Como um canudo antirrugas nos mostra a quem interessa a ‘eterna jovialidade’ das mulheres

Nova "moda" são os canudos que reduzem o movimento de enrugar os lábios para prevenir as rugas nessa região; mas, afinal, qual é o problema com as rugas?

Kassia Salles Itajaí

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Recentemente uma influenciadora de beleza de Nashville, nos Estados Unidos, viralizou nas redes sociais ao comprar um canudo em formato bastante diferente do tradicional para beber água. O canudo, segundo ela, reduz o movimento de enrugar os lábios, o que, segundo ela, diminuiria as chances de desenvolver rugas na região do rosto.

‘Canudo anti-rugas’ e a pressão para que mulheres não envelheçam – Foto: Reprodução/Internet‘Canudo anti-rugas’ e a pressão para que mulheres não envelheçam – Foto: Reprodução/Internet

O vídeo em que ela compartilha a nova aquisição já tem mais de 200 mil curtidas e 640 comentários. “Quando isso vai acabar?”, questiona um usuário. “Isso é a pressão estética para que mulheres mantenham, mesmo com o passar dos anos, uma pele lisa e uniforme, como uma adolescente”, afirma outro.

@lauren.erro

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Parece que esse é o novo “problema” com que mulheres devem se preocupar. Antes, eram os movimentos da sobrancelha que podem causar rugas na testa. Ou o famoso “bigode chinês”, que fica mais evidente ao sorrir. Ou o pescoço, as mãos, a barriga, os seios, o corpo inteiro…

Todos os dias, um novo padrão surge para que as mulheres passem cada vez mais tempo em frente ao espelho ou gastando dinheiro em clínicas de estética e cirurgias plásticas.

Dinheiro que não temos. Afinal, conforme um estudo da OIT (Organização Internacional do Trabalho), no mundo inteiro, mulheres têm salários 20% menores, em média, do que os homens.

Além disso, pagamos mais impostos: segundo o IBGPT (Instituto Brasileiro de Gestão e Planejamento Tributário), pagamos cerca de 40% a mais em tributos de produtos voltados ao público feminino. Do valor de uma bolsa, que tem como alvo o público feminino, por exemplo, os impostos vão de 39,95% a 41,52% a mais que o mesmo produto direcionado aos homens.

Por que temos medo de envelhecer?

A psicóloga Tamyres Berti traz o livro de Naomi Wolf, “O Mito da Beleza”, para explicar como “a beleza da mulher é uma moeda de troca que gira em torno de instituições masculinas”.

Para Berti, o que dita o corpo feminino e o padrão de beleza são instituições comandadas por homens. “A mulher dá lucro”, conta. Afinal, o senso de que mulheres têm de fazer diversos procedimentos e comprar produtos para se manterem “belas” enriquece uma pequena parcela da população – grande parte dela formada por homens.

Além disso, aspectos culturais também reforçam padrões de beleza para mulheres. Berti explica que isso nos é imposto desde pequenas. “No conto de fadas, quem tem o ‘feliz para sempre’ é sempre a princesa mais bela. E a que geralmente está fora dos padrões?”, coloca.

Este padrão de beleza, para a psicóloga, é favorável ao sistema que dá lucro às instituições, tornando as mulheres mais vulneráveis, especialmente financeiramente. “Somos inseridas neste contexto social e histórico desde muito pequenas. Isso só vai sustentando esse mito da beleza”, completa.

O pânico de envelhecer

Envelhecer impacta negativamente em quem já recebe tanta pressão estética. “O envelhecimento é dito como feio. Esse medo de envelhecer nos é colocado. É um medo porque dizem para a gente que, a partir do momento que envelhecermos, vamos perder o nosso espaço no mundo, a gente não é mais útil”, explica Berti. O medo de envelhecer é o medo de perder o que foi conquistado a duras penas: o emprego, o relacionamento, a família.

“Esse sistema, além de prejudicar a imagem da mulher mais velha, sustenta essa questão da juventude, da ingenuidade, da mulher que segue o mito da beleza e que sente muita culpa por não cumprir com o que nos é esperado”.

Para Tamyres, o equilíbrio e a busca pelo que nos faz bem é a melhor maneira de navegar entre tudo o que é imposto às mulheres. Rituais de cuidado que fazem bem e entender os espaços que se ocupa são fundamentais.

“A gente pode, sim, ser muito potente diante do envelhecimento. Às vezes é ele que vai mostrar essa potência. E o espaço terapêutico ajuda a nos mostrar isso. Mesmo assim, não precisamos deixar de fazer o que nos faz bem, nosso skincare todos os dias, por exemplo. Mas é preciso ter a consciência do que é saudável ou não para nós, e quem nos coloca essa necessidade”, finaliza.

“A gente pode, sim, ser muito potente diante do envelhecimento – Foto: Freepik“A gente pode, sim, ser muito potente diante do envelhecimento – Foto: Freepik

As rugas e o que elas representam

As rugas são, no fim das contas, inevitáveis. Segundo a dermatologista Adma Lima, é natural que, com o passar das primaveras, a face perca estrutura óssea, gordura e colágeno. “Esta perda conjugada leva ao aspecto de ‘derretimento’ da face e vai nos dando linhas, sulcos, perda de contorno e uma face que parece mais envelhecida”, explica.

Hábitos e cuidados podem, sim, amenizar a aparência das eventuais rugas e manchas que aparecem conforme a qualidade da pele muda. Esses processos mudam todo o corpo, e em conjunto caracterizam o processo de envelhecimento.

Enquanto não há como parar o tempo, hábitos simples ajudam de forma mais efetiva na prevenção das rugas do que comprar um canudo diferente. “Uma rotina de uso de filtro solar diariamente, no mínimo de FPS 30, de 2 a 3 vezes ao dia na face e áreas expostas previne o surgimento de manchas, o envelhecimento precoce e o surgimento de cânceres de pele”, afirma a dermatologista.

Antioxidantes tópicos, evitar o sol nos horários de risco (entre as 10 e 16h), não fumar, evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e de açúcar, além de hidratar a pele – tanto bebendo água quanto usando hidratantes tópicos – também auxiliam a envelhecer com mais jovialidade.

Envelhecer do jeito que quiser

“Nossa geração vive um momento único com o qual nossas mães e avós só podiam sonhar: nós temos a possibilidade de manejar ativamente como queremos envelhecer. Hoje, é uma escolha. Apesar de produtos permanentes terem causado algumas preocupações e resultados nada elegantes ao longo da história, hoje dispomos de materiais que são idênticos ao do próprio organismo ou que ativam a nossa própria produção de colágeno, levando a resultados naturais e retardando o processo de envelhecimento”, afirma Adma.

É possível envelhecer do jeito que quiser, mas com cuidado – Foto: FreepikÉ possível envelhecer do jeito que quiser, mas com cuidado – Foto: Freepik

“Esses resultados nada elegantes podem ser considerados efeitos adversos de procedimentos, geralmente associados ao exagero. É o caso do uso de grandes quantidades de ácido hialurônico para preenchimentos, que pode culminar em uma imagem estereotipada, exagerada ou mesmo um aspecto de ‘puffy face’, ou seja, face inchada, exagerada”, explica a profissional.

A especialista também alerta para as modinhas da internet. “Temos que tomar muito cuidado com isso porque levam algumas mulheres a buscar imagens estereotipadas, pois o conceito de beleza muda ao longo da história. O que nunca sai de moda são o bom-senso e a valorização da nossa beleza natural”, finaliza.

“Sexy baby” e o mostro da colina

No hit “Anti Hero”, Taylor Swift, aos 33 anos, desabafa: “às vezes sinto que todo mundo é um ‘sexy baby’ e eu sou um monstro na colina”. Sexy baby é uma referência à sitcom “30 Rock”, em um episódio que critica a sexualização das mulheres.

Já o monstro da colina é a iminente saída da artista dos 20 e poucos para os 30 e poucos, o “outro lado da colina”. “Além da colina” ou “over the hill” é uma expressão em inglês que significa a incapacidade de fazer algo devido à idade.

“Sexy baby” e o mostro da colina – Foto: Taylor Swift/Reprodução/Internet/ND“Sexy baby” e o mostro da colina – Foto: Taylor Swift/Reprodução/Internet/ND

Envelhecer, para as mulheres, é um processo doloroso. É como se perdêssemos a corrida contra um gigante relógio que anuncia o “fim”. O relógio biológico que coloca um prazo final em uma função que muitos ainda acreditam ser a missão de todas: ter filhos.

O mesmo relógio que nos rotula como “muito velhas” para certas coisas, enquanto homens da mesma idade “são apenas moleques”, cujas ações são justificadas por uma suposta imaturidade.

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