O amor pelo filho Willian, 12, transparece na voz da professora e relações públicas Luana Fernandes Alves. A história dos dois, juntos, começou há cerca de um ano e meio, quando eles se viram pela primeira vez.
Foi em um abrigo para crianças em Brusque, cidade onde Luana mora com o marido. A primeira impressão dela sobre o garoto, até então desconhecido, arranca risadas. “Meu marido se emocionou, mas o meu primeiro pensamento foi ‘nossa, como ele é grande'”, relembra.
É que Willian “nasceu” na família de Luana já com 10 anos de idade, 1,50m de altura e 49kg. O garoto já estava prestes a completar 11 anos quando conheceu o pai e a mãe.
SeguirWillian é mesmo um garoto grande: é mais alto que os de sua idade, o que o faz se destacar na multidão. Mas, para os pais, o que o distinguiu das outras crianças foi uma identificação instantânea.
O amor pelo filho Willian, 12, transparece na voz da professora e relações públicas Luana Fernandes Alves – Foto: Arquivo pessoal/NDDesejo de ser mãe por adoção
Para entender a história do nascimento de uma mãe, é preciso voltar um pouco no tempo. Aqui, voltamos para a infância de Luana. O sonho da maternidade ela carregava como outras tantas meninas. No entanto, enquanto muitas sonham em gerar biologicamente seus filhos, a pequena Luana já sabia que seria mãe por outros meios.
Com o passar dos anos, o sonho só cresceu, e existem coisas que só o destino é capaz de explicar. Uma delas é o encontro de Luana com o marido.
Jaison, por coincidência ou ação do destino, também carregava consigo o sonho da paternidade, mas através da adoção. A mãe dele foi adotada, e isso o inspirou a também dar uma chance à outras crianças.
O início
Juntos, Luana e Jaison mantiveram o sonho de serem pais e de adotarem por 15 anos de casamento. Foi quando, já estabelecidos, decidiram dar início ao que pode ser comparado a uma “gestação”.
É que o processo de adoção começa muito antes de conhecer a criança. Ele inicia no Judiciário, quando os futuros pais entram em uma longa lista de espera.
Willian chegou ao casal através da busca ativa, que é quando os pretendentes à adoção têm acesso a uma lista de crianças aptas a serem adotadas naquela cidade.
Luana explica que existe um grupo com futuros pais e assistentes sociais, e foi por lá que eles souberam do menino, na época com 10 anos, disponível para adoção.
Ele já tinha uma irmã, na época com 15, que havia sido adotada separadamente. Ele morava em um abrigo em Brusque.
Ele não estava no perfil procurado por Luana e Jaison. O casal procurava por criança de, no máximo, 7 anos. “Mas decidimos dar uma chance à ele”, conta. E que chance.
Uma das primeiras fotos em família – Foto: Arquivo pessoal/NDO encontro
Luana relembra que o primeiro encontro dos pais com o futuro filho aconteceu por intermédio do Fórum de Brusque e de uma assistente social, no abrigo que Willian morava.
Era dia 11 de outubro de 2019, um dia antes do Dia das Crianças e um dia depois do aniversário de Luana.
“Foi tão engraçado, assim que o portão abriu ele veio correndo e me abraçou, até fiquei assustada, assim tão rápido”, relembra.
Depois de uma conversa com a equipe técnica do abrigo, o casal foi autorizado a conversar e passar um tempo com Willian. Foi quando, novamente, Luana relembra pequenos detalhes que mostram como a identificação entre pais e filho foi instantânea.
“Assim que a gente saiu da sala, meu marido foi na frente e ele já veio e pegou na mãe do meu marido. Foi instantâneo. Logo depois a gente passou por uma funcionária do abrigo, e ele disse ‘olha, tia, esse é meu pai’. Meu marido até arregalou os olhos, porque foi tão rápido, ele não esperava ser chamado de pai assim tão cedo”, conta.
Pai e mãe
Ser chamada de mãe também foi rápido, relembra Luana. É como se ela e o filho estivessem predestinados a se conhecer e a serem família.
Logo no primeiro final de semana que pais e filho passaram juntos, eles decidiram ir ao Parque Beto Carrero. Era um dos sonhos de Willian.
“Eu me lembro que em um momento estávamos esperando e eu ouvia alguém chamar ‘mãe, mãe, mãe’, até que meu marido me cutucou e disse ‘a mãe é você'”, lembra.
Depois disso, o menino passou as férias de dezembro com o casal e não voltou mais para o abrigo. Em janeiro, completou 11 anos, e logo as aulas começaram.
O filho de Luana não estava no perfil procurado pelo casal para adoção – Foto: Arquivo pessoal/NDConvivência
Mesmo depois de um ano e meio sendo uma família de três pessoas, os desafios não param. “É difícil, é bem difícil”, conta Luana.
“Crianças adotadas já passaram por tanta coisa, que a gente nem imagina”, reflete. “Eles vão criando barreiras”, conta. Ela conta que, até hoje, descobrem coisas que Willian passou que eles não sabiam.
“É muito difícil quando precisamos corrigir algo, ouvir ele dizer ‘quero voltar para o abrigo’ dói muito. Mesmo que a gente saiba que não é verdade, ainda dói muito”, diz.
Amor maior do mundo
A criação de vínculos com crianças mais velhas demora mais e é mais difícil, “mas tu tens que abraçar e mostrar que o amor é maior do que qualquer coisa”.
Mas existem momentos que fazem tudo, todas as provas, todos os desafios, valer a pena. “Às vezes ele me chama do nada e diz ‘mãe, sabia que eu te amo?'”.
O processo da adoção de Willian já está quase concluído, menos de dois anos depois do encontro, e em breve a certidão de nascimento dele, com os nomes de Luana e do marido nos campos “pai” e “mãe” deve ser emitida.
Perfil dos adotantes e crianças aptas não bate
A comarca de Brusque possui hoje duas crianças aptas a adoção. São um menino, de 11 anos, e uma menina de 14. No entanto, a conta não fecha com o perfil escolhido pelos adotantes.
A maioria dos pretendentes busca por crianças de até 7 anos, como era o caso de Luana. Além disso, existem mais pretendentes do que crianças disponíveis, o que prolonga a lista de espera e a angústia de ambos os lados.
Segundo um levantamento feito pelo Instituto Geração do Amanhã, de maio de 2015 até o início de maio de 2020, mais de dez mil crianças e adolescentes foram adotados no Brasil inteiro.
O levantamento ainda aponta que, em 5 de maio de 2020, 5.026 crianças estavam disponíveis para adoção no país, e havia 34.443 pretendentes.