Por que nem todas as mulheres terão orgasmo da maneira ‘tradicional’?

De maneira geral, o que as meninas e mulheres aprendem sobre sexualidade?

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Carolina Freitas Brasília

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Em tempos de autonomia sexual feminina, o que acontece que mulheres ainda sofrem com a pressão de ter orgasmo com a penetração? Não conseguir chegar ao orgasmo apenas com a penetração é o relato que me chega nos atendimentos clínicos em terapia da sexualidade e através da plataforma Sexo sem Dúvida de grande parcela de mulheres em relacionamentos heterossexuais. Em muitos casos, elas e os parceiros já conversaram sobre, já tentaram diferentes posições e nada de conseguir.

E minha pergunta é: você não sente orgasmo na penetração ou não sente orgasmo? Importante diferenciar, já que a ausência de orgasmo é uma das queixas mais comuns em se tratando de disfunção sexual feminina. E não ter prazer no sexo com a penetração é outra reflexão, vamos juntas.

Não conseguir chegar ao orgasmo apenas com a penetração é o relato de grande parcela de mulheres em relacionamentos heterossexuais. – Foto: Pexels / Divulgação NDNão conseguir chegar ao orgasmo apenas com a penetração é o relato de grande parcela de mulheres em relacionamentos heterossexuais. – Foto: Pexels / Divulgação ND

Antes vamos diferenciar o orgasmo do prazer. Primeiro você sente vontade e/ou se excita através de estímulos sexuais adequados para você. Depois você vai tendo prazer no envolvimento, na conexão com o despertar dos estímulos e daí vem o orgasmo, uma sensação plena de muito prazer sentida física e emocionalmente.

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E, como sexo é sexo, na verdade não importa de onde vem seu prazer. Se por estimulação clitoriana, se por sexo oral, se por sexo anal, se com a penetração. Sexo é para ser prazeroso, independe da forma praticada. Importante é que o prazer seja de corpo inteiro, vindo de todos os nossos sentidos.

Então, como ter prazer com penetração em mundo falocêntrico? De forma bem simples, o falocentrismo é um forma de ideias e crenças que defende a lógica do patriarcado. Nele, há a assimetria entre homens e mulheres, na qual o masculino é a referência, a virilidade. Ou seja, o pênis (o masculino) é supervalorizado.

Com isso, o pênis e a sexualidade masculina ficam em primeiro plano. Que fique claro, para ser sexo não precisa de penetração. E aquele sexo vuco-vuco (penetração constante e repetida apenas), representado inclusive nos filmes pornográficos, provavelmente não é mesmo o que vai te dar prazer, já que não tem envolvimento nem estimulação adequada.

Então, repetindo o óbvio: sexo não se resume à ereção e penetração. Além disso, chegar ao orgasmo apenas pela penetração não é a realidade para a maioria das mulheres, e tudo bem. É preciso conhecer a sexualidade feminina, a vulva, o clitóris.

Orgasmo pela penetração não é o único caminho

Importante salientar que a mulher que têm orgasmo com a penetração, de alguma maneira tiveram o clitóris bem estimulado, na parte interna ou externa. O clitóris não é apenas aquele montinho evidente na vulva, tem, por exemplo, os bulbos que são estimulados internamente na penetração. Além da estimulação direta no clitóris, temos todo um corpo que pode – e deve – ser estimulado, bem como o contato com a pele associado a sua imaginação.

A maneira como você vai ter prazer pode ser muito individual. Com ou sem penetração, por exemplo. O orgasmo com penetração seria o mais completo? Esta crença ainda nos persegue forte. Por isso, a educação para a sexualidade é importante. A compreensão da anatomia também é. É necessário desmistificar o prazer feminino.

E, por falar em educação para a sexualidade, de maneira geral, o que as meninas e mulheres aprendem sobre sexualidade: que importante é dar prazer para o homem (heteronormatividade presente), que sexo é apenas para eles (infelizmente já ouvi esse relato inúmeras vezes reforçados por profissionais da saúde), que a dor sexual na mulher é normal (profissionais da ginecologia ajudem a não mais propagar essa deseducação sexual), que se tocar é feio (“tira a mão daí, menina”), que se ver nua é feio, que sua vulva é feia. É preciso repensar a educação sexual das meninas, é preciso falar sobre corpo, autonomia, conhecimento, prazer, consentimento, equidade.

Quer tentar o prazer com a penetração? Você já se estimulou estando penetrada? Desperte seu corpo de outras formas, aumente o estímulo no clitóris, se masturbe durante a penetração. O importante é você saber como seu corpo e seu prazer funcionam, inclusive para compreender que dificilmente não houveram outros estímulos antes da penetração ou até mesmo concomitante a ela. Cada corpo é único. Seu prazer é único, independente de onde ele venha. Cuidado para que esta preocupação e o excesso de busca não afete a qualidade do seu relacionamento e do sexo. No mais, delicie-se!

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