Alguns tatuam, alguns se vestem como o ídolo, mas até onde o amor por um astro pode te levar? Conheça a história de Rinaldo Borba, a primeira drag de Joinville que faz perucas para mulheres com câncer por influência da sua paixão pela cantora Madonna.
Rinaldo é, de imediato, um fã, e isso fica claro já na entrada do seu Estúdio de Cabelos. As primeiras paredes do salão são como um santuário, cheias de quadros com os registros de reportagens sobre a história de amor mais longa de sua vida: o amor pela Madonna.
Rinaldo é fã da Madonna e foi fazendo shows interpretando a diva que reuniu dinheiro para montar o estúdio – Foto: Társila ElbertCom 15 anos, Rinaldo já se montava como imitador da diva pop. Foi a drag queen das antigas festas da Fenachopp e Festa da Solidariedade no Cidade das Flores, e também a drag oficial do Festival de Dança de Joinville, pedido feito pelo ex-prefeito Luiz Henrique para a cerimônia de inauguração do Centreventos Cau Hansen, em 1998.
SeguirCom o dinheiro ganho pelos shows interpretando a cantora, ele montou o Madonna Studio e deu início à sua carreira no universo dos cabelos, que hoje já tem mais de 20 anos.
“Eu queria montar um estúdio, um ateliê de cabelos e não só um salão de beleza porque a menina dos meus olhos sempre foi a perucaria. Desse jeito, eu também criaria os cabelos da Madonna”, conta.
Assim, Rinaldo começou a fazer perucas manuais, mas ainda de forma rústica. A especialização chegou em um momento difícil para a família: o diagnóstico de um câncer de mama em sua mãe.
Nenhuma peruca é igual a outra; elas são feitas respeitando as particularidades de cada mulher – Foto: Társila Elbert/ND“Minha mãe era muito apegada ao próprio cabelo, ele sempre foi motivo de orgulho para ela. Quando eu fui visitá-la, após a mastectomia, ela me disse, chorando ‘filho, a mãe vai precisar de uma peruca. Se eu ficar careca, prefiro morrer’ e aí me obriguei a aprender.”
Rinaldo fez sua especialização em perucaria em São Paulo, em 2002, com um investimento de aproximadamente R$ 2.000,00, um valor altíssimo para a época. Devido ao sucesso da operação, a mãe de Rinaldo não precisou de peruca, mas seu conhecimento foi útil para a recuperação de centenas de outras mulheres.
O peruqueiro, hoje, já criou mais de mil perucas em diferentes procedimentos, uma média de 70 a 80 por ano, produzindo modelos até com o próprio cabelo da cliente.
“Com as técnicas que trabalho, posso fazer perucas com o cabelo das mulheres que é retirado antes do processo de quimioterapia. Isso se torna muito importante porque a luta contra o câncer é dolorosa, difícil e eu quero deixá-las o mais confortável possível”, diz.
Pensando nesse conforto, Rinaldo tem um espaço separado em seu estúdio, dedicado especialmente para a prova das perucas e próteses capilares, onde as clientes têm toda a privacidade. Ele não se importa com a calmaria do estúdio, pelo contrário, é o que procura. Seu espaço é idealizado para ser um local de acolhimento e a calmaria é indispensável em um processo tão minucioso e demorado quanto a criação de um novo produto.
Uma peruca lace, por exemplo, que é feita com o procedimento de fio a fio e imita o couro cabeludo, leva, em média, 60 dias para ser finalizada. O modelo pode custar até R$ 6 mil, sempre diferente uma da outra.
Processo de confecção da peruca é minucioso e demorado. Pode levar até 60 dias para ficar pronta – Foto: Társila Elbert/ND“Eu nunca fiz duas perucas iguais. Elas são a identidade daquela mulher e devem conter as características de cada uma, por isso existe muita conversa antes do processo da perucaria”.
Emocionado, Rinaldo compara a perucaria com a criação de uma joia. “Fiz um modelo, certa vez, que tinha cabelo da cliente, que passava pelo câncer, e também da sua filha e da sua neta. É algo para guardar para a vida.”