-rosa, pouco antes de pegar carona no carro de uma amiga em direção à largada de mais uma prova.
A Meia Maratona Internacional de Florianópolis reuniu cerca de 3 mil atletas na Beira-Mar Norte da Capital. Entre eles, Dona Eni, como é conhecida.
Dona Eni Griss Costa, de 72 anos, posa orgulhosa ao lado de seus 224 troféus (e contando: até a publicação desta reportagem,pode ter aumentado) – Foto: Eduardo Iarek/NDEla se aventurou na corrida de rua pela primeira vez já com mais de 60 anos de idade.
Mas a relação com o esporte mais antigo do mundo vem antes mesmo da chegada dos cabelos brancos.
Tudo começou como uma forma de deixar as crianças longe da violência da cidade. Eni conta que levava os meninos nas competições e ficava só olhando.
Mas ao longo dos anos isso mudou. “Eles foram crescendo e eu comecei a ficar com aquela síndrome do ninho vazio. Foi aí que comecei a correr também”, relembra.
Em meio aos 224 troféus expostos na estante do quarto dela, fica a lembrança da “Corrida da Paz”, de 2011.
O marco de uma paixão sem volta. Depois disso, viajou para Fortaleza, Curitiba, Salvador, Belo Horizonte.
“Onde tinha corrida eu fazia amizade. Pegava ônibus, avião, ia sozinha”. Mas em 2018 o que teria se tornado o centro da vida dela precisou de uma pausa temporária. O motivo: um câncer na região da boca.
Eni passou por cirurgia complexa que a deixou cinco meses sem sair da cama, em recuperação.
As cicatrizes percorrem o corpo, desde a nuca e em volta do pescoço, sobem para o lábio inferior e superior, língua e céu da boca. Foram cerca de dois anos sem poder falar e de muita fisioterapia para reaprender.
“Nada segura”: perseverança para recomeçar
As sequelas deste momento difícil prejudicaram o desempenho no esporte. “Antes eu fazia até 21km em pouco tempo. Hoje para eu fazer 5 km leva mais de uma hora, mas não desisto por isso, Deus sabe o que faz”, conta.
Os medicamentos fortes para aliviar a dor estão presentes entre 3 e 4 vezes por dia e alimentação agora só em estado líquido. Depois do tratamento de saúde, o retorno aos poucos.
Apesar de não gostar de academia, frequenta duas vezes na semana para o fortalecimento muscular. A espera pela próxima prova no currículo motiva a seguirem frente.
“Nada me segura. O que me ajuda realmente a viver é praticar a corrida”. A moradora de São José, na Grande Florianópolis, costuma treinar na Avenida das Torres.
Quem passa por lá tem a sensação de estar em uma montanha-russa. O sobe e desce dos 5 km é encarado cerca de três vezes na semana nos treinos matinais.
Ela gosta de motivar outras pessoas. Tanto é que uma prova foi realizada no dia 30 de maio justamente em sua homenagem.
A data escolhida foi a véspera do septuagésimo segundo aniversário. Dia de celebrar com amigos antigos e fazer novos.
Antes da prova, Eduardo Ussui, de 70 anos, nem imaginava a mudança que estaria por vir. O engenheiro caminhou por 3 km neste dia. Nunca tinha participado de algo parecido.
“Eu tive um problema no coração há dois anos. Agora eu faço treinos devagarinho, respeitando meus limites. Me sinto ótimo. Estou provando para mim mesmo que é possível superar a si próprio e a Dona Eni é a inspiradora”.
Juntos invencíveis
Lucy Lopes, 65, recebia ligações de Dona Eni quase todos os dias, encorajando-a a participar dos treinos. Até que a amiga cedeu.
“Eu vivia cheia de dor, depois que comecei a correr, fazer academia, praticamente não sinto nada. Me faz muito bem, não sei mais viver sem fazer atividade física”, conta.
O exercício físico é fundamental para uma vida saudável, conforme explica o fisioterapeuta esportivo Ismael Gomes.
“A articulação precisa de movimento. Até quem tem problema de coluna, hérnia ou artrose no joelho, pode correr. Vai ajudar a melhorar. Só precisa de preparação do corpo para a atividade”.
E apesar de ser um esporte praticado de forma individual, a necessidade de compartilhar experiência fez brotar a semente do “Loucas por Corrida”, um grupo de amigas que se reuniu para ajudar umas às outras.
Fundada oficialmente em 2016, a equipe foi crescendo, entraram os meninos, e decidiram incluir o sufixo masculino no nome. Hoje o “Loucas e Loucos por Corrida” conta com mais de 200 corredores. Cerca de 25% são idosos.
É o caso de Analdo Romalino da Cunha, o “Pereba”, de 63 anos. Quando tinha 11 perdeu uma das vistas e costumava ficar em casa o dia todo. Escondido do mundo.
Para fugir da vida ‘fechada’ que levava começou a praticar triatlo, evento que combina natação, ciclismo e corrida. Após se destacar em algumas provas, conseguiu retomar a autoestima.
“Eu estava preso tipo um passarinho dentro da gaiola e o esporte me libertou. Hoje participo dos grupos, estou ‘voando’ por aí feliz da vida”.
Idosos em movimento
“Sem fazer a minha ginástica e a minha caminhada eu fico louca”. É assim que Marlene Oliveira Gonçalves, 78 anos, descreve a sensação da falta de exercício.
Dias de chuva para ela são terríveis. Toda terça e quinta-feira participa do projeto de extensão Atividade Física para a Terceira Idade, oferecido pelo Centro de Desportos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em Florianópolis.
Nos outros dias, rigorosamente, faz caminhada por cerca de uma hora e 15 minutos, dependendo da velocidade do passo.
A aposentada conta que começou a levar uma vida mais saudável quando ficou viúva, há 24 anos.
“Faz muito bem para saúde, para a mente, conviver com os amigos é maravilhoso. Eu brinco que hoje eu sou jovem, porque já fui velha”, relata.
São quatro modalidades esportivas do projeto voltadas para o público com mais de 60 anos: natação, ginástica, hidroginástica e voleibol.
Fundado em 1985, a ideia é oferecer atividades em grupo que contribuam com a saúde e a socialização. Colega de turma da ginástica, Elenice Rodrigues, de 82 anos, relata outros benefícios.
“Eu faço atividade física para ajudar no equilíbrio, no emocional, na coordenação. Sem isso a gente vai ficando para baixo.
À medida que a idade chega vai mudando a postura, temos que corrigir para não ter problema de saúde. Alimentação boa, saudável e muito líquido, isso é primordial para a pessoa de mais idade”.
Segundo a professora Lara Gomes, doutora em Ciências do Movimento Humano, a atividade física busca justamente isso: “uma manutenção, em alguns níveis, da força muscular, equilíbrio e flexibilidade. São coisas que se perde com o envelhecimento. É muito comum a reclamação de dor no corpo, alguns têm hipertensão, diabetes e o projeto busca também ajudar no controle de doenças crônicas”.
As inscrições ocorrem por meio da internet, no site do Centro de Desportos da UFSC e a matrícula custa entre R$ 190 e R$ 250, a depender da atividade. Novas vagas para a comunidade serão abertas a partir de junho.