Cada alimento passava por um processo minucioso de pesagem. A balança e as marmitas já eram indispensáveis. As atividades físicas, mais ainda. Tudo isso fazia parte da rotina diária. Apesar de parecer muito complicado ou até mesmo “doloroso”, para ela tudo era muito simples. “Não sinto vontade de comer fora da dieta. Gosto é disso”, afirma com orgulho.
Magliane, que passou por três gestações e hoje tem 52 anos, realmente segue com a disposição de uma adolescente — Foto: Instagram @maglidreher/Reprodução/NDAlguns dias antes do grande dia, Magliane Dreher, que mora em Santo Amaro da Imperatriz, na Grade Florianópolis, viajou para Vitória, no Espírito Santo, com o marido, uma amiga — que também iria competir —, e o companheiro dela. Alugaram um apartamento juntos, pois assim poderiam controlar a comida.
Enfim o grande dia, sábado, 31 de julho de 2021. Começou com um mingau de suplemento alimentar de proteína do soro do leite, farinha láctea, iogurte desnatado, mamão, banana, uva passa, geleia de frutas e até doce de leite. E então começava o ritual: cabelo, maquiagem e a pintura corporal. Os dois biquínis, um vermelho e um azul, cheios de pedrarias colocadas por um conhecido estilista da cidade, já haviam sido selecionados há tempos. Afinal, a preparação começa por essa escolha.
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Magliane deseja continuar preparando mulheres e atletas fisicamente – Foto: Instagram @maglidreher/Reprodução/NDNo celular, o treinador já havia deixado o recado: “Observação: quando estiver nos bastidores pode comer bolachas de arroz com um pouco de mel ou doce de leite, mas sem exageros para não perder a linha do abdômen”. Magli sabia que precisava estar com contração abdominal impecável e permaneceu com a informação na cabeça o tempo todo. Além disso, próximo de subir no palco eles indicam comer salgadinho que queijo nacho. Só que para ela, isso é pior que tortura. “Só consegui comer dois ou três porque não quis sair do protocolo. É muito difícil para mim comer esse tipo de coisa”, relembra.
“No palco é diferente. Nervoso e frio na barriga. As poses precisam ser precisas, um perfeito desfile e muita contração muscular”, conta com um sorriso no rosto. Quando as luzes se acendem, é hora do show. Poses feitas cuidadosamente, simpatia e acenos para conquistar os árbitros e a plateia. E claro, toda força de vontade nua e crua para o julgamento.
“A atleta de número 108. A Magliane. Você é um fenômeno! A Magliane tem 52 anos e bate de frente com qualquer wellness que suba nesse palco. E mais! Se você conseguir ir ao mundial com a idade que tem e o condicionamento, vai muito bem. Parabéns! Você é um exemplo aqui”, elogiou um dos jurados durante um dos campeonatos.
Magliane é personal trainer e dona da Academia Master Form, em Santo Amaro da Imperatriz – Foto: Instagram @maglidreher/Reprodução/NDO elogio não foi a toa. Ela, que passou por três gestações e atualmente tem 52 anos, realmente segue com a disposição de uma adolescente. Ganhou Top 3, no primeiro campeonato que competiu em 2019. No segundo campeonato, em 2022, ganhou Top 2 Estreantes, Top 2 Estadual e Top 2 no Campeonato Brasileiro.
Magliane deseja continuar preparando mulheres e atletas fisicamente. “O que mais me realiza é melhorar sempre a condição física, a saúde e consciência corporal das pessoas”, afirma a proprietária e personal trainer da Academia Master Form.
Atleta de 51 anos com deficiência visual compete no fisiculturismo: “Não quero perder tempo me lamentando, mas sim vivendo”
“Você pode tudo”, foi essa a frase que mudou a vida da atleta de 51 anos, natural de Tubarão, no Sul de Santa Catarina, Laura Boppre.
Por um tempo, Laura conviveu com a visão monocular, só que aos 46 anos, percebeu que algo não estava certo – Foto: Instagram @laurabopprejustino/Reprodução/NDA catarinense nasceu com todas as condições perfeitas do corpo, mas aos 26 anos precisou competir contra um inimigo pouco conhecido. Tanto para ela, quanto para a medicina. “Houve uma investigação para saber o que era. Fiz 13 cirurgias, mas acabei perdendo não só a visão, mas também o olho esquerdo”, conta.
Por um tempo, Laura conviveu com a visão monocular, só que aos 46 anos, percebeu que algo não estava certo. A luta continuava. “Veio o diagnóstico que eu não esperava. Fui diagnosticada com retinose pigmentar”, relembra Laura.
Com um diagnóstico sem cura, Laura já estava com menos de 20% da visão, utilizando bengala verde — para deficientes de baixa visão —, e também com uma perda percentual da audição, necessitando de aparelhos auditivos.
A vida parecia ter acabado naquele momento. E poderia para muitos. No entanto, foi um combustível para Laura, que viu um recomeço na história. “Considero a vida um dom sagrado. É algo maravilhoso. Ninguém vive sem passar pelo sofrimento. É uma ilusão pensar que é só um mar de rosas. Viver é estar constantemente resignando esse sofrimento”.
Como um sinal enviado pelo universo, uma amiga de Laura, que sabia que frequentar a academia a fazia bem, a presenteou com uma mensalidade, para que ela não abdicasse da rotina que tanto gostava. “Como fazer um exercício sozinha, sem enxergar?” — o sentimento era de medo. Só que foi mesmo assim.
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“Com a ajuda do instrutor eu conseguia realizar os treinos normalmente. Então pensei: ‘Opa! Isso é uma coisa que consigo fazer’. Aí resolvi procurar um médico para me ajudar na condição total do meu corpo”, conta com a voz serena.
Certo dia, em uma das consultas, criou coragem e disse: “O fato de estar na academia e de conseguir treinar está me fazendo ter uma visão, está me fazendo sentir viva. Me senti inclusa na sociedade, e quero ser atleta”, no mesmo momento abaixou a cabeça. Os julgamentos internos não a permitiam pensar que seria possível de fato.
Sem pensar duas vezes, o médico respondeu que ela “pode tudo”. A partir daquele dia, Laura era atleta e passou a se portar como tal. Se alimentava como uma, dormia bem e se dedicava quase que exclusivamente para isso. “Me sentia viva e pertencente a uma sociedade novamente”.
“Se fala muito em acessibilidade e inclusão, mas, na prática, isso está longe de ser uma realidade. No esporte consigo ser uma pessoa onde não tem diferença”, diz.
Laura foi a primeira mulher com deficiência visual a participar de um campeonato de fisiculturismo em SC – Foto: Instagram @laurabopprejustino/Reprodução/NDLaura foi a primeira mulher em Santa Catarina com deficiência visual a participar de um campeonato de fisiculturismo e já coleciona vários prêmios. “Depois, ousei e competi com mulheres de 30 anos. Dobrei de categoria no campeonato. Em setembro de 2022, participei do terceiro e competi também na categoria especial. Fiz uma apresentação com outro deficiente visual com coreografias bem elaboradas (…). Todas essas conquistas se resumem a vitória contra o preconceito”, se orgulha.
“Não sou mais a Laura de ontem e amanhã já serei diferente, porque a gente vai adquirindo experiência (…). O limite está na gente. Porque cada um de nós consegue saber até onde pode. (…) As pessoas sempre vão falar, então faça só por você”, encerra.
Desde cedo sabe o que quer! Adolescente de 15 anos se encontrou no esporte
Apesar da pouca idade, Ananda Shiachticas Mello Silva, de 15 anos, já está dando um show no esporte. Moradora de Florianópolis, ela começou a praticar atividades físicas aos 10 anos. “Sempre com o apoio dos meus pais. Busco sempre dar o meu melhor em tudo que faço, porque amo”, diz com orgulho.
Ananda começou a praticar musculação aos 10 anos – Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/NDAnanda entrou no mundo do fisiculturismo após sofrer uma lesão praticando ginástica artística. Por tal razão, precisou frequentar a academia para fortalecimento. “Um dia estava na academia e um coach me viu e disse que eu tinha potencial para o fisiculturismo. Me fez um convite e aceitei participar da primeira competição na IFBB (International Federation of Fitness and Bodybuilding — Federação de Fisiculturismo do Brasil). Conquistei uma vaga para o Campeonato Brasileiro que será realizado neste ano, em julho”, relembra.
Dedicada, a jovem afirma que segue uma rotina bastante cansativa, mas muito satisfatória – Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/NDDedicada, a jovem afirma que segue uma rotina bastante cansativa, mas muito satisfatória. “Treino todos os dias, menos domingo. É meu parque de diversões (…). No final o resultado vale a pena, tudo em busca do meu sonho”, Ananda conta que deseja chegar no campeonato considerado o mais importante do fisiculturismo e ser campeã.
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“Minha experiência até o momento está sendo incrível, estou cada dia mais apaixonada por esse esporte. Para todas as meninas que queiram competir, em primeiro lugar é preciso procurar uma academia, treinar com amor, foco e determinação. Quando a gente quer, nada nos atrapalha. Foque nos seus objetivos e nos seus sonhos e nunca desista”, finaliza a adolescente.