O amor e as emoções não são nossos inimigos

Com os novos formatos de relações se apresentando a cada dia, saber acolher e entender os nossos sentimentos é fundamental na jornada afetiva

Foto de Grazi Guimarães

Grazi Guimarães Itajaí

Receba as principais notícias no WhatsApp

O Dia dos Namorados, comemorado no próximo domingo (12), é protagonizado por casais apaixonados, inúmeras declarações na internet, muitos corações vermelhos em vitrines e tudo mais que o amor e o romantismo pedem.

Apesar de a data homenagear um status específico de relacionamento, muitas relações – na contramão dos rótulos pré-estabelecidos- existem em diferentes formatos. Nesse contexto, o amor se faz presente em relacionamentos não padronizados e isso pode abrir espaço para emoções conflitantes, mal digeridas e muita mágoa.

Acolher e expor nossas emoções de forma assertiva e com sinceridade é primordial para relações mais saudáveis e equilibradas – Foto: Arquivo pessoal Jaciara Bittencourt Nass/ReproduçãoAcolher e expor nossas emoções de forma assertiva e com sinceridade é primordial para relações mais saudáveis e equilibradas – Foto: Arquivo pessoal Jaciara Bittencourt Nass/Reprodução

Diante disso, ser sincero sobre os sentimentos vai além do que é discutido na internet sobre responsabilidade afetiva. Tem a ver com não apenas impor as próprias vontades, condições, medos e bloqueios emocionais ao outro. É uma via de mão dupla equilibrada entre os envolvidos.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Para ter experiências amorosas transparentes é preciso romper com a máxima de que mulheres são sempre dramáticas e sentimentais demais, enquanto homens são apenas racionais e frios. O comprometimento com a exposição sincera dos sentimentos, das vontades e dos desconfortos deve acontecer de forma igualitária e sincera.

A psicóloga Jaciara Bittencourt Nass explica que é fundamental mostrar nossas emoções, mas, principalmente, entender que os sentimentos não são nossos inimigos. É preciso acolher, entender e saber como administrá-los.

“Não precisamos evitar as nossas emoções ou enxergá-las como inimigas. Todas elas têm a função de nos sinalizar algo”, destaca. Jaciara diz ainda que as emoções atuam como uma espécie de termômetro que mede o que está ou não dando certo nas relações.

Jaciara é psicóloga e explica a importância de acolher e administrar as emoções – Foto: Arquivo pessoal Jaciara Bittencourt Nass/ReproduçãoJaciara é psicóloga e explica a importância de acolher e administrar as emoções – Foto: Arquivo pessoal Jaciara Bittencourt Nass/Reprodução

“Dentro de um relacionamento, quando nosso parceiro ou parceira tem alguma atitude que nos desrespeita, provavelmente sentiremos raiva. Essa emoção veio à tona para nos avisar que algo não está certo, que fomos desrespeitadas. Infelizmente, nesse momento, grande parte das pessoas ‘age pela emoção’, e acabam gritando, xingando, se descontrolando frente à situação. E para agir mais assertivamente é necessário acolher a emoção, entender o que está sentindo e o que a desencadeou”, salienta.

Lições sobre o amor com Bell Hooks

No livro “Tudo sobre o amor: novas perspectivas”, a historiadora e escritora Bell Hooks apresenta lições nada óbvias sobre o amor. A primeira, e talvez mais importante delas, é a de que o amor, apesar de ser um substantivo, é uma ação.

“Nós não temos que amar, nós decidimos amar” – Bell Hooks.

A decisão de amar alguém genuinamente precisa ser um acordo com atitudes e princípios firmados entre todas as partes. Segundo Hooks, sinceridade e cuidado são obrigatórios, já negligência e violência não podem coexistir.

Isso de imediato parece óbvio. Como dizer que alguém que me negligencia ou violenta me ama? Mas em muitas relações a falta de respeito, de espaço para se expressar, além da agressão psicológica, acabam lidas como característica de personalidade, quando na verdade são microviolências. É aí que mora o perigo.

No caso das mulheres, mais vulneráveis às violências de gênero, expor e fazer valer seus sentimentos é fundamental. “Sempre que a mulher perceber que seus direitos, valores e sentimentos estão sendo violados, desrespeitados ou ameaçados, ela deve falar! É importante identificar o que está acontecendo para agir de forma assertiva”, destaca Jaciara.

A psicóloga reforça que agir de forma assertiva não garante que todos os problemas serão resolvidos, mas pode ser o passo inicial.

“Nós somos responsáveis e podemos gerenciar os nossos comportamentos, mas não podemos controlar o comportamento dos outros. Então, sendo ouvida ou não, faça a sua parte e fale”, reforça.

Não se anula, não

Você já deve ter ouvido inúmeras regras, dicas e sugestões de como se ter uma relação saudável e equilibrada. Reservar um tempo para você mesma, fazer planos, traçar objetivos pessoais… Mas a mais importante de todas é: nunca se anule ou assuma uma personalidade que não é sua em nome de um relacionamento.

Há pessoas que vão se identificar com as relações abertas, outras com o poliamor, e aquelas que serão eternamente adeptas da monogamia. Todas têm potencial para serem felizes, menos as que insistem em caber em uma caixa que não as comporta.

“Muitas mulheres quando entram em um relacionamento assumem uma nova identidade, anulam quem são de verdade e passam a se identificar somente como ‘a namorada do x’ ou ‘a esposa do y. Quando a mulher se relaciona, mas mantém seu próprio espaço, sai com as amigas, faz suas atividades e tira um tempo só para si, ela preserva a propriedade das suas individualidades e nunca se torna a extensão de outra pessoa”.