Prateleira do amor: o que a ideia de escolher e ser escolhida diz sobre os relacionamentos

Os psicanalistas Cris Pereira e Leonardo Moraes explicam sobre como a idealização e a projeção podem afastar as pessoas dos relacionamentos reais

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Lídia Gabriella Florianópolis

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Se você costuma acessar as redes sociais ou aplicativos de relacionamento, provavelmente já se deparou com listas de requisitos  para determinar o tipo de relacionamento que homens desejam com mulheres logo no primeiro encontro.

idealizaçãoComo a pressão por um relacionamento pode ser danosa para mulheres – Foto: Jonathan Borba/Pexels/ND

O influenciador Nascimentto compartilhou sua perspectiva sobre o assunto em um vídeo publicado no TikTok: “Nós, homens, frequentemente já temos em mente o tipo de mulher que desejamos namorar, e se encontramos alguém que atenda a todos os nossos critérios, é provável que tenhamos uma forte inclinação para um relacionamento”, postou.

A psicanalista e terapeuta sexual e comportamental Cris Pereira alerta que essas escolhas são frequentemente baseadas em idealizações, o que pode ser perigoso, por provocar sentimentos de frustração em ambos os lados, uma vez que não se ajustam à realidade.

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“Cedo ou tarde essa idealização pode resultar em frustração, angústia, decepção e outros sentimentos que podem fazer alguém sentir-se incapaz de estabelecer relacionamentos”, afirma.

Um exemplo que ilustra as palavras de Cris é a história de Paulo Souza*.  Ele conta que sempre buscou mulheres que se encaixassem exatamente no que ele entende como “perfil ideal” de parceira.

“Eu tinha uma lista de critérios: a mulher deveria ser morena, ter cabelos longos e ser mais baixa que eu, além de ter determinadas características de personalidade. Se alguém não correspondesse a esses critérios, eu a descartava imediatamente”, relata Paulo.

Após vários relacionamentos, Paulo resolveu dar um tempo na busca por alguém quando percebeu que não estava se relacionando com pessoas, mas com projeções.

Veja o vídeo do influenciador:

@adrianaventuraoficial O leque de opções da mais conveniente #relacionamento ♬ original sound – ADRIANA VENTURA DE SOUZA

Como seria a pessoa que eu namoraria?

Em todos os casos, é importante não generalizar, uma vez que a mesma dinâmica se aplica às mulheres. Adriana Ferreira, de 23 anos, compartilha sua perspectiva sobre como seleciona um parceiro.

“Primeiramente, observo as qualidades que podem ser benéficas para mim e, em seguida, avalio o aspecto físico. Se isso não corresponde às minhas expectativas, descarto a possibilidade”, afirma ela.

Adriana enfatiza que não está usando ninguém. Simplesmente acredita que não conseguiria se relacionar com alguém que não atende a todos os critérios que ela estipulou. “Se não se encaixa nos meus critérios, eu não me envolvo nem crio expectativas”.

O psicanalista Leonardo Moraes esclarece que é saudável entrar em um relacionamento com clareza sobre o que se está buscando. Por exemplo, a pessoa deve procurar alguém que acredita ser o melhor para si.

No entanto, é importante não fechar a mente para o que é diferente da idealização. De acordo com o especialista, estabelecer critérios rígidos e ignorar a diversidade sugere, acima de tudo, uma mente imatura e, possivelmente, alguém que ainda lida com o complexo de Édipo mal resolvido.

O complexo de Édipo ocorre durante o desenvolvimento psicossexual da criança, quando ela começa a experimentar uma forte atração pela figura materna ou paterna e a rivalizar com um dos pais.

“Quando dizemos que alguém enfrenta um complexo mal resolvido, estamos indicando que a pessoa ainda mantém relações afetivas com um modelo parental conhecido”, diz ele.

Não é você quem escolhe sozinho

Joana Pereira* conta que se surpreendeu quando o ‘crush’ revelou que a tinha “escolhido” como namorada logo no primeiro encontro. “Como assim, ele me ‘escolheu’? Isso significa que eu não tenho voz ativa para decidir se desejo ou não me envolver com ele?”, questiona.

Ela conta que a perspectiva machista da situação a levou a bloquear o homem em todas as redes sociais. “Eu não o via como um potencial namorado, então o deixei para trás”, acrescentou ela, revelando que não haveria afinidade com ele.

Cris ressalta que tanto homens quanto mulheres precisam aprender a valorizar a si mesmos. “Enquanto alguém não se conhece bem, deve aproveitar a vida e cuidar de si, pois quando se descobre o que realmente gosta, passa a não aceitar qualquer relação em sua vida”, completa.

A especialista ainda destaca que a decisão de iniciar um relacionamento não é exclusivamente responsabilidade do homem. Ambos os parceiros precisam estar de acordo.

“Quando nos deparamos com mulheres buscando entender quais critérios levam um homem a assumir um compromisso, elas estão esquecendo o essencial: olhar para si mesmas”, ressalta.

Leonardo enfatiza que quem se permite encaixar no perfil imaginado pela outra pessoa, sem voz ativa na relação, pode anular os próprios objetivos e planos de vida, o que leva à dependência emocional.

“Abandonar seus objetivos, valores e crenças não é saudável, pois isso resulta em sensações de vazio, frustração e perda de fé nas relações”, adverte ele.

Vale a pena esperar por alguém que não sabe o que quer?

Carla Castro, de 30 anos, é professora do Ensino Médio da rede pública e fala sobre a sensação de não ter sido a escolhida por diversas vezes, o que abalou a sua autoestima.

Após um longo período se submetendo a situações desconfortáveis para atender aos padrões impostos por outras pessoas, ela decidiu questionar se fazia sentido esperar que um homem tivesse a certeza de querer algo com ela.

“Comecei a pensar de forma diferente: antes de nos perguntarmos se somos o tipo de pessoa que alguém namoraria, devemos nos perguntar se esse homem é alguém que vale a pena”, afirma. Ela enfatiza ainda que  estamos no século 21 e as mulheres também têm poder de escolha.

Leonardo destaca que é comum as mulheres se questionarem se estão sendo “trocadas” em vez de “assumidas”, e a se indagarem sobre os critérios que não estão atendendo. Isso pode levá-las a “despersonalizarem” a si mesmas, abandonando seus valores e passando a focar apenas nas expectativas de outras pessoas.

Idealização revela mente imatura

Cris aponta que quando um paciente diz que está em busca da mulher ideal durante as consultas, ela imediatamente questiona se a realidade causa algum tipo de apreensão. Escolher uma parceira baseando-se apenas em padrões de beleza é uma abordagem infantil e imatura.

Portanto, uma pessoa só estará pronta para assumir um compromisso quando suas escolhas forem embasadas em seus próprios valores e princípios, o que requer maturidade.

“Claro, características estéticas podem ter seu espaço, mas não devem ser o aspecto central na decisão de assumir um relacionamento”, esclarece Cris. “Nesse contexto, se alguém se depara com padrões rígidos e requisitos específicos que a pessoa precisa cumprir para manter o relacionamento, ou que a obriguem a renunciar àquilo que a torna única, ela deve considerar seriamente a possibilidade de deixar essa relação e ‘seguir em frente'”, conclui Leonardo.

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