Nesta terça-feira (15) é comemorado o Dia dos Solteiros. Mas qual é a melhor parte de estar só? Ser uma mulher solteira pode significar dividir a vida com você mesma e aproveitá-la como deseja. No entanto, algumas mulheres enfrentam desafios impostos por si próprias e pela sociedade quando o assunto é solteirice.
Mulheres solteiras e os estigmas sociais – Foto: Pexels/ND“Eu fiquei quatro anos sem namorar ninguém. Foi um desafio enorme”, conta uma mulher, de 30 anos, que preferiu não se identificar. Segundo ela, os julgamentos por estar solteira estavam presentes dentro de sua própria casa.
“Como suportar piadas inconvenientes, frases que são usadas para te atacar ou reclamações por conta da minha exigência para ter um namorado?”, questiona ela, relembrando que seus pais citavam suas
“expectativas altíssimas” e a dificuldade que ela enfrentaria para ter o relacionamento ideal.
O psicanalista Leonardo Moraes aponta que não só mulheres, mas todos, devem estar bem resolvidos com a própria companhia. “Isso é saudável e necessário para a construção de um futuro relacionamento, mas algo a ser levado em conta é quando não há mais interesse em estar em relacionamentos”, explica ele.
“Nunca me preocupei em ficar só. Sempre amei minha própria companhia e não troco por nada. Hoje estou quase noiva, mas só entrei nessa relação quando tive certeza de que era a melhor escolha para a minha vida. Relacionamentos devem acrescentar e não completar ninguém”, complementa.
Moraes lembra que estamos inseridos em uma sociedade flagrantemente marcada pela cultura do amor romântico, que prega a completude do casal, a metade da laranja ou tampa da panela. “A verdade é que isso gera dependência emocional, frustração e dor”, diz.
Para o especialista, é importante lembrar que a companhia de alguém não deve ser pré-requisito para a felicidade. “Existe a ideia de que precisamos encontrar alguém para sermos felizes. Na realidade, precisamos ser felizes para encontrar alguém, e se quisermos”, explica ele.
Dia dos Solteiros deve ser comemorado
A professora Eduarda Ramos, de 26 anos, relata que após terminar um relacionamento de três anos decidiu ficar solteira. “Para mim é um estilo de vida. Este dia precisa ser comemorado”, diz ela, que encerrou a relação há seis meses. “Após o fim, imaginei feridas que dificilmente se curariam, mas me senti livre de uma maneira que nunca havia sentido antes”, completa.
Estar em “solitude plena” fez com que Eduarda vivesse a vida de forma mais leve. “Estou em um momento feliz, mas, se aparecer alguém que me queira de verdade, do jeito que sou, eu topo”, complementou.
A antropóloga Adriana Angerami lembra que a sociedade tende a não aceitar de forma aberta as escolhas de vida que levam mulheres a serem solteiras. “Isso ocorre porque se construiu uma convenção social de que a felicidade só pode ser alcançada quando você se casa e tem filhos”, afirma.
Segundo a especialista, essa crença faz muitas mulheres acreditarem que alcançando o casamento elas atingem a felicidade. Apesar disso, segundo a estudiosa, o pensamento tem mudado. “Porque a vida tem maiores possibilidades de escolha que não atravessam somente essa cadeia convencional”, reafirma ela.
A psicóloga Olinda Lili Zacharia aponta que algo que se destaca e é bem recorrente em quase todas as culturas direcionada às mulheres, é que encontrar um homem é a coisa mais importante que pode acontecer na vida delas. Ter um parceiro que seja o centro motivador e organizador de sua vida”.
Nessa linha, Leonardo acrescenta que vivemos em uma cultura que estabelece essa linha do tempo que traduz felicidade e sucesso: em estudar-trabalhar-casar-ter filhos. “Isso acontece para ambos os sexos, mas para as mulheres é mais rígido no quesito casar e se reproduzir”, fala Moraes.
Além disso, a sociedade ainda vai responsabilizá-la por qualquer insucesso em seus relacionamentos. Será ela a taxada como chata, fria, mandona e quaisquer outros adjetivos que a desqualifique como capaz de manter um relacionamento, segundo o especialista.
“Quando elas decidem fazer outras escolhas, isso não é aceitável porque quebra uma lógica, um roteiro de filme, ao qual estamos acostumados a ver por aí”, explica Adriana.
Mulheres solteiras e mães solo
Adriana Angerami traz ainda a reflexão das mulheres solteiras que são mães solo. O preconceito é ainda maior para com elas, seja para entrar no mercado de trabalho ou mesmo iniciar um novo relacionamento.
“Muitas empresas ainda têm aquela lógica de não contratar mães. Essa visão excludente também atinge essas mulheres no momento de iniciar um novo relacionamento. Este imaginário da mulher solteira sofre outros estigmas, que são construídos porque se atravessam marcadores geracionais, como a maternidade e a vida profissional”, afirma a antropóloga.
Leonardo Moraes aponta que na cultura machista, que não valoriza o feminino, mulheres que estão em busca do espaço na sociedade, no mercado de trabalho e de representação política, por exemplo, ficam estigmatizadas como desamparadas, incapazes de se relacionar, não como independentes, líderes e lutadoras.
Solteiras, autônomas e independentes
De forma geral, a sociedade tem essa necessidade de controle sobre o destino das mulheres que escolhem estar sozinhas, um problema histórico.
“Antes, a mulher legítima de ser considerada ‘valorosa’ era aquela que se colocava a serviço da prole e da família. Ao contrário dos homens, que eram exigidos status, bens e nome da família. O desejo sexual era um direito exclusivo deles, as mulheres deveriam ser submissas a isso”, explica Zacharia.
Mas hoje, para uma mulher que se esclareça um pouco mais sobre a sua importância histórica, seu papel social e, principalmente, sobre quem ela verdadeiramente é, começa a ficar cada vez mais difícil aceitar certas convenções e imposições sociais.
Olinda afirma que as parcerias amorosas são válidas, mas, sob a ótica de gênero, não é comum ver homens que aceitem mulheres corajosas, inteligentes, independentes no mesmo nível de importância e igualdade para serem verdadeiros parceiros dessas mulheres.
Posicionamento, independência e autonomia. Essas são as palavras que as mulheres devem ter em mente, pois quanto mais elas se enxergarem como dependentes, mais vão alimentar o estigma de que não podem ter uma vida completa na solteirice.
Angerami arremata afirmando que a solteirice é uma possibilidade de seguir uma vida mais saudável consigo mesma, Pporém, tudo vai depender das escolhas particulares de cada mulher e dos projetos de vida que elas estão construindo para si. “A solteirice ainda pode ser um período passageiro, de permanência ou uma escolha de como viver melhor. E está tudo certo”, finaliza.