Arquivo Histórico de Joinville completa 50 anos: ‘cada documento é um pedaço da história’

Espaço criado em 1972 guarda fotos, projetos arquitetônicos, mapas, conteúdo audiovisual e um rico acervo em prédio construído especificamente para a finalidade

Juliane Guerreiro Joinville

Receba as principais notícias no WhatsApp

Entre prateleiras e gavetas, a história de Joinville se mantém preservada em um imponente prédio na avenida Beira-Rio. Quase debaixo das sombras das figueiras e bem em frente ao tão conhecido rio Cachoeira, o Arquivo Histórico guarda a memória da cidade com registros de quando ela, aliás, nem era chamada assim.

Arquivo Histórico de Joinville completa 50 anos em março de 2022 – Foto: Juliane Guerreiro/NDArquivo Histórico de Joinville completa 50 anos em março de 2022 – Foto: Juliane Guerreiro/ND

E diante de tanta história, o próprio Arquivo faz parte dela: a instituição fundada em 1972 completa 50 anos neste mês de março. Ele foi criado a partir de um decreto do então prefeito Harald Kartmann e teve como primeiro diretor Adolfo Bernardo Schneider que, apesar de não ser historiador de formação, pesquisava e escrevia muito sobre a história de Joinville e foi um dos idealizadores do espaço.

Após a fundação, de modo um pouco improvisado, o Arquivo Histórico funcionou na Biblioteca Municipal, onde recebeu os primeiros documentos, frutos de doações da comunidade. As doações, porém, foram se tornando cada vez mais constantes – o que foi ótimo para o acervo, mas acabou por tornar o espaço insuficiente dentro da biblioteca. Por isso, em 1986, o atual prédio que abriga o Arquivo Histórico foi construído.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Aliás, quem passa por lá e vê o prédio moderno, em um estilo que em nada remete aos imóveis antigos que nos acostumamos a ver em cidades históricas, pode até estranhar a ligação com o tema. E este é justamente um dos diferenciais do espaço joinvilense: ele foi projetado especialmente para guardar a memória da cidade.

“É um prédio construído com essa finalidade, o que no Brasil não é muito comum. Normalmente, os arquivos históricos estão em construções históricas, antigas e, às vezes, não adequadas para serem um arquivo histórico, que precisa de condições ideais, como climatização”, explica Dilney Cunha, historiador e coordenador do espaço.

Duas salas climatizadas guardam o acervo – Foto: Juliane Guerreiro/NDDuas salas climatizadas guardam o acervo – Foto: Juliane Guerreiro/ND

O prédio de dois pavimentos, com piso superior apenas para guarda do acervo, foi construído com ajuda financeira do governo alemão, já que grande parte da documentação está ligada à imigração e colonização alemã. “Na época, conseguiu-se sensibilizar o governo alemão para essa ajuda. O embaixador da Alemanha esteve aqui na inauguração”, conta Dilney.

Quem entra no prédio logo percebe a diferença na temperatura, principalmente nos dias de calor intenso de Joinville. O refresco que faz bem no calorão é também fundamental para a conservação dos documentos armazenados no Arquivo Histórico.

“A gente tem uma estrutura apropriada de climatização, que é o coração do prédio. Os documentos não podem sofrer variações de temperatura porque são frágeis, ainda mais em uma cidade como Joinville, em que há muita umidade. A temperatura tem que ficar estável, em 22°C no máximo, não pode passar disso por muito tempo”, salienta o coordenador.

Nas duas salas em que ficam os documentos, no piso superior, a entrada de luz é mínima, também para evitar manchas e outros danos. Além disso, para acessá-los, é preciso usar luvas e o consumo de água e alimentos no local é proibido durante a consulta ao acervo. Fotos são permitidas, mas sem flash. Tudo isso para proteger a história da cidade.

Kolonie-Zeitung (em alemão) e Gazeta de Joinville, os dois primeiros jornais da cidade – Foto: Reprodução/AHJKolonie-Zeitung (em alemão) e Gazeta de Joinville, os dois primeiros jornais da cidade – Foto: Reprodução/AHJ

Milhares de documentos, histórias e sentimentos

As prateleiras, gavetas e caixas cheias demonstram a riqueza do acervo. São tantos jornais, revistas, fotos, relatórios, livros, mapas, projetos e documentos que contá-los seria uma tarefa difícil. E entre tantos materiais, o interesse de quem visita o local é muito variado.

Dilney conta que alguns dos documentos mais buscados são as listas de imigrantes, com informações a respeito de pessoas que embarcaram e desembarcaram de navios que passaram por Joinville, ainda antes de a cidade ser, de fato, uma cidade. São dados importantes para pessoas que buscam dupla cidadania, por exemplo, ou apenas querem saber mais sobre seus antepassados.

“A lista de imigrantes está disponível no site da prefeitura, então, se o antepassado estiver na lista, a pessoa nos encaminha uma solicitação. A gente transcreve do original e traduz, eu assino e a pessoa inclui no processo de cidadania dela, um serviço gratuito”, explica Dilney.

Listas de imigrantes estão entre os itens mais procurados – Foto: Juliane Guerreiro/NDListas de imigrantes estão entre os itens mais procurados – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Outro tipo de documento muito acessado são os projetos arquitetônicos, buscados por engenheiros e arquitetos que desejam fazer obras de restauro ou outros tipos de intervenções. Com base neles, é possível ter mais informações sobre os imóveis originais.

O Arquivo também conta com títulos de eleitores emitidos desde a década de 1970 que, como descrevem o tipo de trabalho do eleitor à época, podem ajudar no processo de concessão de aposentadoria a antigos trabalhadores rurais. “São documentos que também promovem a cidadania”, fala Dilney.

Mas além desse tipo de busca, que têm um caráter mais prático, também há quem visite o Arquivo Histórico por pura curiosidade sobre a história de Joinville. Dilney conta, por exemplo, que existe um morador da cidade que visita o local quase todos os dias e publica os materiais que acha curiosos em uma página na internet.

Há, ainda, relatos de pessoas que se emocionaram ao descobrir a história da própria família com a ajuda dos pesquisadores. É o caso de um morador de Timbó, que encontrou até uma foto da bisavó, a qual ele nunca tinha visto, durante uma passagem dela por Joinville. “Ele ficou tão impressionado e emocionado de ter descoberto que disse não ter palavras para agradecer”, lembra Dilney.

Em 2021, o Arquivo Histórico realizou mais de mil atendimentos. Desse total, parte foi online, já que o espaço esteve fechado até julho, por causa da pandemia.

Pergunta difícil de historiador responder

Diante de um acervo tão rico, qual é o material mais importante do Arquivo Histórico de Joinville? O coordenador do espaço não esconde a angústia em responder: “eu sou suspeito pra falar, para o historiador tudo é importante. Cada documento é um pedacinho da história da cidade, um pedaço da história da gente”, comenta.

Dilney, no entanto, defende que as listas de imigrantes, por exemplo, têm valor inestimável. “Elas têm importância para muita gente. São a comprovação de que o antepassado veio de tal lugar e são listas de embarque e desembarque, um conjunto documental muito precioso”, diz.

As listas de embarque e desembarque mostram os nomes dos imigrantes que chegaram em Joinville – Foto: Juliane Guerreiro/NDAs listas de embarque e desembarque mostram os nomes dos imigrantes que chegaram em Joinville – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Além delas, Dilney também reforça a importância dos inventários, que ajudam a compreender o modo de vida dos antepassados – alguns mostram que as pessoas “tinham” pessoas escravizadas, por exemplo – , e dos livros de impostos, que trazem curiosidades, como os tributos que existiam sobre cães e bicicletas.

Para o historiador, além de ser algo raro ter uma edificação construída especificamente para abrigar o acervo histórico, é incomum até mesmo ter esses registros reunidos em um só local. “Tem tudo a ver com a memória da comunidade poder ter acesso à documentação. Ela não está isolada em locais privados ou públicos sem organização ou tratamento técnico. Isso tem a ver com cidadania”, conta.

E para tornar todo esse material ainda mais acessível, a equipe já iniciou o projeto de digitalização do acervo, começando pelos projetos arquitetônicos. A intenção é que, no futuro, os documentos sejam disponibilizados na internet, de forma que os usuários possam consultá-los online.

Dilney reforça que ainda há muitos joinvilenses que não conhecem a instituição e é preciso fortalecer a divulgação com a comunidade. O ponto positivo é que os moradores da cidade parecem ter muito interesse no passado de Joinville: “mas tem que saber provocar, saber como chegar às pessoas com a história. É como na escola: podem ser as aulas mais chatas ou as melhores aulas”, destaca.

Mapa mostra construções ainda antes da chegada dos primeiros imigrantes germânicos onde hoje é Joinville – Foto: Reprodução/AHJMapa mostra construções ainda antes da chegada dos primeiros imigrantes germânicos onde hoje é Joinville – Foto: Reprodução/AHJ

Programação especial vai celebrar os 50 anos do Arquivo Histórico

Para comemorar os 50 anos de fundação do espaço destinado a preservar a memória joinvilense, a prefeitura preparou uma programação especial para o próximo domingo (20), com atrações durante todo o dia, das 9 às 17h.

Às 10h, uma cerimônia oficial com autoridades, equipe, ex-funcionários e o público em geral fará uma homenagem à família de Adolfo Bernardo Schneider, idealizador do espaço. A partir das 10h30, haverá várias atrações, como apresentação da banda do Corpo de Bombeiros Voluntários, da Jambo Jazz Band e performance de dança com a bailarina Nicole Leite. Em paralelo, ocorre a exposição de videoarte “Curto-Circuito”, do artista Vini Poffo.

Já na parte externa, das 8h30 às 12h, uma parceria com a Secretaria de Esportes vai disponibilizar equipamentos de lazer e recreação com brinquedos e outras atrações. A avenida Hermann Lepper, entre a Ponte Azul e a Rua Dona Francisca, será fechada para o trânsito de carros. Caso chova, as atividades da Sesporte serão canceladas, porém o restante da programação em comemoração ao aniversário do Arquivo será mantida.

E a cereja do bolo serão as visitas guiadas pelo Arquivo Histórico, inclusive ao acervo, que vão ocorrer em cinco horários: às 9h, 11h30, 13h30, 15h30 e 16h30, com duração de cerca de 30 minutos, com grupos de 15 pessoas por vez.

“O ponto mais especial serão as visitas guiadas. Hoje, o munícipe vem ao arquivo, ele pede os documentos, olha e não tem acesso ao arquivo. Nesse dia, os monitores farão visitas guiadas para mostrar onde estão os documentos, como são guardados, os cuidados. As pessoas terão um contato maior com o arquivo”, conta Francine Olsen, diretora executiva da Secretaria de Cultura e Turismo.

A programação dos 50 anos ainda contemplará outras atividades ao longo do ano. A próxima agenda será no dia 24 de março, às 19h, com a realização da mesa redonda “50 anos do Arquivo Histórico de Joinville: história, memória e cidade”. O encontro será no próprio Arquivo Histórico de Joinville e a entrada é livre.

Tópicos relacionados