“É um sentimento de tristeza porque vemos isso na TV, com famosos e achamos que nunca vai acontecer diretamente com a gente e acontece. O tempo todo. Está por toda parte, mas não vamos nos calar nunca diante dessa situação. Espero que isso nunca mais aconteça comigo nem com ninguém. Vamos lutar para que não aconteça nem dentro, nem fora de quadra e campo. Não pode acontecer”.
O relato é duro. Aos 25 anos e com 16 anos de experiência no futebol feminino, a goleira Bianca Cristina Costa precisou lidar com o racismo no torneio que disputou e venceu no domingo (15), em Joinville, no Norte de Santa Catarina.
Bianca Cristina Costa é jogadora há 16 anos e foi vítima de racismo em torneio em Joinville – Foto: Jheff JL/DivulgaçãoCom a camisa do JEC Audax, Bianca foi campeã, levantou a taça, mas antes disso foi vítima de algo que nunca pensou que passaria. Enquanto a bola rolava dentro de campo, do lado de fora os xingamentos extrapolaram qualquer rivalidade e torcida.
SeguirDepois de falhar em um gol nas quartas de final, ela conta que a torcida até tentou desestabilizá-la com “mão de alface”, “chuta nela”, mas o que era rivalidade ultrapassou todos os limites.
“Me chamavam de preta gorda, mas eu não consegui identificar quem era porque estavam atrás do meu gol e tinha muita gente. Quando acabou o jogo, me posicionei, fui até a organização, eles me auxiliaram muito, chamamos a polícia, mas eles não vieram. Aí resolvi me posicionar nas minhas redes sociais, falar sobre isso, mas não para tirar proveito de ninguém, para que isso não aconteça, não podemos aceitar esse tipo de coisa de ninguém. Eu sempre vou me posicionar, se for comigo, com nossas atletas, de outros times, não importa. Isso não pode acontecer”, fala.
Bianca brilhou na final, defendeu dois pênaltis e garantiu o título do JEC Audax – Foto: Jheff JL/DivulgaçãoO caso de racismo aconteceu nas semifinais do Futshow, evento já tradicional do futebol feminino de Joinville. Na final, o JEC Audax venceu, com direito a cobrança de pênaltis e Bianca brilhando defendendo duas cobranças para garantir o título do time.
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“Eu acabei sofrendo uma falha nas quartas de final, falhei e a torcida, claro, começou a pegar no meu pé e tudo bem, é normal, eu até gosto de jogar contra a torcida, desde que seja com respeito. Mas a partir daí começaram os xingamentos. Nós chegamos à final, fiz duas defesas de pênalti e acabei dando o título para a equipe”, lembra.
Bianca conta que recebeu apoio da organização, do time, nas redes sociais e de pessoas que ela sequer conhecia. “Eu me senti muito abraçada por todo mundo, minha família, minha noiva, meu treinador, meu time, me sinto abençoada, sei que a galera ficou do meu lado. Agradeço todas as pessoas que compartilharam, pessoas que não me conhecem, pessoas da Itália vieram pra mim, repercutiu muito. Sou grata por saber que tem pessoas boas no mundo”, diz.
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No dia 5 de setembro, Bianca veste novamente a camisa tricolor para um torneio em Palhoça e garante que está ainda mais preparada. “Eu volto muito preparada, mais preparada que antes, estou muito confiante, tenho muita fé. Isso não vai me abalar, vou voltar a fazer o que eu gosto, isso só me motiva a ser melhor, a fazer o certo. Sei que estou no caminho certo, estou representando muitas pessoas”, salienta.
A goleira já recebeu o suporte jurídico do clube que estuda a melhor maneira de identificar os criminosos e entrar com medidas judiciais. Enquanto isso, Bianca agradece o apoio e reforça que continuará se posicionando. “A luta não para, eu resisto”, finaliza.
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