É senso comum que as estratégias para preservar o meio ambiente são a nova tendência da construção civil. Com o aumento do efeito estufa, a preocupação com a natureza é cada vez mais urgente.
Hoje, é inviável executar uma obra sem planejamento adequado do descarte de resíduos e da emissão de gases poluentes. As constatações acima são do biólogo, mestre em engenharia de gestão ambiental pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), diretor da Ambiens Sustentabilidade Integrada e diretor de Meio Ambiente do Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil) de Florianópolis, Emerilson Gil Emerim.
Atuando há mais de 20 anos no segmento, com foco especial na área ambiental, Emerim também já integrou o conselho consultivo do FloripAmanhã. Na condição de consultor pauta suas ações na determinação em contribuir positivamente nas questões ligadas à sustentabilidade econômica, social e ambiental.
Em relação à construção civil, sugere que esses princípios podem ser aplicados em projetos arquitetônicos e de engenharia que utilizem materiais renováveis e reciclados, uso inteligente das condições naturais (topografia, luz solar, sombra, vento, etc), preservação da vegetação, etc.
Sua empresa é uma das líderes na área de tecnologia e consultoria ambiental no Brasil, especializada no desenvolvimento de projetos na área de engenharia e consultoria ambiental para os mais diversos segmentos do setor público e privado.
Na entrevista a seguir, ele destaca os paradoxos que Florianópolis vive em relação à sustentabilidade e discorre em especial sobre o principal desafio das cidades brasileiras até 2030,que é o pacto pelo saneamento.
EMERILSON GIL EMERIM – biólogo, mestre em engenharia de gestão ambiental pela UFSC de Florianópolis – Foto: ARQUIVO PESSOAL/NDQuando falamos de sustentabilidade, logo pensamos em preservação ambiental. Mas, além desse ponto, a sustentabilidade também consiste nos fatores sociais, econômicos, culturais, etc. Qual a importância de uma cidade englobar todos esses aspectos e como ser 100% sustentável?
A sustentabilidade vai trabalharem três eixos, que são os eixos hoje definidos nos conceitos de ESG – sigla em inglês de Environmental, Social and Governance -,que significa em português Meio Ambiente, Social e Governança. O primeiro é o ambiental, que remete às questões dos serviços ecossistêmicos, os serviços que a natureza nos dá ou que os recursos naturais nos dão.
O segundo ponto é o pilar socioeconômico. Esse pilar é o que nos dá solução. É o que vai nos dar cultura, geração de emprego, renda, lazer, moradia. Tudo isso é gerado pelas atividades humanas. E por último a governança, que é como a gente lida nas questões de trabalho.
Para a cidade, falando de sustentabilidade, a gente vai praticamente navegar nesses dois pilares: o ambiental e o socioeconômico. Então, a sustentabilidade preconiza o bem-estar humano. O novo ambientalismo hoje define o bem-estar humano como nosso objetivo principal, e quando falo de bem-estar humano, estou falando da geração atual e das futuras.
Hoje, esse bem-estar é embasado por dois pilares: os serviços ecossistêmicos – clima, a biodiversidade, o solo, o ar que a gente respira e a água que a gente bebe – e do outro lado os serviços socioeconômicos – geração de emprego e renda, cultura, educação, lazer, saúde, economia, geração de emprego, moradia. E isso vem muito a calhar.
Porque sempre digo, por exemplo: você pega os povos da Amazônia, eles têm uma qualidade de vida extremamente baixa. Porquê? Poxa, se fosse só pelos serviços ecossistêmicos, a gente talvez estivesse ainda na época das cavernas. Então, o homem evoluiu, criou todo esse conceito antropocêntrico e a partir daí, a gente gerou um bem-estar. Tanto que vivemos melhor do que gerações passadas.
Visando o futuro, quais são as principais tecnologias que já auxiliam e devem contribuir ainda mais para a sustentabilidade nas próximas décadas?
O que tem que deixar claro é que a gente vive hoje numa cidade de70 – 30. Florianópolis tem 70% de áreas protegidas ambientalmente e 30% com áreas passíveis de desenvolvimento urbano. Quando falei de serviços ecossistêmicos e serviços socioeconômicos os 70%são dos ecossistemas naturais, e os 30% que sobraram vão nos dar os serviços socioeconômicos.
Então, a nossa cidade do ponto de vista dessa balança, ela já está para o futuro. Uma cidade que tem70% de áreas protegidas já está se preparando para o futuro. As outras questões estão voltadas para a sustentabilidade, muito voltadas para a mobilidade urbana. Então, esse hoje é o grande pilar da sustentabilidade, a gente conseguir se locomover gerando o mínimo de impacto possível… gases do efeito estufa, ilhas de calor, poluição.
Também é questão do trânsito em si, do tempo que perdemos nos engarrafamentos. Tudo isso corrobora para a degradação da qualidade de vida. Então, vejo como planos para o futuro a mobilidade urbana e, principalmente, garantir emprego e renda para as gerações futuras, baseado no que a gente já tem em Florianópolis, que são as tecnologias limpas.
Somos uma cidade destaque na área. E tecnologia é um segmento de baixo impacto ambiental. Estes são pontos que eu elencaria: de mobilidade, geração de emprego e renda e aparte cultural também que a choque é a principal mazela da nossa cidade, o incentivo à cultura.
Florianópolis pode ser considerada uma cidade sustentável? Onde é mais necessário avançar?
A gente pode considerar Florianópolis uma cidade parcialmente sustentável. E a sustentabilidade que ela ainda precisa alcançar não é a ambiental, não é a ecológica, é a sustentabilidade socioeconômica. Temos uma cidade que não dá oportunidades. Quer dar oportunidades, faça com que as pessoas possam morar na sua cidade e não dê a elas só os empregos considerados secundários.
Eles vêm de cidades satélites, ou seja, uma empregada doméstica, um zelador, essas pessoas estão fora de Florianópolis, morando na Palhoça, em São José ou em áreas de ocupação irregular.
Isso causa problemas de mobilidade, de saúde. E o principal ponto para tornar nossa cidade sustentável chama-se saneamento. E quando falo de saneamento é esgoto, é controle da geração de resíduos. A gente ainda está muito aquém de uma cidade que quer se tornar sustentável do ponto de vista de saneamento.
Para o futuro, a principal mudança está na criação de políticas favoráveis ou em mudanças de hábitos e mentalidade da população?
Bem, a gente tem um grande produto que é o marco do saneamento, já tem uma norma legal. O governo, digamos assim, fez aparte dele. Cabe agora aos governos implantarem e a sociedade civil exigir que seja cumprida alei. Os nossos representantes de classe têm que pedir que ela seja seguida.
A lei foi aprovada. Agora é hora de exigir, de mudar nossa mentalidade. Exatamente por isso que acho que o principal desafio da sustentabilidade é a gente cumprir e fazer cumprir o marco, para que as pessoas não transfiram a responsabilidade somente aos governantes.
Não podemos ser o ambientalista de rede social, aquele cara que é um militante ecológico na rede social mas não sabe e não quer saber pra onde vai o seu esgoto, não sabe nem regulariza a sua casa. É aquele cidadão que comete pequenas irregularidades urbanas e quer que o governo seja sério na fiscalização dessas irregularidades.
Nas últimas décadas, os impactos negativos da influência humana no meio ambiente cresceram. Como reverter esse cenário?
Eu acho que a questão principal ainda permanece nos pequenos hábitos diários. Sempre faço uma diferenciação entre o conscientizado e o sensibilizado. Nessa questão o cidadão está conscientizado, mas não está sensibilizado. Vou fazer uma analogia como fumo, o tabagismo.
Todas as pessoas sabem que fumar é prejudicial à saúde. Então, hoje não é que nem na década de 70, em que o teu ídolo era o cara fumando Marlboro. Hoje, você sabe e todo mundo sabe que fumar faz mal. Só que conscientizado é uma coisa e sensibilizado é a outra. E mudar a escala de consumo e várias outras situações com pequenos gestos pode melhorar o planeta.
Resumindo: vejo que essa questão do envolvimento das pessoas ainda é muito superficial. Ela não está internalizada. Falta esta consciência de que cada um tem que fazer a sua parte para a melhoria da qualidade ambiental.