Durante o verão, muitos moradores de Joinville, no Norte de Santa Catarina, se refrescam em banhos de mar na Vigorelli. O local já ganhou a denominação de “praia” e o IMA (Instituto do Meio Ambiente), inclusive, apura a qualidade da água para os banhistas. Mas a “praia joinvilense” é mesmo praia? O portal ND+ conversou com especialistas para entender.
Vigorelli, em Joinville – Foto: Carlos Jr/NDA Vigorelli é praia?
Celso Voos Vieira, doutor em Geografia e professor em Saúde e Meio Ambiente da Univille, explica que uma praia é definida por ambientes dominados por ondas, com sedimentos grosseiros, areia ou pedras. De fato, a Vigorelli tem uma faixa de areia, o que está entre as características de uma praia.
Contudo, a região apresenta outros atributos que fazem com que se assemelhe mais a um manguezal, como a areia lodosa, sedimentos finos e matéria orgânica, além de espécies arbóreas, arbustos e outras plantas. Além disso, a “praia joinvilense” não tem predominância de ondas, aponta o professor.
Espécies arbóreas, arbustos e outras plantas estão presentes na Vigorelli – Foto: Carlos Jr/ND“O que ocorre são planícies de maré. Temos uma faixa com baixa declividade, dominada por processos de maré, onde tem ocorrência de areia, porém muito com ocorrência de matéria orgânica e sedimentos finos, formando o ambiente conhecido como manguezal. Temos ocorrências de espécies arbóreas e algumas espécies arbustivas e de gramíneas. Então, isso é o que configura o ambiente da Vigorelli naturalmente”, comenta o geógrafo.
Segundo Celso, a faixa de areia existente no local não é natural, mas foi incorporada à região ao longo do tempo. As características da área apontam para um ambiente de manguezal, ecossistema que foi alterado ao longo de sua história criando o ambiente chamado de praia.
Alessandra Fonseca, professora de Oceanografia Biológica e Geológica da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), também comenta sobre a presença de características de manguezal no local. “A gente vê nas margens umas gramas altas, isto se chama ‘marisma’, que pela legislação ambiental é um sistema de manguezal”, explica.
Espécies arbóreas, arbustos e outras plantas estão presentes na Vigorelli – Foto: Carlos Jr/NDEla diz ainda que o que ocorre no local é a existência de uma faixa de praia artificial sobre o que foi, mais antigamente, um manguezal, que existe em todo o entorno. “Esta não é uma praia arenosa típica, como em São Francisco do Sul”, exemplifica a especialista. “No interior da baía, você não vai ter essa areia branquinha, vai ter lama.”
Em resumo, a Vigorelli até pode ter uma faixa de areia, mas não é uma “praia natural”. “Hoje, o que se visualiza: grandes blocos de rocha, principalmente para dar acesso à balsa e para manter estabilidade dos locais de rua. Próximo do local, há ocorrência de areia, mas essa areia foi depositada ara se criar artificialmente o ambiente de praia, para que o pessoal pudesse aproveitar aquele local. Então não daria para classificar a praia da Vigorelli como um ambiente de praia natural”, explica Celso.
Vigorelli também possui faixa de areia – Foto: Carlos Jr/NDE pode tomar banho na região?
Marcelo Pinzegher cresceu na região, onde ainda mora e tem um restaurante de frutos do mar. Quando criança, a faixa de areia era ainda maior, conta, e a molecada aproveitava para jogar bola e brincar no local. “Em época de temporada, você não conseguia contar as cabeças que tinha dentro da água, era muito banhista”, lembra. Para Marcelo, houve um avanço do mar e a faixa de areia foi sumindo com o passar do tempo.
As famílias que moram na Vigorelli também vivem da pesca de animais no mangue. “Hoje temos famílias que vivem do caranguejo e marisco que tiram do mangue, fornecedores nossos. Diversidade grande que temos”, comenta Marcelo.
E quem gosta de tomar banho na Vigorelli pode ficar tranquilo porque o fato de a “praia joinvilense” não ser uma “praia natural” de fato, nada impede banhistas de aproveitarem o mar da região.
Há muitos anos, as pessoas já se banham no local e, por isso, o IMA começou a analisar a balneabilidade da Vigorelli, procedimento feito para verificar se o ambiente é próprio para banho ou não.
Em 2022, das 24 coletas realizadas na localidade, apenas duas delas indicaram que o ambiente estava impróprio para banho. Isso ocorreu em 11 de janeiro e em 3 de março deste ano. Desde então, o local tem sido considerado próprio para os banhistas.
Trecho da Vigorelli tem sido considerado próprio para banho, segundo IMA – Foto: Carlos Jr/NDO gerente de Laboratório e Medições Ambientais do IMA, Marlon Daniel da Silva, indica que todo banhista, antes de escolher um local para se banhar, verifique o histórico das praias, disponível no site da balneabilidade. Lá, é possível ver a tendência de resultados de cada local. Quanto melhor o histórico, mais confiança o banhista pode ter de que a qualidade da água está dentro do exigido pela saúde pública.
O relatório de balneabilidade avalia a presença de coliformes fecais, mais precisamente a bactéria Escherichia coli (E.c.), presente nas fezes humanas e que pode colocar em risco a saúde. “O IMA utiliza o indicador de coliformes fecais, o Escherichia coli, que tem em maior número no trato intestinal do homem. Quem utiliza o esgoto nas águas é o homem, então é avaliada a principal contaminação fecal no mar”, explica.
Esse cuidado com a verificação da qualidade da água reflete também na saúde de toda a população. “Se você evita [se banhar] em local que está impróprio para banho, evita ocupar um leito de internação. É um serviço de precaução”, aponta Marlon.
Tratamento de Esgoto na Vigorelli
Marlon explica que há alguns anos era mais comum a água da Vigorelli estar imprópria para banho, inclusive com mais da metade das coletas demonstrarem más condições para os banhistas. Em 2013, por exemplo, das 20 coletas, 13 foram consideradas impróprias. “Sinalização de que existia [na época] uma contaminação que fugia ao sistema de esgoto que existia no local”, comenta o gerente.
Atualmente, os imóveis da Vigorelli contam com a chamada “fossa filtro”. Segundo a prefeitura de Joinville, a instalação do sistema de tratamento de esgoto no local está prevista no projeto de urbanização da região, que deve ser concluído até 2024.
O morador Marcelo explica que são poucas famílias que moram no local, o que não chega a impactar negativamente as águas da Vigorelli “E os moradores são conscientes, têm fossa filtro, tem cuidado”, afirma. Ainda assim, a vinda do tratamento de esgoto para a Vigorelli é esperada com muita expectativa no local.
“A Vigorelli é um ponto turístico forte para Joinville. Pescadores vêm de fora, inquilinos deixam barcos para pescar na Vigorelli. Um lugar desse aqui é privilegiado, me sinto privilegiado de morar aqui, em um paraíso deste”, destaca o morador.