“Que bonita, você nem parece a idade que tem!”
“Você não tem idade para isso!”
“Está enxuta, hein!”
Seguir“Nossa, qual é o seu segredo para estar tão conservada?”
“Você acha esta roupa adequada para sua idade?”
“Velha de franja e cabelos compridos?”
Estes e diversos outros comentários são etaristas e talvez você nem saiba. Pode, inclusive, encará-los como elogios.
Por definição, etarismo é o preconceito, a discriminação de pessoas ou de grupos com base em estereótipos da idade. E, como nas frases acima, a manifestação do preconceito aparece de diversas formas no cotidiano.
O etarismo tem tornado as mulheres mais velhas seres invisíveis, discriminadas por serem mulheres e por suas idades. E como mulheres não devem ser limitadas, precisamos dar visibilidade a estas violências. – Foto: Pexels/Divulgação/NDO preconceito baseado na idade deve ser tratado com seriedade, pois a própria APA (American Psycholocial Association) revela que a população de idosos vem aumentando e, junto a ela, a discriminação etária, que pode piorar a saúde mental, trazer consequências na diminuição da vontade de viver, comportamentos não preventivos de saúde, incluindo a saúde sexual, redução da longevidade, depressão e ansiedade, além de problemas interrelacionais e profissionais.
É um tema que precisa ser debatido de forma urgente, incluindo seus entrelaçamentos com o ageísmo e o sexismo. O ageísmo é um tipo de etarismo que discrimina e hostiliza especialmente pessoas com idades mais avançadas. E o sexismo é a discriminação baseada em gênero.
Assim, o etarismo tem tornado, especialmente as mulheres mais velhas, seres invisíveis. E como mulheres não devem ser limitadas, precisamos dar visibilidade a estas violências.
A velhice é um grande tabu na nossa sociedade. O envelhecimento da mulher mais ainda. E se pensarmos na sexualidade da mulher na velhice, então…
Mas a velhice nada mais é do que uma das etapas do ciclo de vida. Não é apenas um fenômeno biológico. Apresenta singularidades e subjetividades. Então, podemos pensar a velhice enquanto um processo biológico, psicológico e existencial.
Ela modifica a relação da mulher com o tempo, sua própria história e a história dela com o mundo. São fatores circulares que se interpõem. Ou seja, o bem-estar psíquico tem relação com as crenças sobre sua existência que podem somatizar no corpo e nas suas limitações.
Como só não envelhece quem morre prematuramente, é importante saber que o corpo passa a ter restrições com o processo de envelhecimento e que as dificuldades e limitações da velhice não são sinônimos de fim, e sim, uma nova forma de ser e estar no mundo. Um novo ciclo de vida. A velhice biológica é uma realidade e não um fim em si mesmo. A velhice não é doença. A velhice é dinâmica. O envelhecer é um processo.
E agora que a sociedade vem sendo colocada em questão, qual é o contexto social da velhice hoje? Não existe apenas uma velhice. É preciso pensar e falar sobre as interseccionalidades (raça, etnia, gênero, idade, classe social, sexualidade) deste processo.
E se envelhecemos porque temos de parecer jovens? As marcas no corpo e na pele não seriam histórias de vida? Até onde vai o autocuidado e onde começa o autoengano? Os estranhamentos acontecem e são bem-vindos para compreender a nova etapa, o novo corpo e, assim, reestabelecer o equilíbrio e amenizar as dificuldades que aparecem com a idade.
E a vida sexual? Continua…
O fim da vida reprodutiva (menopausa) não é sinônimo do fim da vida sexual. Hoje existem recursos para as limitações hormonais e corporais. A saúde sexual traz benefícios e novos prazeres.
Mas as barreiras precisam ser diminuídas e é necessário se colocar à mercê do prazer sexual que o seu corpo pode te trazer a cada idade. É preciso abrir espaço para o desejo.
Como? Chega de silenciamentos. Saiba que a função sexual pode ser plural, bem como as gratificações sexuais. E como eu disse aqui quando conversamos sobre o ciclo da resposta sexual, a busca pelo prazer pode ir além da penetração.
Em meus atendimentos clínicos e na plataforma Sexo sem Dúvida tenho evidenciado que a condição de objeto erótico desfavorece a mulher. Mas trabalhando a relação entre a imagem de si mesma e a atividade sexual, tem favorecido a não repulsa pelo corpo não objetificado, a reconhecer e acolher o corpo saudável e prazeroso, independente de seus aspectos e marcas.
E afirmo que a sexualidade tem valor positivo atribuído a busca por vivências sexuais e eróticas na velhice, sim. A vida sexual se prolonga quanto mais satisfatória e prazerosa tiver sido. Vai acontecer até o limite das forças físicas.
Além disso, é uma visão muito limitada definir sexo apenas por penetração e orgasmo. Os prazeres podem ser diversos, bem como as atividades sexuais.
A libido e os desejos nos acompanham por toda a vida, incluindo na velhice. É claro que a memória erótica facilita. Então, se você ainda não chegou na velhice, que tal começar a cuidar da sua vida sexual agora?
E como não se deixar levar pela ideia de que se estar “velha”? É preciso quebrar paradigmas e normalizar além da beleza da mulher grisalha, valorizar as marcas de expressão e aparência dos corpos. O poder está em abrir espaço para esta transformação cultural que se faz necessária diante de tantas invisibilidades das mulheres mais velhas. As mulheres podem ser protagonistas de sua história em qualquer idade. E aqui incluo sua história sexual.
A velhice nada mais é do que uma das etapas do ciclo de vida. Ela não é apenas um fenômeno biológico, apresenta singularidades e subjetividades. Então, pode-se pensar a velhice enquanto biológica, psicológica e existencial. – Foto: Pexels/Divulgação/NDCompreenda que a cor do seu cabelo não te define. Por que a mulher grisalha não pode ser sensual e interessante, como são referenciados os homens grisalhos?
Veja um exemplo de etarismo que aconteceu recentemente com Lisa LaFlamme, mulher de 58 anos, jornalista canadense, âncora por anos da CTV National News. Ela foi demitida, após 35 anos em frente às câmeras, por homens do alto escalão (que provavelmente são grisalhos) por eles não gostarem da imagem de uma mulher grisalha no comando do jornal.
Aqui vemos além do etarismo, ageísmo e sexismo. Logo, as mulheres mais velhas são discriminadas tanto por serem mulheres quanto por sua idade. E agora também por manterem seus cabelos grisalhos.
E pensando na sexualidade da mulher idosa, deixo a sugestão para você assistir ao filme “Boa Sorte, Leo Grande”, que foi recém lançado. O longa retrata bem a busca por gratificação sexual para além do orgasmo. E o poder da autoestima em qualquer ciclo da vida. Não é um filme sobre sexo nem uma comédia.
Para além da busca de orgasmo, assistimos a uma jornada de libertação e autonomia de uma mulher, agora professora aposentada, que ficou viúva do único homem que esteve em sua vida. Aviso que é muita informação para um filme único. Mas vou me ater aqui à questão de gênero e sexualidade desta mulher.
Aponta as vivências da sexualidade restritas e repletas de crenças e mitos sexuais que atrapalharam sua vida. Vemos a transformação de uma mulher curvada e de semblante triste e crítico para a uma mulher ereta (trocadilho bem-vindo!), cheia de vida e amor próprio.
Prazer é poder em qualquer idade. Te convido a fazer parte deste movimento de ruptura de padrões que tanto engessam as mulheres!