Foto: Darline Santos/Divulgação/NDAnna Karina passou a maior parte da vida na Modecol, marcenaria de alto padrão que seu pai, Orlindio da Silva, comprou em São José no dia em que ela nasceu, em 1977, e fechou no final de 2019. Conhecedora de todos os setores da empresa, onde foi trabalhar aos 18 anos, quando entrou na faculdade de ciências contábeis, resolveu mudar de rumo há cerca de dois anos. Percebendo o mau aproveitamento dos espaços nas casas dos clientes, estudou para se tornar uma personal organizer, especializada em planejamento e organização de mudanças residenciais, acervos e rotinas domésticas.
Por que as antigas marcenarias da Grande Florianópolis estão desaparecendo?
As marcenarias tradicionais, com mais de 40 anos de mercado na região da Grande Florianópolis, acabaram fechando aos poucos. Os fatores que levaram ao fechamento são particulares e individuais, porém, a falta de mão de obra, a concorrência desleal causada pela informalidade de pequenos empreendedores, contribuíram fortemente para a instabilidade do mercado mobiliário na cidade.
SeguirDe que forma a organização de ambientes atraiu a tua atenção?
Sou uma mulher naturalmente organizada, metódica e sistemática. No meu trabalho na marcenaria, acompanhando as obras, montagens dos móveis e mudanças residenciais, passei a observar o quanto os clientes investiam em projetos milionários de arquitetura e interiores e, depois de montarem a casa dos sonhos, eles não tinham um profissional para organizar as casas.
Suas equipes domésticas não tinham conhecimento técnico para tornar os espaços bem-organizados e práticos. Havia falta de aproveitamento dos espaços nos armários, coisas fora de lugar, coisas em excesso, closets gigantes sem padrão de organização, enfim, conheço bem os benefícios que uma casa organizada pode gerar e passei a ofertar isso aos meus clientes.
Foto: Divulgação/NDComo percebeste que a organização de uma casa poderia ser um filão profissional a ser explorado?
Depois que fiz 40 anos, me despertou o desejo de empreender solo. Comecei a pesquisar e estudar sobre algumas áreas, até que um dia meu esposo chegou em casa falando da profissão de personal organizer, e eu fui pesquisar. Já na minha primeira busca, apareceu um curso no hotel Majestic que aconteceria dali a duas semanas. Depois deste despertar, fiz uma formação profissional na OZ! Organize sua Vida, empresa especializada com sede em São Paulo, e segui me especializando em organização residencial.
O que aconselhas para quem quer estudar nesta área?
Temos boas escolas no Brasil. Os cursos que fiz foram de forma presencial, porém, atualmente, é possível fazer on-line. Recomendo buscar formação em escolas, entidades, enfim, em empresas que possuam didática e regulamentação na maneira de capacitar profissionalmente. Tenho curso de formação profissional como personal organizer, sou especialista em planejamento e organização de mudanças residenciais, rotinas domésticas e organização de acervos de louçaria, prataria e cristais.
Foto: Darline Santos/Divulgação/NDPersonal organizer é uma atividade relativamente nova como trabalho especializado. Qual a origem dela?
Apesar de parecer uma novidade, a profissão de personal organizer surgiu na década de 1980. Tudo começou nos Estados Unidos, em 1983, quando Bewerly Clower, Stephanie Culp, Ann Gambrell, Maxine Ordesk e Jeanne Short se juntaram para oferecer serviços de organização em Los Angeles. O projeto foi um sucesso e, em menos de três anos, elas fundaram a National Association of Professional Organizers (Napo). No Brasil, os primeiros profissionais iniciaram seus trabalhos há mais de 10 anos.
No início, não se estranhava a existência um profissional somente para organizar a casa? Não confundiam a função com a de doméstica, arrumadeira, governanta ou decorador?
As mídias sociais contribuíram muito para a divulgação da profissão. Nunca tive problemas com relação a isso. Muitas vezes, acabo dando um suporte na gestão da casa, orientando funcionários, recebendo mercadorias, sugerindo fornecedores. A experiência com diversas áreas que envolvem a casa me permite ajudar meus clientes em diversos setores.
Foto: Divulgação/NDComo identificar que uma casa ou empresa precisa reorganizar os espaços?
A partir do momento em que você percebe que perde muito tempo para encontrar as coisas e que isso está atrapalhando sua rotina.
O famoso conceito “bagunça organizada” se justifica?
De jeito nenhum! Demorar para encontrar um documento, não encontrar uma calça jeans e perder objetos dentro da própria casa, são fortes indícios de que sua bagunça é o caos.
Quem são as pessoas que te chamam?
O público é predominantemente de mulheres maduras. Porém, isso não significa que homens não gostem de organização. Aliás, eles amam ter as coisas deles organizadas, mas são as gestoras da casa que me chamam. Mulheres muito ocupadas, empresárias, profissionais liberais, que dedicam-se cada vez mais aos seus negócios e deixam a organização da casa por minha conta.
Foto: Divulgação/NDExiste muita procura? Quais são as maiores dificuldades delas?
A procura é cada vez maior para organização de mudança residencial. Durante um processo de mudança, as pessoas precisam se envolver com assuntos burocráticos, como mudança de titularidade, assinatura de novos contratos, isto não conseguem terceirizar. Então, eu faço toda a organização dos pertences da família. Distribuo as peças de forma a tornar o dia a dia mais prático e funcional.
Com a pandemia, a vida precisou ser reorganizada, principalmente dentro de casa, onde a família passa mais tempo junta e o trabalho de muitos migrou para home office. A demanda dos teus serviços aumentou?
Com o isolamento social, as pessoas passaram a sentir muito forte a necessidade de ter as coisas organizadas dentro de casa. Antes, elas entravam e saiam, os dias passavam, a bagunça dormia e acordava ali, e tudo bem. Agora, não. Passou a existir a necessidade de viver melhor, de aproveitar cada cantinho da casa com o que realmente é importante para se ter dentro de casa. Então, a demanda de trabalho tem sido bem maior.
Alguém já te pediu socorro por não conseguir mais habitar o que ele considerava um caos doméstico?
Muito interessante a pergunta. Já atendi situações em que as pessoas me ligaram pedindo socorro, sim.
Uma empresária com duas filhas iniciou uma reforma no apartamento que levou muito mais tempo do que o previsto, e isto fez com que ela perdesse totalmente o controle da casa. Não sabia mais o que tinha, se as roupas das crianças ainda serviam, alimentos vencidos nas prateleiras, enfim, existia um caos naquela residência.
Outra situação em que fui chamada, foi a de uma idosa que estava de mudança e não aguentava mais desembalar e lavar os copos. Ela tinha um grande acervo e estava sozinha para organizar tudo. Foi um trabalho que precisamos de 10 dias para finalizar.
Foto: Divulgação/NDPode-se dizer que teu atendimento chega a ser terapêutico?
Não diria terapêutico, porque não tenho formação técnica para isso, mas posso dizer que meu trabalho de organização física conduz as pessoas para um estado de equilíbrio, harmonia e paz interior. Organizar a casa é organizar seu ninho para poder executar as tarefas externas de forma tranquila.
Como lidar com o desapego em uma situação de luto, separação ou mesmo de lembranças afetivas?
Em situações de grande envolvimento emocional, o desapego material precisa ser tratado com muita empatia, respeito e paciência. Nada pode ser feito enquanto não houver aceitação por parte do responsável pelos pertences. É preciso criar uma relação de confiança, e isso pode levar dias para acontecer.
Quem é mais reticente a mudanças e quem consegue se adaptar melhor às novidades: crianças, jovens, adultos ou idosos?
Atendo famílias inteiras, e a resistência não está relacionada à idade, mas, sim, à falta de aceitação de um novo hábito. Sim, porque a organização é mais um dos bons hábitos que podemos inserir na nossa vida. E, para isso, precisa ser executado repetidamente. É como não jogar lixo no chão. Criar um lugar para guardar cada coisa e colocar etiquetas de identificação são as principais estratégias para dar início.
Foto: Darline Santos/Divulgação/NDUma dica para quem quer organizar a casa.
Uma casa é muito grande. Minha sugestão é começar por uma gaveta. Organize por partes. Nunca tire tudo de dentro do armário de uma só vez. Uma prateleira de cada vez. À medida em que você vai concluindo, vai gerando motivação para continuar.
Existe uma sequência de prioridades ou tudo é planejado ao mesmo tempo?
Quando as pessoas me chamam, eu pergunto o que está lhe incomodando mais. Normalmente, será o ambiente mais demorado, aquele que as pessoas têm muitos apegos. Então, é o momento de se criar uma relação de confiança para prosseguir.
Foto: Divulgação/NDComo organizar as coisas de casa quando se muda de endereço?
O planejamento antes da mudança é o ponto alto. É preciso fazer uma lista de tarefas a serem executadas. Fazer uma boa triagem para separar o que realmente funciona, o que você usa e o que é importante ir para a casa nova. Separe e descarte tudo o que você não usa há muito tempo, está quebrado, rasgado, danificado… velho. Venda, doe ou simplesmente jogue no lixo.
Na tua casa, todos seguem a organização que fizeste? Alguém organizou algum canto à sua própria maneira?
A casa precisa ter um gestor(a), um comando, alguém que direcione como devem ser as coisas. Não só com relação aos lugares para os objetos, mas com relação às compras, às manutenções, enfim, sobre tudo o que diz respeito à funcionalidade da casa. Meus filhos [Laura, 20 anos, e Davi, 15 anos] já são adultos. Eu os ensinei ainda crianças, e hoje dou mais liberdade para organizarem seus espaços. Mas eles aprenderam direitinho, são ótimos auxiliares.
Foto: Darline Santos/Divulgação/ND