‘Homem de duas mulheres’: psicanalistas de SC explicam comportamento de quem mantém vida dupla

Segundo os psicanalistas, falta de maturidade do ego e dificuldade de lidar com frustrações na relação são algumas das razões que levam pessoas a manter relacionamentos formais com mais de uma pessoa

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Lídia Gabriella Florianópolis

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Quem vive uma relação monogâmica presume um acordo de lealdade e fidelidade a ser cumprido. No entanto, não é raro quando um dos lados, ou dos dois, quebram o combinado. Mas e se você descobrisse que o seu companheiro ou companheira tem um compromisso amoroso também outra pessoa? Três psicanalistas explicam o comportamento por trás de pessoas que mantêm vidas duplas.

A experiência de passar por situações assim corroem a alma e quebra a confiança de qualquer um – Foto: Freepik/NDA experiência de passar por situações assim corroem a alma e quebra a confiança de qualquer um – Foto: Freepik/ND

Foi o que aconteceu com Carla*, uma catarinense de 24 anos. Ela descobriu que seu namorado mantinha um relacionamento sério com mais uma mulher em dezembro de 2022, no aniversário de seis meses de namoro.

Na data, Carla decidiu tornar público o seu perfil do Instagram, rede social repleta de fotos do então casal. Duas horas depois recebeu uma mensagem que mudou o rumo do relacionamento.

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“Oi, eu sou a namorada do fulano e estamos juntos há 5 anos”, disse a outra namorada por mensagem. As duas, então, começaram a conversar, entenderam o que estava acontecendo e tramaram um plano contra o traidor. Ambas seguiram seus relacionamentos com o homem, mas passaram a dar indícios que sabiam uma da outra. Ainda assim o homem não abriu a situação e preferiu manter as relações. Uma semana depois as duas terminaram com ele.

“Mesmo a gente jogando ‘vários verdes’, ele nunca afirmava nada. Pelo contrário, se dizia o mais fiel entre os homens”, comentou Carla. Confrontado pelas duas namoradas, ele negou a vida dupla e afirmou que tudo não passava  de ‘uma mentira sem cabimento’ e se disse ‘chateado’ com as duas namoradas pela descoberta. “Ele nos chamou de fofoqueiras e disse que não tinha coragem de terminar com as duas, então, nós terminamos”, complementou Carla.

Mas o que é a traição?

Segundo a psicanalista e terapeuta comportamental e sexual Cris Pereira, traição é um sinal de ausência de recursos para resolver seus problemas internos e/ou problemas na relação. Sendo assim, na maioria das vezes ocorre quando existe imaturidade para lidar com determinadas situações de conflito pessoal ou na relação.

Segundo o psicanalista e pesquisador nos assuntos de masculinidades Daniel Martins, que integra o NIGS (Núcleo de Identidade de Gênero e Subjetividades) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), há uma permissão velada aos homens para a traição que começa a ser construída ainda na infância, quando pais, familiares e sociedade impõem que o menino deve ser um “garanhão”.

“Sempre ouvimos o ditado ‘prendam as suas galinhas que o meu galo está solto’, bem como perguntas sobre as namoradinhas”, exemplifica Daniel, mostrando como tais comportamentos são naturalizados.

Negação da traição

Cris explica que quando alguns homens são descobertos é comum que sintam vergonha ou culpa por terem cometido a traição ou simplesmente por não terem conseguido manter o segredo, uma vez que o desejo era o de seguir com o comportamento negativo. “Ambos comportamentos desmascaram a imaturidade, o que aumenta a frustração”, explica a psicanalista.

Ela reforça que a negação é um mecanismo de defesa da nossa psique humana quando somos incapazes de suportar nossas próprias falhas ou  a realidade que se impõe. Sendo assim, quem trai pode estar negando para si mesmo por incapacidade de encarar a realidade.

Mente imatura

O psicanalista e terapeuta comportamental e sexual Leonardo Moraes explica que sob o ponto de vista psicanalítico, percebe-se nessas situações uma falta de maturidade do ego para controlar os impulsos sexuais.

Segundo o especialista, isso faz com que as pessoas esqueçam as consequências daquela ação, sendo tomadas apenas pela compensação do prazer (sexual, social, moral ou qualquer outro) daquela relação extraconjugal.

Já Daniel Martins observa que a ideia do homem leal pode ser fruto da imaginação feminina sustentada na socialização a qual mulheres são submetidas desde quando nascem, que é inversamente proporcional à maneira machista como os homens são criados. No entanto explica que, independentemente disso, “ninguém que se relacionar com alguém que mente e trai”, complementa.

“Muitos homens preferem satisfazer seus desejos mentindo e traindo ao invés de lidarem com o fato de que a vida pode ter frustações e que nos  relacionamentos isso não é diferente.

Colocar um ponto final?

Segundo o psicanalista Leonardo Moraes, quando a confiança é quebrada, geralmente a melhor saída é “partir para outra”, mas, claro, dependendo dos conceitos de relacionamento de cada individuo.

Mas, o fim não precisa ser o único caminho. uma vez que há alternativas como abrir a relação, por exemplo. No entanto, toda e qualquer decisão deve ser tomada de “forma autônoma e consciente”, destaca ele.

Encerrar ciclos, no contexto da Psicanálise, tem relação com a angústia da separação, explica Cris. “Tenho medo de ficar só, logo, postergo qualquer decisão que me faça imaginar que isso irá acontecer. Não conseguir se visualizar sozinho dificulta colocar o ponto final. Por isso, se faz tão necessário, como indivíduo, se fortalecer para lidar com as frustrações da vida e entender que nada é pra sempre.

*O nome da entrevistada foi trocado a pedido da mesma 

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