Calçadas com desnível, pisos muitas vezes inacessíveis para pessoas com alguma necessidade especial e postes fora de lugar. Definitivamente, caminhar pelo Centro de Florianópolis é um desafio.
Esses são alguns problemas que as pessoas que utilizam muletas, como eu, bengalas e cadeiras de rodas motorizadas, ou não, enfrentam todos os dias. Meu nome é Bruno Benetti, sou repórter no ND+ de Florianópolis e fui ver e vivenciar a acessibilidade em algumas ruas de Florianópolis de perto, e compartilho com os leitores o meu relato pessoal.
Calçadão na rua Conselheiro Mafra, no centro de Florianópolis, traz muitos obstáculos a quem passa pelo local – Foto: Reprodução/ NDLogo que cheguei ao Centro de Florianópolis, fui ao Ticen (Terminal Integrado do Centro), na região central. Observei os quatros terminais, para ver se encontrava alguma pessoa com cadeira de rodas elétrica, ou alguém com déficit de visão com o bastão para se guiar pelo piso tátil que há entre os terminais.
SeguirEncontrei o administrador João Felipe Fernandes de Souza, de 38 anos, que teve paralisia cerebral e utiliza cadeira motorizada para se locomover pela cidade. Ele citou as principais dificuldades que encontra pelas ruas da Capital.
“No Centro Histórico, na parte que é tombada, da Felipe Schmidt, da Deodoro… aquele miolo é todo torto. Os paralelepípedos só arrebentam com a nossa cadeira e estragam as coisas”, conta.
João sugere a solução: “Calçadão e piso mais usual”
“Poderiam fazer calçadão e colocar um piso que fosse mais usual, que as pessoas não corressem o risco de tropeçar, enfiar o pé e até quebrar a perna”, sugere João.
“O problema é que não fazem, parece que não querem que o deficiente saia de casa. No entanto, isso afeta todo mundo. Não é só quem tem deficiência, é quem tem mobilidade reduzida, quem é idoso, quem, por algum motivo, sofreu algum acidente”, diz.
João Felipe conta que trabalhou por sete anos como autônomo nas ruas e conhece bem aquele trajeto. “Já perdi as contas de quantas vezes tive de fazer manutenção na minha cadeira”, relembra.
Mudança de piso constante
Na rua Trajano, travessa com a Conselheiro Mafra, o piso muda completamente, onde deixa de ser paralelepípedo e passa a ser um piso mais plano, com algumas imperfeições e areia, porém sem tantos buracos.
Na mesma rua, mais para frente, o piso muda de novo e não apresenta um padrão. Mesmo atento, a impressão que me passou é que eu não sabia onde estava pisando, por causa das várias mudanças de piso.
Vídeo na rua Trajano, centro de Florianópolis, onde pisos se alteram – Vídeo: Arquivo Pessoal/Bruno Benetti/ND
Já na altura da Trajano com a Felipe Schmidt, acabei tropeçando, mesmo de muleta, devido às irregularidades do piso. Se não presto atenção, iria para o chão! A questão da acessibilidade é bem complicada nesse trecho.
Caminhando mais adiante, pude encontrar prédios mais antigos com degraus e nenhuma acessibilidade para quem precisa. No entanto, em outras lojas, havia uma rampa de acesso.
Pedras portuguesas com lajotas mais separadas no centro de Florianópolis são um perigo para quem usa muletas ou bengalas – Foto: Reprodução/ Bruno BenettiSaindo dali, caminhei em direção à Praça XV de Novembro. Havia diferença de três pisos: asfalto no meio e as calçadas com diferentes tipos de pisos.
Paralelepípedos de um lado, e do outro, piso feito com pedras menores separadas, chamadas de pedras portuguesas. Só que é algo perigoso para quem anda com dificuldade e utiliza bengalas ou mesmo de muletas.
Ao chegar na Praça XV, havia um rebaixamento irregular de calçadas e as pessoas precisam tomar muito cuidado para cruzar a rua, ou até mesmo andar pela calçada.
Ao chegar de frente à figueira histórica, não consegui acessá-la, pois havia degraus de uma escada no caminho. Quem anda de muletas ou bengala, precisa descer o entorno até um acesso que rodeia a Praça XV para, só então, poder entrar na praça.
Acesso à Praça XV de Novembro com escadas – Vídeo: Arquivo Pessoal/Bruno Benetti/ND
Foi nessa passagem entre a Praça XV, em direção à rua Saldanha Marinho, próxima ao terminal antigo de Florianópolis, onde mais uma vez quase caí, fruto da combinação desatenção e pisos irregularidades, dessa vez com raízes de árvores pelo chão.
Na rua Saldanha Marinho, me deparei novamente com paralelepípedos mais espaçados e tive bastante dificuldade de caminhar.
Depois de um tempo andando, cheguei ao Calçadão da João Pinto, onde havia um cenário completamente diferente, pois estavam reformando e colocando um piso mais plano para quem passa por ali.
Calçadão da João Pinto – Vídeo: Arquivo Pessoal/Bruno Benetti/ND
A rua mais perigosa do Centro
Foi na rua Conselheiro Mafra, onde senti mais medo de “parar no chão”, pois o piso não tem nada de acessível a quem precisa, sendo feito, em sua grande maioria, de paralelepípedos grandes e espaçados, o que dificultou a caminhada.
Rua Conselheiro Mafra com a Trajano no centro de Florianópolis – Vídeo: Arquivo Pessoal/Bruno Benetti/ND
Há também outro tipo de piso mais plano, porém, é apenas caminho até as lojas, no mais, são paralelepípedos. Alguns caminhos da calçada naquele trecho são ocupados por ambulantes que vendem de tudo, além de vários obstáculos fora das lojas como vasos, por exemplo.
Procurei andar devagar e também vi muitos postes fora de lugar, no meio da rua. Como fazem as pessoas com baixa visão que precisam se locomover por esse trecho e se deparam com esses postes, lixos nas ruas e outros lugares desnivelados e com tampas de esgoto e bueiros? Há muito para se desviar nos trajetos.
Percursos livres de obstáculos
A arquiteta, especialista em avaliações de acessibilidade e pisos táteis, Marta Dischinger, entende que as principais ruas do Centro de Florianópolis deveriam ter percursos livres de obstáculos na área urbana.
Além da falta de padrão nos pisos, com diversos tipos diferentes, ela aponta o comportamento de pessoas como um fator que atrapalha a acessibilidade, como lixos colocados nas ruas e cartazes em áreas de trânsito. “Faz com que seja pouco seguro”, diz.
A falta de continuidade nas leis também é outro fator determinante para a ausência de acessibilidade. O que causa desconforto em pessoas que precisam se locomover pela cidade é quando as calçadas têm inclinação maior do que deveriam, como no caso de locais mais íngremes com garagem que invadem o caminho dos pedestres.
Segundo Dischinger, um fator que ajudaria na acessibilidade seria “pensar em rotas alternativas nas ruas principais sem obstáculos”.
Outro aspecto importante seria seguir a norma NBR 90/50, que segundo a arquiteta, garante segurança e conforto aos pedestres. No entanto, ela ressalta que muitas vezes não há como seguir, por conta das calçadas históricas que são mais estreitas.
Características do piso
Para Marta Dischinger, as características do tipo de piso ideal seriam antiderrapantes, uniformes e também e menos brilhantes, já que que podem causar ofuscamento em quem tem baixa visão, por exemplo.
Já o vice-presidente da Aflodef (Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos) Anselmo Alves, critica a acessibilidade em Florianópolis.
“A falta de padronização nas ruas nas calçadas, Florianópolis em termos de acessibilidade a pessoas com deficiência é muito ruim, deixa muito a desejar, apesar de já termos algumas rotas acessíveis na cidade”, afirma.
Lugares inacessíveis no Centro
Para Marta Dischinger, as características do tipo de piso ideal seriam antiderrapantes, uniformes e também e menos brilhantes – Foto: Leo Munhoz/NDAnselmo Alves, que tem deficiência nos braços e pernas e faz uso de prótese nas pernas, diz que há lugares de difícil acesso na cidade. Para ele, isso acaba dificultando o acesso de ir e vir as pessoas com deficiência.
“Tem alguns lugares que para mim são inacessíveis”, segundo Alves, a rua Conselheiro Mafra, no Centro, por exemplo, “é realmente muito difícil andar, mas a dificuldade maior para mim é andar nas calçadas são desniveladas, não seguem um padrão”.
O que diz a prefeitura?
Rafael Coimbra, que atua na assessoria de políticas públicas para pessoas com deficiência desde 2023, no gabinete do prefeito Topázio Neto, na prefeitura de Florianópolis, disse que a cidade vem passando por revitalizações no Centro desde o início deste ano e têm prazo para finalização das obras até o final deste ano.
“Existe a questão da lei de proteção histórica, que é um empecilho”, ele destaca que “toda obra é para dar acessibilidade dentro das normas estabelecidas”. A APC (Área de Proteção Cultural) é definida no próprio Plano Diretor Municipal.
Pai de um cadeirante, Coimbra também passa pelas mesmas dificuldades de locomoção. Segundo ele, as obras buscam “dar acessibilidade para a região, seja com sinalização, pisos, ou mesmo aumento de calçadas”.
As revitalizações visam não afetar a questão histórica para que todos consigam ter acesso. No caso de regiões tombadas, como o Calçadão da João Pinto, por exemplo, segundo o assessor, a tentativa é de “deixar o local o mais acessível possível”.
Ainda conforme ele, há pisos sendo padronizados e rotas de acessibilidade sendo criadas.
“Estamos procurando trazer acessibilidade e manter as condições históricas”, conta.
Calçadas, fiscalização de ambulantes e pessoas
No caso das calçadas, existe um decreto. Assim, o coordenador entende que entende que “caberia um projeto global na cidade para poder adequar e assim melhorar a acessibilidade nos bairros e até em avenidas”.
Segundo Rafael Coimbra, em relação aos ambulantes que ficam nas ruas e calçadas de Florianópolis, existe fiscalização da Guarda Municipal de Florianópolis, porém ele diz que “não dá para ficar de olho em tudo, mas há um Código de Posturas a ser seguido”.
Segundo ele, a questão da atitude das pessoas é onde mais precisa haver mudança.
“As pessoas precisam entender que aquele espaço é essencial para a pessoa com deficiência”. A população também tem de trabalhar junto”, alerta.
Cuidado com a acessibilidade em Florianópolis
Para Coimbra, a acessibilidade e inclusão são conceitos em evolução. “Hoje a realidade é diferente, pois já mudou o perfil das pessoas”, segundo ele, as próprias pessoas com necessidade especial o procuram para tratar de um determinado assunto.
“As obras na velocidade com que são feitas, nem sempre atendem os anseios da população, porém existe um cuidado com a acessibilidade em Florianópolis”, mesmo assim, ele pontua: “tem de melhorar muito”.