“Não quero tirar ela de ninguém. Só quero poder ver minha filha antes de morrer. Eu sonho com ela quase todas as noites. Ela está sempre presente. Só quero vê-la nem que seja uma vez.”
A súplica acima é de uma mãe que doou a filha recém-nascida, a Márcia, por extrema necessidade: fome.
“Só quero poder ver minha filha, nem que seja uma única vez”, suplica dona Angélica – Foto: Raquel Schiavini Schwarz/NDAngélica Cardoso de Souza, 90 anos, teve 15 filhos – 10 homens e 5 mulheres – , um deles morreu ainda criança. Lutou ao lado do marido e dos filhos para sustentar a grande família.
Em São João do Itaperiú, no Norte de Santa Catarina, a família Cardoso cuidava de uma plantação de arroz: pequena parte da produção ficava com a família e o restante ia para o dono do terreno. A vida já era dura, mas ia se levando. Até que uma devastadora enchente em 1972 destruiu toda a plantação de arroz e arrancou a esperança de dias melhores.
A família se viu em extrema dificuldade: não havia comida, não havia trabalho. Crianças estavam passando fome e Angélica, que havia acabado de ganhar Márcia, adoeceu.
“Perdemos tudo com a enchente, tudo, matou toda a plantação de arroz. Estaca zero. Fome, necessidade. A mãe estava muito doente. Basicamente, só comíamos raiz. Eram 14 crianças em casa”, lembra Lourdes Souza Nielson, uma das filhas.
Angélica e a filha Lourdes na casa onde moram hoje, no bairro Costa e Silva, em Joinville – Foto: Raquel Schiavini Schwarz/NDNesse período, uma irmã de Angélica que morava em Colombo (PR) e trabalhava de mensalista para famílias de Curitiba, vendo a dificuldade dos parentes, sugeriu que Angélica entregasse, temporariamente, a filha recém-nascida a uma família que tinha condições financeiras e poderia dar sustento e assistência. Mas isto seria por um período apenas, até que a família Cardoso pudesse se reerguer e ter condições de recebê-la de volta.
Claro que a decisão foi a mais dolorosa que Angélica e o marido tiveram de tomar. Mas, como um gesto de amor, entregou Márcia, de um mês de vida, a uma mulher chamada “Vina” para a qual a irmã de Angélica também trabalhava como diarista.
Junto com Márcia, Angélica entregou também a filha Lourdes, na época com 7 anos, também para ser cuidada por essas famílias de Curitiba. Tudo por necessidade e por um período apenas, até que a família tivesse condições de dar às filhas o que comer.
Inclusive, “Vina” já tinha cuidado, por alguns anos, de Denise, outra filha de Angélica que partiu aos 6 anos, mas voltou aos 14. “Vina” foi a mãe de coração de Denise nesses oito anos.
Conforme o acordo ‘de boca’ à época, “Vina” trouxe de volta Denise e Lourdes, mas nunca trouxera Márcia, a filha caçula de dona Angélica. Nunca ninguém soube para qual família a bebezinha Márcia foi entregue. Nunca ninguém teve notícias dela.
Mas dona Angélica alimenta as esperanças de poder ver a filha. Diz que não quer morrer sem conhecê-la.
“Vina prometeu trazer ela de volta para mim. Sei que ela está bem, sei que foi bem cuidada. Só quero vê-la. Se Deus quiser, eu vou conhecer minha filha”, implora dona Angélica, que hoje mora com a filha Lourdes em uma casa confortável e segura no bairro Costa e Silva, em Joinville.
E peço licença no meio desse texto para descrever uma cena:
Ao pegar a foto da “Vina” na mão, Angélica beija e diz “sei que ela cuidou bem das minhas filhas e da minha Márcia. Sou agradecida. Só queria ver minha Márcia.”
O gesto, aos meus olhos, revelou bondade, perdão, grandeza de alma.
“Lembro até hoje do posto de gasolina. Havia um sobrado com escada do lado. Vi Márcia sendo levada no colo por Vina. Depois disso, nunca mais vi minha irmã”, lamenta Lourdes, que estava junto no dia em que Márcia foi entregue a uma família, “possivelmente parente de Vina”, desconfia a família.
Lourdes ficou na casa da irmã da “Vina” que se chamava Virgínia, sua mãe do coração por um período, até os 9 anos.
Lourdes, que hoje tem 57 anos, lembra, inclusive, de uma ocasião em que foi a um aniversário em Curitiba na casa do vó de coração. Nesse dia, ela encontrou a irmã Denise, que vivia na casa de “Vina”.
“Eles não deixavam eu e a Denise chegar perto uma da outra; lembro disso. E naquele dia também senti que havia um bebê (acredita-se que era Márcia) na casa. Mas eles não deixavam a gente entrar no quarto”, recorda Lourdes.
“Eu tinha loucura pela minha mãe”
Lourdes reconhece que foi bem cuidada, recebeu alimentação, proteção, frequentou boa escola no tempo que ficou em Curitiba com a mãe do coração. Mas nunca esquecerá do dia que voltou para os braços da mãe biológica Angélica.
“Eu tinha loucura pela minha mãe. Ninguém me tirou do colo dela naquele dia.”
De volta a São João do Itaperiú, Lourdes voltou a ajudar os pais e irmãos na roça. “Cortei cana até os 15 anos”, conta. Apesar do trabalho duro, se sentia completa por estar ao lado dos pais.
“A vida não era fácil por aqui, mas não me importava. Estar perto deles era o que me bastava.”
A última vez que família viu “Vina”
A última vez que a família Cardoso viu “Vina” foi no dia em que ela trouxe de volta a Denise.
“Lembro do marido de Vina dizendo para minha mãe: ‘fala para Angélica onde está a filha dela”, frisa Lourdes.
No entanto, “Vina” não disse. Parecia haver um pacto de não dizer o paradeiro de Márcia.
Angélica, mais uma vez, implorou para “Vina” trazer sua filha de volta quando a situação melhorasse. Mas até hoje….
Dona Angélica se distrai com pintura. Antes, fazia bordados, mas agora, com dificuldade de visão, não está mais conseguindo bordar. – Vídeo: Lourdes Nielson/Divulgação ND
Uma das grandes dificuldades é que a família só tem uma fotografia e o apelido “Vina”. Não sabe o paradeiro da mulher de Curitiba. Ao conversar com a tia que trabalhou na casa de Vina, Lourdes conseguiu mais uma informação: o marido de “Vina”, hoje já falecido, seria “Salin”. Ela não sabe, entretanto, se Salin era o nome ou sobrenome.
“A tia não lembra mais de nada. Está muito velhinha. Disse que só lembra que trouxe Denise de volta.”, conta Lourdes.
Outro empecilho é que a família que adotou Márcia deve ter a registrado com outro nome.
Mas Lourdes não desiste. Há anos tenta realizar o sonho da mãe e o próprio sonho de reencontrar a irmã.
Alguns irmãos de Lourdes também tentaram achar informações que levassem até a família que adotou Márcia. Um dia, inclusive, Lourdes foi até Curitiba, lembrou da casa onde morou por dois anos e bateu lá na frente. Hoje, funciona um escritório de advocacia.
Casa onde Lourdes morou com a irmã de “Vina” em Curitiba. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND“Eles me deixaram entrar. Caminhei pela casa onde há mais de 40 anos estive. Vi a lareira, me sentei na frente e me emocionei”, recorda
Lourdes pediu para locatários da casa informações sobre o dono, mas até hoje não conseguiu.
Mas ela não perde as esperanças e, por meio desta matéria, espera poder reencontrar a irmã e acalmar o coração aflito da mãe Angélica, que já teve pequenos derrames, infarto e tenta controlar o diabetes, que está tirando sua visão. O desejo de encontrar a filha, entretanto, a mantêm forte e lúcida na maior parte do tempo.
Angélica: “Sonho com minha filha quase todas as noites” – Foto: Raquel Schiavini Schwarz/ NDMárcia, como a chamaram por ela ter nascido no mês de março, completa 50 anos neste mês.
Enquanto isso, na casa do Costa e Silva, os braços sempre estarão abertos para receber Márcia.
“Não queremos estragar nada já construído, não queremos tirar ela de ninguém, da sua família, nada disso. Desejamos que ela continue onde está. Só queremos vê-la”, finaliza a esperançosa Lourdes.
Lourdes, que após anos de luta na roça, se mudou para Joinville nos anos 80, trabalhou dez anos em uma grande empresa e construiu uma linda família (tem cinco filhos e netos). Quando ela estava estabilizada em Joinville, fez questão de trazer os pais para morar na cidade.
Hoje, há uma corrente de amor e esperança, todos torcendo para reencontrar Márcia.
Quem tiver informações sobre este caso favor entrar em contato com redação do Portal NDMais Joinville pelo telefone 47 3419-8000.