Como funciona o orgasmo feminino e por que algumas mulheres podem nunca ter um

Entenda ainda as diferenças entre gozo e orgasmo e que as reações aos estímulos sexuais podem ser muito particulares para cada mulher

Foto de Carolina Freitas

Carolina Freitas Brasília

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A dificuldade em ter orgasmos é uma das maiores queixas das mulheres nos consultórios da terapia da sexualidade. Um das dificuldades é a falta de conhecimento do próprio corpo e de suas reações prazerosas.

Vou aproveitar nossa conversa de hoje para trazer alguns conceitos que são comumente usados como sinônimos, mas não são. Reforço a ideia de que a medida em que vamos tendo mais conhecimento, a vida sexual melhora, assim, caminhamos para a autonomia sexual.

O autoconhecimento feminino através da fisioterapia pélvica ajuda alcançar o orgasmo. -Reprodução: Acervo Dra. Paula Gomes/ND – Foto: orgarmos PAULAO autoconhecimento feminino através da fisioterapia pélvica ajuda alcançar o orgasmo. -Reprodução: Acervo Dra. Paula Gomes/ND – Foto: orgarmos PAULA

Você sabia, por exemplo, que gozar e ter orgasmo são coisas diferentes? Que sexo oral é sexo? Que nem toda mulher goza com sexo vaginal? Que vulva e vagina não são sinônimos?

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Sobre gozar

É importante fazer esta diferenciação e falar sobre o gozo feminino, pois algumas mulheres por desconhecimento sentem vergonha com a reação de esguichar após estímulos de prazer. Entender e respeitar o seu corpo é fundamental para eliminar culpas ou constrangimentos sobre sexo. Esta reação, de sair algo do corpo, é chamado squirting.

A mulher, ao gozar, tem uma reação física de expelir um líquido. Apesar de as glândulas de skene ficarem próximas ao canal da uretra e serem as responsáveis por expelir este líquido, não é urina, não tem cor nem cheiro. E sobre quantidade, vai depender de cada mulher, de cada momento, não é sempre igual.

Importante você saber que é uma reação comum em momentos de excitação intensa e que nem toda mulher terá essa reação. E mais, isso ainda não está associado ao orgasmo.

Gozar e ter orgasmo são reações diferentes que acontecem no seu corpo. Você pode gozar sem ter um orgasmo e pode ter um orgasmo sem gozar. E pode gozar e ter um orgasmo ao mesmo tempo.

Sobre ter orgasmo

Um orgasmo é uma sensação de pico de prazer intenso em resposta à atividade sexual estimulante. Escrevi sobre ele quando conversamos sobre o ciclo da resposta sexual. Vale lembrar que a frequência e a intensidade do orgasmo varia em cada mulher.

Logo, pode-se falar em dificuldade de orgasmos quando houver excitação sexual e estimulação adequada. Caso contrário, a dificuldade não é em ter prazer sexual, e sim nas interações sexuais inadequadas para o orgasmo.

O que pode levar a mulher a ter dificuldades em ter orgasmo? Fatores culturais, questões de relacionamento e de intimidade, condições médicas e medicamentos. Incluo ainda a falta de conhecimento do próprio corpo e de suas reações prazerosas.

O desconhecimento sobre a anatomia sexual feminina e como as diferentes partes do corpo da mulher respondem à estimulação são fatores que contribuem para a ausência de prazer sexual da mulher.

Assim, vejo em meus atendimentos clínicos em terapia da sexualidade e na plataforma Sexo sem Dúvida que muitos homens, e também mulheres, desconhecem o clitóris. Ou melhor, não há conhecimento sobre o corpo da mulher de maneira geral.

Por isso é tão pertinente incluir na psicoeducação a anatomia e a função dos próprios corpos. É importante, ainda, ter atenção às individualidades. De acordo com as crenças, desejos e autoconhecimento, cada mulher reagirá a sua maneira na atividade sexual. Além do orgasmo se manifestar de diferentes maneiras, ele é único para cada pessoa a cada momento.

O corpo têm diversas zonas erógenas e todo ele pode ser sensível a estímulos sexuais. Apesar de não existir uma única região apta ao orgasmo, o clitóris é o único órgão do corpo humano cuja finalidade é apenas o de dar prazer sexual. E pensando na nossa sociedade patriarcal, por ironia ele faz parte exclusivamente da sexualidade da mulher (e pessoas com vulva).

O clitóris não é apenas aquela estrutura de fora na vulva. Além daquele “botãozinho”, que deve ser estimulado com cautela devido a sensibilidade, o clitóris abraça toda a vulva tornando o sexo mais prazeroso. Assim, a penetração vaginal durante o sexo pode estimular indiretamente o clitóris.

No entanto, para grande parte das mulheres isso pode não ser estímulo suficiente para o orgasmo. Será então bem vinda a estimulação manual e/ou oral direta do clitóris para atingir o orgasmo. E tudo bem!

E porque tantos homens “se esquecem” do clitóris? Além de muitos homens desconhecerem o clitóris, a anatomia de um corpo com vulva e vagina ainda prevalece o mito que é o homem quem dá o orgasmo à mulher e que o orgasmo “verdadeiro” é aquele que vem com a penetração.

Este “esquecimento” se mostra conveniente na manutenção da crença de que a mulher não tem desejo sexual, devem ser dóceis e delicadas, sempre prontas para servirem sexualmente e reproduzir.

Então, convido você mulher (e pessoa com vulva) a conhecer sobre o funcionamento do seu corpo. Conhecimento é prazer! Prazer é poder! Você tendo conhecimento de como seu corpo reage ao prazer saberá como mostrar para a pessoa com a qual está se relacionando sexualmente. E essa autonomia sexual te trará relações mais satisfatórias, sem depender de alguém que o faça por você.

Deixo aqui uma reflexão para você: e se o homem quiser continuar “esquecendo” o clitóris?

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