‘O instinto maternal foi colocado em xeque’: mulheres que não querem ser mães

Mulheres precisam conciliar o desejo de não ser mãe com as pressões externas por uma maternidade romantizada

Erika Artmann Florianópolis

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A maternidade é uma função historicamente delegada às mulheres. Em alguns discursos, ser mãe é visto como condição para estar completa no gênero. Claro, a percepção é limitada na medida que desconsidera o universo feminino que não tem a gestação nos planos.

mulheres e maternidadeMaternidade não está no plano de algumas mulheres; elas têm outros objetivos – Foto: Priscilla Du Preez/ Unsplash/ Divulgação/ ND

A romantização da maternidade é algo que chega a todas as mulheres, queiram elas ou não exercer a função. A psicóloga e terapeuta Nuamã Santos lembra que a idealização cria descrições fantasiosas sobre a realidade enfrentada por quem aceita o desafio de educar uma criança.

“Ser mãe é um processo único que cada mulher irá vivenciar – se escolher isso de forma única e individual – mas certamente trará sentimentos de culpa, cansaço, frustração, medos e muita dificuldade inclusive para ter espaço de fala”, enfatiza a psicóloga.

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Entendendo a maternidade como um processo de responsabilidades e doação ao outro, que precisa ser amado e educado, mulheres de várias idades acolhem o direito de não ser mãe. Algumas, sem pestanejar sobre os sentimentos, contam que filhos nunca estiveram nos planos.

Outros planos para o futuro

Este é o caso de Daiane*, 23 anos, que é estudante na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Ela nunca se relacionou romanticamente com alguém, mas já sabe que não quer ter filhos. Agora, seus objetivos são conquistar a independência financeira, viajar e morar no Rio de Janeiro.

Sendo observadora, a jovem começou a perceber a romantização dentro da própria família. Ao mesmo tempo passou a questioná-la e também a perguntar a si mesma se tinha estrutura emocional para educar outro ser humano. “É preciso ter maturidade para conseguir lidar com filhos e vejo pelos meus pais que, em algumas situação, não têm”.

“Acham que é só uma fase”

Duas reações são comuns quando as mulheres contam que não querem ser mães. Uma delas é o questionamento da decisão, sem conseguir entender o desejo feminino de não encarar a maternidade. A segunda é afirmar categoricamente que aquilo é uma fase e, cedo ou tarde, vai passar.

Essa experiência foi relatada por Rafaela*, estudante de administração que, aos 20 anos, esta certa do que quer: não ser mãe. “Não lembro de brincar com boneca e sonhar ter um filho e, quanto mais velha, mais claro isso ficou de que eu não tenho vontade”. Ainda jovem, quando conta sobre a decisão é questionada. “Não levam a sério, acham que é só uma fase”.

São fases que duram, muitas vezes, uma vida inteira. Aos 30 anos, Lucia* é professora de matemática para alunos do ensino fundamental. Além de não querer ter filhos, ela conta conhecer outras mulheres que nunca foram mães. “Tenho uma tia de 50 anos que não é e nunca teve essa vontade”, enfatiza.

Crianças sempre estiveram na rotina de Lucia*. Cresceu vendo sua mãe cuidar de algumas, de diversas faixas etárias. Também morou com uma prima mais nova e convive frequentemente com duas outras desde os primeiros meses de vida. Além disso, segue a carreira de professora.

“Minha mãe sempre compreendeu muito bem. Com o meu namorado, com quem estou há 8 anos, já tive algumas discussões sobre maternidade porque acho que não vai mudar. Mas a maioria das pessoas tem uma extrema dificuldade de entender que uma mulher não quer ser mãe”, conta sobre a percepção alheia quanto a sua decisão.

Instinto maternal em xeque

A psicóloga Nuamã Santos explica: “Com as reivindicações do Movimento Feminista, especialmente a partir do do século XX, as mulheres obtiveram inúmeras conquistas, que mesmo não resolvendo a desigualdade entre os sexos, diminuíram significativamente as diferenças”.

A partir dessas mudanças as mulheres conquistaram mais espaço no mercado de trabalho e uma liberdade maior para definir suas ambições para o futuro. “A teoria do instinto maternal foi colocada em xeque”, conta Nuamã. As mulheres passaram a decidir se queriam ou não ter filhos, além de quando as crianças poderiam vir ao mundo.

Parte disso se deve, inclusive, a criação dos métodos contraceptivos. Camisinha, anticoncepcional, DIU e outros previnem com algum grau de segurança a ocorrência de gravidez indesejada. Suportes psicológicos e educação sexual também são ferramentas importantes.

Maternidade é um processo que exige responsabilidades. Nela é preciso estabelecer formas para a educação dos filhos e se encarregar de ensinar sobre liberdade, responsabilidade e seus limites. Lucia*, Daiane* e Rafaela*, mulheres que não querem ser mães e tiveram seus nomes trocados para preservar a identidade, concordam neste ponto.

Nuamã Santos reforça: entre essas responsabilidades está a construção de uma estrutura emocional para a criação. Entender os limites é o primeiro grande passo para criar ou não uma criança e poder oferecer os suportes para que elas sejam inseridas na sociedade.

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