A cada Dia das Mães, além das demonstrações de carinho, vem sempre à tona, temas como os desafios da maternidade, como as mulheres lidam com as questões pessoais e profissionais, a rede de apoio e de que forma driblam as dificuldades para poder se dedicar, cada uma a seu modo, à arte de ser mãe e de amar os seus filhos. Quatro jovens mães revelam como conciliam a maternidade com os estudos, o trabalho e a vida atribulada em que este amor incondicional se sobressai.
Segundo Júlia, a parte mais difícil quando o filho Martín chegou foram os ‘pitacos’ alheios – Foto: Arquivo Pessoal/Julia Hoffman/ND“Ser mãe é abrir mão de muitas coisas”
“Acredito que, independentemente da idade, quando um filho nasce é natural abrir mão de muitas coisas. Eu tinha 27 anos quando meu filho nasceu, por isso não precisei abrir mão dos meus estudos, pois já estava formada. Mas renunciei à minha carreira, pois decidi ter mais tempo com ele”, afirma Júlia Domingues Hoffmann, de 32 anos, mãe de Martín Hoffmann Rubio, de 5.
Segundo Júlia, a parte mais difícil quando Martín chegou foram os ‘pitacos’ alheios de pessoas próximas, o que acabou refletindo como falta de apoio. “Quando entramos no puerpério, mergulhamos em um novo universo. São muitas as alterações hormonais e as dificuldades de entender o que significa aquele choro do bebê, como se faz para amamentá-lo e como lidar com o mundo que antes parecia ser mais tranquilo. Tudo passa a ser um grande desafio”, desabafa.
SeguirComo a maioria das mães solteiras, ela é bem realista e fala com bastante naturalidade a respeito da maternidade. Aprendeu na prática o que era “desromantizar” a maternidade e, por um tempo, tornou-se até crítica demais, o que acabou afastando-a de algumas pessoas. “Olhando pra trás, sei que tomei decisões que atualmente não tomaria, mas entendo que esses pequenos erros me levaram aonde estou hoje”, afirma.
“Dizem que a maternidade faz a gente florescer. Por um ângulo, acredito mesmo que sim, mas por outro penso o quão difícil foi parir e olhar para dentro e lidar com meus traumas da vida”
Ela conta que, quando a pandemia começou, a internet transformou-se em um grande portal de dicas do que fazer para entreter as crianças. Como Martín adorava biscoitos, começou a buscar receitas na internet, e os dois testaram diferentes massas. “Nós fomos assando e distribuindo para vizinhança com cartões fofos como ‘Vai ficar tudo bem’ e ‘Vai passar’”. Com o famoso boca a boca, a Julices Biscoiteria tornou-se um negócio rentável, e essa foi sua renda por quase dois anos.
Hoje, Júlia trabalha em outra empresa, que é flexível e adota o sistema híbrido. Então, consegue ainda ter tempo com Martín quando ele não está na escola. “Dizem que ser mãe é intuitivo, e isso foi a piada mais engraçada que já me contaram”, diz. Consciente de que precisava aprender sozinha sobre a maternidade, leu muitos livros, assistiu a vários documentários e fez terapia para se compreender. “Hoje olho para trás e sei que foi necessário abrir mão e pagar por esse preço alto, mas quando olho pro Martín sei que valeu a pena.”
Quando Júlia se tornou mãe, ela teve duas escolhas: criar o filho de qualquer jeito ou fazer isso bem feito. “Só eu poderia executar essas funções rotineiras de amamentar, dar banho, trocar falda, alimentar, então escolhi a opção de fazer isso com diversão e conversando muito com ele. Mesmo quando ele ainda não falava, eu sabia que entendia e que uma hora me responderia”, conta.
Ela pontua que criar um filho não é apenas viver em um mundo colorido: “Tem dias que é preto e branco, e estou exausta, tem dias que a palavra sai atravessada, mas sempre tento dar meu melhor. Afinal de contas, estou criando um ser humano para o mundo.”
Com o filho recém-nascido, Antônio, Talita comenta sobre os desafios dos 18 primeiros dias – Foto: Arquivo Pessoal/Talita Soares/NDO primeiro Dia das Mães
A arquiteta Talita Raymundo Soares, 27 anos, teve uma gravidez programada. Juntos há dez anos e casados há três anos e meio, ela e o marido, o assessor financeiro João Luiz De Paula Soares, sempre quiseram ter um filho. “Nos programamos para estar com tudo organizado, desde a parte financeira até a profissional, para ter nosso filho na hora certa”, conta.
Talita trabalha com projetos de consultoria de arquitetura de interiores junto com sua sócia, que faz toda a parte externa, desde o contato com o cliente até a visita às obras. “Faço todo meu trabalho de casa e consegui conciliar até a última semana da gravidez, antes do parto”, revela.
Com o filho recém-nascido, Antônio, Talita comenta sobre os desafios dos 18 primeiros dias. “A maternidade nos mostra que nosso limite físico vai muito além do que imaginávamos, mas nesse momento todo o meu foco é cuidar desse maior amor do mundo.”
Durante a gravidez, ela estudou muito, e em vários aspectos já se sentia preparada. Com isso, o impacto das transformações pós-nascimento não foi tão grande. Além do mais, Talita conta com o apoio dos pais e, principalmente, do marido. “Ele é um superpai, e como o parto foi por cesárea, eu e meu filho fomos totalmente amparados pelo meu marido, e nós dois juntos dividimos todas as funções”, revela.
“A maternidade nos mostra que nosso limite físico vai muito além do que imaginávamos. São muitas horas de privação de sono, de cansaço, mas nesse momento todo o meu foco é cuidar desse maior amor do mundo”
A mãe de Antônio questiona o fato de problematizarem a maternidade e revela que ter se dedicado à gestação fez com que seus medos e ansiedades diminuíssem. “Estou muito emocionada pelo meu primeiro Dia das Mães, e meu conselho para as outras mamães é não ter medo de se entregar ao maternar”, destaca Talita.
A publicitária Patrícia da Rocha Cirino, 28 anos, teve Esther aos 22 anos e nunca pôde contar com uma rede de apoio – Foto: Leo Munhoz/NDA importância de se cuidar e se conhecer
A publicitária Patrícia da Rocha Cirino, 28 anos, teve Esther aos 22 anos e nunca pôde contar com uma rede de apoio da família. O ex-marido e pai da menina, que hoje tem 6 anos, sempre foi muito parceiro e juntos eles compartilham a guarda da pequena.
Em 2015, quando engravidou, ela estava estudando e trabalhando. “Eu já tinha em meu projeto de vida ser mãe, queria, mas não naquele momento”, diz. Ela revela que saber da gravidez foi desesperador, pois estava trabalhando no varejo no segmento de moda, já tinha passado por diversos setores e estava pronta para ingressar na gerência da empresa. “Na época, foi muito ruim porque abordaram minha gestação como se eu não fosse dar conta do trabalho, o que fez com que me afastasse do varejo e migrasse para a área da publicidade.”
Em uma declaração bem honesta, ela afirma: “Ser mãe é um grande desafio porque, mesmo antes do nascimento do filho, a gente já tem uma expectativa sobre o que é ser mãe. Além disso, como eu era uma mãe jovem, tive que lidar com muitos julgamentos, passei por diversas situações constrangedoras, em que as pessoas me questionavam se eu era de fato uma boa mãe. Eu era testada o tempo todo, em vários ambientes”.
“Olhar para si mesma não quer dizer que você não está olhando para o seu filho, pois se a gente não se sentir bem emocionalmente, bonita e capaz, não será uma boa mãe”
Quando decidiu se separar do pai da Esther, Patrícia também foi questionada se daria conta do recado. “Tenho um trabalho intenso e dinâmico, e a rotina da mulher que trabalha fora e busca ascensão de carreira, crescimento e estabilidade financeira ainda não é vista como algo possível de conciliar com o ato de ser boa mãe”. Ela sempre batalhou para aliar a maternidade com a carreira profissional. “Eu nunca abandonei os meus amigos, as coisas que gosto de fazer. Eu apenas reduzi o ritmo, mas não os deixei, estou sempre a mil por hora, mas sempre dei conta de conciliar tudo”, pontua.
Para a publicitária, ser mãe em qualquer idade tem seus desafios, prós e contras. “Agora estou com a idade em que tinha idealizado um filho, contudo meu ritmo de trabalho atualmente é bem acelerado, e minha filha já tem 6 anos. Se eu tivesse tido ela agora, seria mais difícil, porque teria que parar tudo no auge do trabalho”, avalia.
Patrícia dá um conselho a todas as mães para elas nunca deixarem de se cuidar e de se conhecer. A pressão da sociedade nos leva a fazer o contrário, faz com tenhamos que cuidar apenas dos filhos e nos esquecer de nós mesmas.” E finaliza: “Você precisa estar em primeiro lugar sempre, para assim conseguir oferecer uma educação e um amor de qualidade para o seu filho”.
Isabella e o namorado, o estudante Ângelo, têm a mesma idade e moram na casa dos pais dela, pois ainda estão estudando – Foto: Arquivo Pessoal/Isabella Martignago Coral/NDMaternidade aos 20 conciliada com plano de cursar medicina
Isabella Martignago Coral tem 20 anos e sempre sonhou ser mãe de quatro filhos, mas não esperava que o primeiro viesse agora. Durante a pandemia, Isabella, como muitos estudantes, passou a ter aulas online de direito. Foi aí que começou a namorar o melhor amigo de Jorge, seu irmão mais novo, e acabou engravidando. “Eu sempre quis ser mãe, e ter ficado grávida foi a melhor coisa que me aconteceu, principalmente porque posso contar com minha mãe, que é juíza aposentada, e com meu pai, que é advogado”, diz.
Isabella e o namorado, o estudante Ângelo, têm a mesma idade e moram na casa dos pais dela, pois ainda estão estudando. Três meses após o nascimento do filho, ela percebeu que, mesmo estando na sétima fase de direito, não queria mais dar continuidade ao curso. “Prefiro colocar a mão na massa, achei o curso muito teórico, então decidi fazer medicina, como meus irmãos e meu namorado”, conta. A rotina do jovem casal se divide entre o filhote Filippo e o cursinho pré-vestibular, pois ambos querem cursar medicina. Enquanto estudam, os pais de Isabella tomam conta do menino.
“Fiquei bastante triste em perceber as pessoas tentando me jogar para baixo num momento em que estava muito feliz por gerar uma vida dentro mim”
“Sei que sou uma pessoa privilegiada por ter apoio da minha família e, por isso, posso continuar estudando, quando eu me formar Filippo já terá 6 anos”, prevê. Eles vão se casar no fim deste mês e a noiva está muito feliz por constituir sua própria família. “O Ângelo é superparceiro, me ajuda em todos os aspectos, desde a amamentação até a troca de fraldas. Nossas tarefas são bem divididas quando estamos com nosso filho.”
Mesmo com o apoio da família e com seu desejo genuíno de casar e de ter filhos, Isabella ouviu de várias pessoas que depois que Filippo nascesse ela deixaria de viver muitas coisas e que não teria tempo para mais nada. Mas conclui que não foram bem-sucedidos. “Estou muito feliz por ter tido meu filho e porque vou me casar, estou tendo a vida que sempre quis.”