Após restauração milionária, Casa da Alfândega de Florianópolis volta a sofrer pichação

Autoria do crime ainda não foi identificada e o órgão que administra o local promete reparar o dano

Nícolas Horácio Florianópolis

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Antes de ser revitalizada, a Casa da Alfândega, localizada no Largo da Alfândega, no Centro, tinha a fachada e as laterais repletas de pichação. Uma das principais melhorias da obra, que custou R$ 5,8 milhões, foi devolver beleza ao prédio, com a pintura da parte externa.

Pichação na Casa da AlfândegaPichação na Casa da Alfândega é na ala norte, onde ficam milhares de peças de artesão do Estado – Foto: Leo Munhoz/ND

Na sexta-feira da semana passada, porém, o local amanheceu com uma novidade inesperada: uma pichação na parede externa. Um crime ambiental, até o momento, sem autoria conhecida.

Nas ruas do Centro de Florianópolis, sobretudo na parte leste, uma série de prédios públicos e comerciais estão em situação muito pior. Na rua Tiradentes, o Arquivo Histórico, da Secretaria Municipal de Administração, tem a fachada e a lateral pichadas.

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Pichações na Escola Antonieta de BarrosFechada desde 2008, Escola Antonieta de Barros é o símbolo do abandono de alguns prédios públicos e ruas do Centro de Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/ND

Na rua Saldanha Marinho, a maioria das paredes dos comércios está na mesma situação. Na rua Victor Meirelles, o prédio dos Correios e do antigo Procon SC, também. Na rua João Pinto, o prédio do Procon Municipal e do Pró-Cidadão é mais um com as paredes sujas.

Conforme o artigo 65 da lei 9.605/98 (Lei dos Crimes Ambientais), pichação é crime e pode resultar em detenção de três meses a um ano, além de multa. Como ainda não foi descoberta a autoria da pichação na Casa da Alfândega, ninguém foi responsabilizado.

Novo, o prédio do Procon Municipal e do Pró-Cidadão é mais um com as paredes sujas – Foto: Leo Munhoz/NDNovo, o prédio do Procon Municipal e do Pró-Cidadão é mais um com as paredes sujas – Foto: Leo Munhoz/ND

Depois da revitalização, o prédio voltou a abrigar, em fevereiro, a Galeria do Artesanato, administrada pela FCC (Fundação Catarinense de Cultura) e, em março, a superintendência do Iphan/SC (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Santa Catarina), responsável pelo prédio.

Supervisora da Galeria do Artesanato, Adriana Brito se sente triste por ver o dinheiro público e o trabalho dos artesãos catarinenses desvalorizado – o espaço tem mais de 3 mil peças de expositores do Estado:

“Eles se sentem no direito de vir e estragar um espaço público como esse. Quando vi, me senti muito mal”, lamentou Adriana, que se deparou com a pichação na manhã da última sexta.

Comerciantes do Centro lamentam

Valdomira das Graças, 69 anos, tem comércio ambulante há 49 anos no Centro da Capital. A reação dela, ao ver a pichação, ao meio-dia de ontem, foi de consternação: “Uma pena, estava tão bonito, tudo limpinho, pintura nova”, disse.

Bomb e pichação no prédio dos CorreiosBomb e pichação de fora a fora chamam atenção no antigo prédio dos Correios – Foto: Leo Munhoz/ND

Na visão de Valdomira, as pichações prejudicam os comerciantes: “É ruim, porque fica uma cidade suja, feia. A gente que trabalha procura manter tudo limpinho, tudo em ordem, inclusive, os turistas elogiam isso, mas tem pessoas que não cuidam, infelizmente”, desabafou.

O grego Kosmas Charismaidis tem um carrinho de cachorro-quente há quatro anos e fica perto da Casa da Alfândega. Ele define o local, antes da restauração, como “muito feio” e parabenizou a obra, mas não acredita na manutenção da limpeza.

Arquivo Histórico de Florianópolis também tem mais de uma pichação – Foto: Leo Munhoz/NDArquivo Histórico de Florianópolis também tem mais de uma pichação – Foto: Leo Munhoz/ND

“Tem pessoas que não têm educação, são vândalos. Eles não respeitam o que é público”, resumiu. Charismaidis sugeriu que, além da multa, se o infrator for identificado, deveria limpar a sujeira.

Iphan promete reparar dano

Procurada pela reportagem, a superintendência do Iphan/SC respondeu por meio de nota. O órgão disse que a depredação causou indignação, pois o prédio acabou de ser restaurado com recursos públicos.

“O Iphan/SC está tomando providências junto às autoridades policiais para identificar e responsabilizar os autores do crime e realizará procedimentos para a reparação do dano”.

Casa da Alfândega após revitalizaçãoIphan/SC promete deixar a Galeria novamente assim – Foto: Márcio H. Martins/Ascom FCC/ND

A supervisora da Galeria do Artesanato, Adriana, espera que as autoridades policiais descubram a autoria do crime. Na avaliação dela, se a ação ficar impune, vai se repetir.

Adriana também disse que vai conversar com o Iphan para as devidas soluções. Ela tentou procurar o órgão ontem mesmo, mas até o fechamento da edição, não obteve retorno.

“Epidemia das grandes cidades modernas”, definiu secretário

A reportagem também procurou a Prefeitura de Florianópolis, pois a Guarda Municipal tem patrulha ostensiva no local. A resposta veio por meio da Secretaria de Segurança Pública, primeiramente por nota, e informando que o crime foi na madrugada e que, apesar da presença da Guarda na região, provavelmente ocorreu enquanto as equipes estavam rondando outras ruas do Centro.

Antiga estrutura do Procon Estadual é outra abandonada no Centro de Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/NDAntiga estrutura do Procon Estadual é outra abandonada no Centro de Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/ND

A secretaria também informou que as câmeras de monitoramento da Polícia Militar não identificaram o incidente e que, essas ações são rápidas e silenciosas, dificultando a vigilância.

O poder municipal também prometeu intensificar as ações de prevenção e repressão às pichações, principalmente em prédios públicos, contratando câmeras de segurança para a área.

Em entrevista ao ND, o secretário de Segurança Pública, Araújo Gomes, foi enfático. “A pichação é a epidemia das grandes cidades modernas. É um problema, sempre, de difícil solução, justamente por sua característica furtiva e inconsequente. Vamos redobrar os cuidados, mas pedimos que as pessoas denunciem ao ver esse tipo de crime. Se não há um guarda em cada esquina, há pelo menos um cidadão”, declarou Araújo Gomes.

A nova paisagem poluída da Casa da AlfândegaPor enquanto, a “nova cara” do prédio, que teve restauração de R$ 5,8 milhões, é essa – Foto: Leo Munhoz/ND

O secretário disse que está contatando o órgão que administra o prédio para conhecer as medidas de segurança atuais e orientar sobre possíveis melhorias. Também repassará informações à Polícia Civil para a investigação da autoria do crime.

Procurado para falar sobre o videomonitoramento, o 4º Batalhão da PM, que atua na área, informou que o monitoramento flagrou a pichação e que, de imediato, a ocorrência foi repassada para viaturas da PM. Elas foram até o local, mas não foi possível localizar os autores. Em rondas, não foi encontrado ninguém com as características.

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