“Meu corpo estava aqui, mas minha alma estava lá, dividida entre o Haiti e a República Dominicana”. Foram quase quatro anos de angústia desde o dia em que Wirllyne Dorvilier, de 29 anos, saiu do Haiti com destino ao Brasil.
Para trás, além da terra natal, deixava três filhos pequenos que não via desde maio de 2016. Dois deles ficaram morando com a tia, na República Dominicana, durante todo esse tempo, e um com o avô, no Haiti.
Família comemorou o aniversário de 12 anos de Dakendo nesta terça-feira (7) – Adrieli Evarini/NDNesta terça-feira (7), ela cantou parabéns e viu o filho mais velho comemorar o aniversário sem que uma tela de celular e quase 6 mil quilômetros estivessem entre eles.
SeguirO reencontro entre mãe e filhos aconteceu no dia 30 de dezembro de 2019, no aeroporto de Joinville, e a emoção tomou conta da família.
Enquanto em Joinville estavam Wirllyne, o companheiro Willy Presente, de 30 anos, e a filha caçula, Lina Presente, de dois anos, o avião pousou trazendo a “alma” da haitiana.
Dakendo Jean, o aniversariante da semana, de 12 anos; Lorena Jean, de 9 anos; Angelica Presente, 7 anos; e a mãe de Wirllyne, Maria Julia Jelean, de 52 anos, correram para os braços dela. Naquele momento, a imagem dos filhos deixava de ser apenas uma chamada de vídeo.
“Não conseguia ver meus filhos passando fome”, diz mãe, que veio ao Brasil tentar uma vida melhor
Os terremotos que destruíram o país ainda no início dos anos 2010 fizeram com que a haitiana não tivesse escolha a não ser tentar uma vida melhor fora do Haiti. “Não tinha condições de ficar lá. A vida não era fácil, tudo era escasso e caro. E eu não conseguia ver meus filhos passando fome”, conta.
O caminho era um só: deixar o país, trabalhar e tirar os filhos de lá. O companheiro enfrentou a longa viagem primeiro, em 2014. Saiu do Equador e passou pelas rodoviárias de Rio Branco e São Paulo. Depois de um mês dentro de alguns ônibus, Willy finalmente desembarcou em Joinville.
Ela veio depois, em maio de 2016, deixando os filhos, mas sonhando com o momento em que iria reencontrá-los. “Eu vim para buscar uma vida melhor. Cheguei, mas não foi fácil. Eu não pensei que demoraria tanto”, lembra.
Wirllyne engravidou da caçula e, depois de dar à luz, foi demitida e ficou quase dois anos sem conseguir trabalho, o que tornou o sonho do reencontro mais distante. A preocupação e a saudade só aumentavam. “Eles estavam lá, sem roupa, fora da escola, passando fome”, lembra.
Emprego, campanhas e “vaquinha” abriram as portas para reencontro
A vida começou a mudar e a esperança renasceu no dia em que Wirllyne fez uma entrevista de trabalho para uma vaga na área de limpeza da Instituição Gerar. Pelo menos outras 100 pessoas estavam “de olho” na vaga e enviaram currículos, mas o destino fez com que fosse ela a escolhida. “Eu botei o olho nela e sabia que tinha que ser ela”, relembra Karize Vaz, coordenadora da Gerar.
A haitiana lembra que, na entrevista, contou para Karize os motivos pelos quais ela queria e precisava daquele emprego. “Eu contei para ela que tinha três filhos fora e precisava trabalhar para conseguir trazer eles para perto de mim”, diz. No mesmo dia, ela estava com a documentação e a carteira de trabalho na mão, pronta para ser registrada.
“Eu não acredito em acaso. Eu precisava conhecer ela e, quando ela me contou a história da família e me falou sobre a fome, isso me quebrou”, lembra.
Wirllyne conta que desde o começo a “patroa” disse que ajudaria a família a voltar a se reunir. Depois de começar a trabalhar, a haitiana recebeu diversas doações espontâneas, uma “vaquinha” foi criada, eventos organizados, tudo em prol da arrecadação dos mais de R$ 40 mil necessários para custear as passagens dos três filhos e da mãe.
Vídeo: Arquivo Pessoal/ND
“Ainda parece um sonho”
Depois de muitas doações, a ajuda de pessoas que sequer se identificaram, o dinheiro foi arrecadado e a família iniciaria uma viagem que duraria cinco dias, com muitos contratempos. O ônibus que levou dois filhos ao encontro do irmão e da avó quebrou, passagens foram perdidas e muitos “remendos” precisaram ser feitos na viagem que terminaria com muita emoção e amor no aeroporto de Joinville.
“Nós tentamos para o Natal, mas não foi possível. Depois de alguns contratempos, conseguimos reunir a família para a virada de ano”, conta Karize.
O reencontro foi emocionante e, para o “anjo” da família, o que chamou a atenção foram o amor genuíno e o carinho dos filhos de Wirllyne. “Foi muito emocionante. O amor, sem dúvida, era visível. A educação, a cultura e o carinho deles me emocionam. Eles gostam de abraçar, dividir tudo, é lindo”, diz.
Para Wirllyne, foi difícil acreditar que aquilo estava diante dos seus olhos. “Pra mim, ainda parece um sonho. Eu tinha tudo aqui e eles lá, sem ter o que comer no café, eu ficava louca. Agora, estão aqui, parece um sonho”, diz.
No aeroporto, a emoção tomou conta da família e ela lembra que os filhos a olhavam e diziam “mãe, você está tão bonita”. Uma semana depois do reencontro, Willy parece estar no céu. “Eu sabia que estavam vindo, mas parecia mentira. Eu me perguntava ‘será que meus filhos estão mesmo aqui?’”, fala.
Para ele, as melhores horas são aquelas em que coloca os filhos para dormir e quando os acorda pela manhã. “A casa está diferente”, diz. A preocupação existe, com a adaptação, com a língua, com a cultura, mas ele é rápido em dizer “eles compensam tudo”.
“Quando você vem, mãe?” era a pergunta em todas as ligações
Em quatro anos, as crianças ganharam alguns centímetros e o casal acompanhava o desenvolvimento pelo celular. “Agora podemos ver tudo aqui, sentir”, diz Willy.
Enquanto elas cresciam longe, a irmã caçula nascia no Brasil e nem parece que se conhecem há apenas uma semana. Ativa, Lina é carinhosa e distribui abraços e sorrisos entre os irmãos e quem quer que esteja ao seu lado. “Ela está muito apegada com eles. Parece que, apesar de nem conhecer, eles já faziam falta”, fala o pai.
Família estava separada desde 2016, quando a mãe veio para o Brasil – Foto: Adrieli Evarini/NDWirllyne lembra que nas ligações uma pergunta sempre se repetia. “Eu queria te ver, quando você vem, mãe?”. Ela não conseguiu ir ao encontro deles, mas os trouxe para viver em Joinville e já projeta um 2020 bem diferente. Longe da escola porque a família não tinha condições de arcar com os custos, os três filhos devem sentar em uma cadeira escolar no próximo mês.
Os desafios de língua e adaptação, garante a mãe, são pequenos perto das dificuldades enfrentadas na terra natal. “Eles são tudo na minha vida e, juntos, os obstáculos serão menores”, finaliza.
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