Há oito meses, o Brasil perdia o maior pugilista de sua história e o mundo perdia um talento daqueles que não nascem com frequência em nenhum canto do planeta. A paixão pelo boxe – e pelo futebol também, é bem verdade – moveu o Galinho de Ouro durante 86 anos de vida e durante cada um deles, afinal, essa paixão já estava no sangue.
Se o ringue era sua paixão, o amor que sustentou o grande Eder Jofre por décadas foi Cidinha, sua companheira de vida que morreu em 2013, nove anos antes dele. Éder morreu no dia 2 de outubro de 2022, depois de uma vida histórica que começou no dia 26 de março de 1936, no Centro de São Paulo.
Eder Jofre, o “Galinho de Ouro”, é considerado o maior pugilista brasileiro de todos os tempos – Foto: Reprodução/YouTubeO currículo dentro do ringue traduz, ainda que com a frieza dos números, a imensidão do maior pugilista brasileiro que, por ironia, era “franzino”.
SeguirForam 81 lutas e 75 vitórias. Dessas, 52 por nocaute, quatro empates e apenas duas derrotas, sem que nenhuma delas fosse por nocaute, o que ele adorava fazer com seus adversários.
Tricampeão mundial de boxe, Jofre morreu de sepse urinária e insuficiência renal aguda, mas ele sofria de encefalopatia traumática crônica, diagnosticada em 2015, mas que só foi, de fato, confirmada, após sua morte.
Anos antes de sua morte, o pugilista concordou em doar seu cérebro para pesquisas e após exames realizados pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a ETC foi confirmada em grau 4, o maior que pode atingir. A ETC é uma doença degenerativa progressiva causada por traumas repetitivos na cabeça, como acontece com lutadores que levam socos repetidos na cabeça ao longo da carreira.
E no caso de Jofre, a carreira foi longa. Foram mais de duas décadas dedicadas ao boxe, 19 anos de carreira profissional que o transformaram em lenda. Uma lenda eternizada em dois templos do boxe.
Eder Jofre está no Hall da Fama de Canastota desde 1992, se unindo a nomes como Muhammad Ali.
Aos 85 anos, O Galinho de Ouro foi nomeado para o Hall da Fama da Costa Oeste dos Estados Unidos. Ele é o único brasileiro nomeado para os dois templos do boxe.
Eder Jofre tinha o boxe no DNA
A carreira de Eder Jofre teve como base uma paixão que já era tradição familiar. O argentino José Aristides Jofre e a brasileira Angelina Zumbano construíram a família que foi lar do maior pugilista brasileiro que praticamente nasceu no ringue. E não é exagero. Ele nasceu ao lado da academia de boxe da família, na Praça da Sé, no Centro de São Paulo. Antes dele, o pai e os tios maternos também desfilaram pelos ringues.
O nome do maior pugilista brasileiro também não foi escolhido ao acaso. Frank Eder foi um boxeador austríaco, mas também era o nome utilizado por um dos tios em lutas de rua e também para não ser preso durante o período de repressão da ditadura militar.
Acusado de ser comunista, Waldemar Zumbano usava o pseudônimo e quando o filho nasceu, José Aristides usou o nome “menos estranho” e batizou o filho de Eder.
“Carreira” começou aos 3 anos
Com o boxe no DNA familiar, já era de se esperar que a sementinha seria plantada desde cedo e foi realmente muito cedo. A primeira luta de Eder Jofre aconteceu quando ele tinha apenas 3 anos. Ele e a irmã, que tinha 5 anos, se enfrentaram para abrir uma competição.
Ao longo dos anos, o Galinho de Ouro foi o campeão ficou com o título de campeão mundial de 1960 a 1965, foi considerado o campeão mundial unificado entre a Associação Mundial de Boxe e a União Europeia de Boxe e foi campeão mundial da categoria peso-pena em 1973, além de ter no currículo os títulos Brasileiro de 1958, Sul-Americano de 1960 e Latino-Americano de 1956.
Mas, por pouco o Brasil não perdeu a chance de fazer história pelas mãos de Eder. O pugilista contou várias vezes que queria jogar futebol, mas que não teve apoio familiar, afinal, os Jofre eram forjados no ringue e ele pegou gosto pela tradição familiar. Além disso, ele chegou a entrar para a faculdade e Arquitetura, mas acabou voltando para o esporte.
Títulos, aposentadoria, retorno aos ringues e carta de despedida
A estreia de Jofre no boxe amador foi em março de 1953 e em nove meses conquistou sete títulos, entre eles, o campeonato do Sesi, seu primeiro, o bicampeonato paulista, bi brasileiro e a Taça Ramón Perdomo Platero, conquistada após quatro vitórias contra uruguaios.
O primeiro título mundial veio em 1960, em Los Angeles, quando o Galinho de Ouro nocauteou o mexicano Eloy Sanchez. Um ano depois, o início do casamento que seria seu alicerce durante toda a vida. No dia 21 de abril de 1961, Jofre e Cidinha oficializaram o casamento que duraria até a morte da companheira do pugilista, em 2013.
Em 1962, Jofre venceu o irlandês Johnny Caldwell em São Paulo. Com a vitória em sua terra natal, o Galinho de Ouro se tornou o maior lutador peso-galo do mundo unificando o título e sendo reconhecido pela União Europeia como campeão do mundo.
Eder Jofre venceu Johnny Caldwell e conquistou título mundial unificado – Foto: Arquivo Pessoal/DivulgaçãoA primeira derrota do maior pugilista brasileiro aconteceu apenas 12 anos após o início de sua carreira. Em 1965, ele foi derrotado pelo japonês Masahiko Fighting Harada, perdeu o título mundial e foi superado também na revanche.
Aos 30 anos, Jofre, que era vegetariano, pendurou as luvas porque tinha problemas para manter o peso. Mas, a aposentadoria não se sustentou por muito tempo. Três anos depois, Jofre voltou aos ringues devido às dificuldades financeiras e também pelo pedido de fãs e dos próprios filhos.
A mudança na volta aos ringues foi na categoria. De peso-galo, Jofre passou para o peso-pena e com o amigo de infância, maestro e agora empresário João Carlos Martins, o pugilista voltou com 14 vitórias consecutivas até o confronto contra o cubano José Legrá pelo cinturão da nova categoria. Em Brasília, no dia 5 de maio de 1973, o brasileiro venceu por pontos após 15 rounds de luta. Depois, foram outras 10 vitórias até que perdas pessoais o tirassem de cena aos poucos.
Primeiro, a morte do pai, incentivador, amigo e treinador. Depois, a morte do irmão. Aos 40 anos, Eder Jofre escreveu a “carta de despedida ao povo brasileiro” e se retirou definitivamente dos ringues no dia 24 de março de 1974.
Sintomas, a morte de Cidinha e a ETC
Eder Jofre e Cidinha foram casados por mais de meio século. Foram 52 anos de união até a morte da companheira, em 2013, o que piorou o quadro sintomático que o pugilista já desenvolvia. Em entrevista ao portal UOL, o genro de Jofre foi categórico. “A morte de Cidinha foi o nocaute que o Eder nunca tomou”.
Eder Jofre e Cidinha foram casados por mais de 50 anos – Foto: Arquivo Pessoal/DivulgaçãoAntes, o Galinho de Ouro já tinha sintomas como esquecimento, mas após a morte de Cidinha, em 2013, o quadro piorou e ele chegou a ser internado com depressão. Além disso, os esquecimentos intensificaram, além da agressividade e impulsividade. O diagnóstico não demorou, mas foi equivocado: Alzheimer.
No entanto, com a ajuda do médico Renato Anghinah, que diagnosticou a ETC em Eder e para quem o pugilista admitiu a doação de seu cérebro para pesquisas, o quadro foi revertido. Com o diagnóstico correto, Eder voltou a se alimentar e se antes definhava, até voltou a se exercitar. Em 2020, ele treinava na academia e corria pelas ruas do bairro do Campo Limpo, na zona Sul de São Paulo, onde viveu até morrer, em 2022.
Eder Jofre viveu uma vida dedicada, dedicada ao boxe e à família. Depois de conquistar o mundo, se despediu dele para se unir ao amor que compartilhou durante a maior parte da vida.