Beleza feminina que representa: mulheres blumenauenses que transformaram a realidade local

Saiba mais sobre o papel dos concursos na diversidade étnica e cultural

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Redação ND Blumenau

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Celebrado no mundo inteiro, o Dia Internacional da Mulher é marcado pela reflexão e reconhecimento das conquistas das mulheres na sociedade. O dia 8 de março também é um momento de enaltecer a importância feminina em diversos ramos. Na área da beleza, por exemplo, muitas mulheres visionárias fizeram história e transformaram suas realidades.

Beleza feminina que representa: mulheres blumenauenses que quebraram estereótipos e inspiram – Foto: Reprodução/NDBeleza feminina que representa: mulheres blumenauenses que quebraram estereótipos e inspiram – Foto: Reprodução/ND

Durante muitos anos, a beleza feminina era vista como um tema marcado por estereótipos e padrões impostos pela sociedade. Ao longo dos anos, muitas mulheres promoveram a diversidade étnica e cultural, quebrando paradigmas, lutando pela diversidade e singularidade da beleza.

Em Blumenau, são muitas as mulheres que representaram a cidade em concursos de beleza no município e fora dele. A historiadora Sueli Petry conta que naquela época os concursos eram muito diferente dos dias atuais. “Não havia a exigência de beleza e medidas como hoje”, conta.

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Segundo Sueli, os concursos estiveram em alta no Brasil nos 50 até os anos 80. “Posterior a este tempo, os concursos tomaram outros rumos, já não eram tão disputados. Os organizadores mudaram de perfil . Jornais e revistas que estavam a frente deste concursos deixaram de realizar”.

Blumenau fez história e elegeu a primeira Miss Blumenau. Frieda Zimmermann foi eleita em 1922. “Participaram deste concurso 96 senhoritas da sociedade local. Os critérios para a escolha incluíam beleza física, simpatia e desenvoltura”, relembra Sueli.

Frieda Zimmermann foi eleita Miss Blumenau em 1922 – Foto: Arquivo Histórico de Blumenau/Reprodução/NDFrieda Zimmermann foi eleita Miss Blumenau em 1922 – Foto: Arquivo Histórico de Blumenau/Reprodução/ND

Organizado pelo Jornal Brazil, o júri era formado por autoridades e representantes das mais ilustres famílias. Eleita, Frieda Zimmermann tinha 25 anos e era filha do comerciante Paulo Zimmermann e Joana Jensen.

Primeira Miss Brasil blumenauense

Uma ilustre blumenauense começou sua trajetória ao vencer em 1969 o Concurso Miss Brasil. Vera Ficher era filha de um comerciante residente no bairro da Velha, em Blumenau. Segundo a historiadora Sueli Petry, a beleza da jovem se destacou quando ela trabalhou como recepcionista na cidade. “Assim quando houve o curso de Miss Blumenau, ela foi eleita para representar a cidade na competição de Santa Catarina. Venceu e foi para o nacional e posterior ao Internacional”.

Vera Ficher foi a primeira blumenauense a se tornar Miss Brasil – Foto: Arquivo Histórico de Blumenau/Reprodução/NDVera Ficher foi a primeira blumenauense a se tornar Miss Brasil – Foto: Arquivo Histórico de Blumenau/Reprodução/ND

A jovem, que sonhava em ser atriz, tornou-se Miss Brasil no dia 28 de junho de 1969 com um Maracanãzinho lotado. Vera concorreu com Maria Lúcia dos Santos, representante de São Paulo e uma das favoritas na época.

Recepcionada com muita festa em Blumenau, Vera Fischer foi a primeira Miss de Santa Catarina reconhecida como a mulher mais bonita do Brasil. A jovem concorreu ao Miss Universo e ficou entre as finalistas. Depois de passar a faixa de Miss Brasil para Eliane Thompson, em 1970, decidiu seguir a carreira de atriz.

Novo ciclo

Em 2023, Blumenau pode ter mais uma jovem representando Santa Catarina. Sasha Benner Bauer, ex-rainha da Oktoberfest, agora trilha um caminho como Miss Blumenau 2023, e representará a cidade no concurso estadual do Miss Universo.

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    Sasha Benner Bauer é a nova Miss Blumenau 2023 - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
    Sasha Benner Bauer é a nova Miss Blumenau 2023 - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
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    Sasha Benner Bauer é a nova Miss Blumenau 2023 - IMG_1024
    Sasha Benner Bauer é a nova Miss Blumenau 2023 - IMG_1024

“Eu não sei querer pouco, então encaro esse desafio com entusiasmo e sabendo que carrego na bagagem uma grandiosa experiência. Tenho me preparado bastante para chegar na final me sentindo pronta para representar nossa cidade da melhor forma possível. É uma grande responsabilidade representar a força, a elegância e a beleza da mulher blumenauense e quero dar o melhor de mim. Estou gostando muito desta nova experiência, sinto que tenho amadurecido ainda mais como mulher”, afirmou Sasha.

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    Sasha comemorando a coroação de rainha da Oktoberfest Blumenau com os avós - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
    Sasha comemorando a coroação de rainha da Oktoberfest Blumenau com os avós - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
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    Sasha ao lado do namorado e dos pais - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
    Sasha ao lado do namorado e dos pais - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

Com o reinado mais longo da Oktoberfest Blumenau, a jovem sonhava em fazer parte da realeza da festa alemã. “Minha mãe foi candidata no ano de 1987, porém não ficou entre as três coroadas. Quando nasci, ela plantou a sementinha. Sempre me levava para assistir aos concursos e dizia que um dia poderia ser eu lá. Comprei esse sonho. Em 2018 me candidatei à realeza dos clubes de caça e tiro para me aproximar ainda mais das tradições e cultura germânica de nossa cidade, e no ano seguinte me sentia preparada para concorrer no concurso da Oktoberfest. Jamais imaginei que faria parte do reinado mais longevo da festa, mas sempre vi isso como uma oportunidade”.

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    Sasha foi a rainha mais longeva da Oktoberfest em Blumenau - Daniel Zimmermann/Reprodução/ND
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    Sasha foi a rainha mais longeva da Oktoberfest em Blumenau - Daniel Zimmermann/Reprodução/ND
    Sasha foi a rainha mais longeva da Oktoberfest em Blumenau - Daniel Zimmermann/Reprodução/ND
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    Sasha foi a rainha mais longeva da Oktoberfest em Blumenau - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
    Sasha foi a rainha mais longeva da Oktoberfest em Blumenau - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
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    Sasha foi a rainha mais longeva da Oktoberfest em Blumenau - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
    Sasha foi a rainha mais longeva da Oktoberfest em Blumenau - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
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    Sasha foi a rainha mais longeva da Oktoberfest em Blumenau - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
    Sasha foi a rainha mais longeva da Oktoberfest em Blumenau - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

Com um legado sustentado por valores como amor, simpatia, simplicidade e humildade, a jovem de apenas 24 anos considera a beleza uma apreciação subjetiva. “Em concurso de beleza, é preciso buscar oferecer mais do que isso. Estudar os concursos anteriores, aperfeiçoar a comunicação, buscar fazer sempre além daquilo que esperam, são algumas ações que sem dúvidas estão por trás de uma forte candidata”.

Sasha destaca que é muito gratificante saber que sua história e legado possam influenciar outras meninas que tenham o mesmo sonho. “Ser inspiração de alguém é uma honra e responsabilidade muito grandes. Mas, é muito gratificante saber que a minha história e legado possam inspirar outras meninas”.

Modelo, influenciadora digital e agora, Miss Blumenau, Sasha é uma voz ativa no município e acredita que hoje, o papel da mulher é fortalecer a luta pela igualdade, buscando ocupar cargos de liderança, onde possam usar da sua voz para inspirar e aproximar outras mulheres desta causa.

“Durante boa parte da história, homens e mulheres exerciam papéis muito diferentes na sociedade. No entanto, ao longo dos últimos séculos, as mulheres lutaram pelo seu espaço, e adquiriram maior emancipação, liberdade e voz ativa. A mulher do século XXI não é mais vista como coadjuvante, mas sim, ocupa cargos públicos, comanda escolas, universidades, empresas, lidera projetos. No entanto, sabemos que a desigualdade ainda é bastante presente, reflexo de uma cultura patriarcalista e machista”, conclui.

Beleza que representa

Blumenau fez história com o primeiro concurso para exaltar a beleza negra na cidade. Em setembro de 1961, os blumenauenses conheciam o primeiro “Concurso Individual Cultural Estadual Miss Mulata”, assim nomeado na época. Representante de Blumenau, Janette Rodrigues foi eleita a primeira “Miss Mulata 1961”.

Cartaz do Concurso Individual Cultural Estadual Miss Mulata de Blumenau – Foto: Arquivo Histórico de Blumenau/Reprodução/NDCartaz do Concurso Individual Cultural Estadual Miss Mulata de Blumenau – Foto: Arquivo Histórico de Blumenau/Reprodução/ND

Uma iniciativa de Avandie de Oliveira – O Príncipe Negro. A primeira edição do evento contou com a participação de prefeitos das cidades de Itajaí, Tijucas, Florianópolis, Criciúma, Laguna, Araranguá, Jaraguá do Sul, Corupá, São Francisco do Sul, Araquari, Rio do Sul, Ituporanga, Lages, São Joaquim, Porto União e Capivari.

Legado de representatividade

Alguns anos depois, Blumenau teve uma representante no concurso Miss Negra Catarinense. Tânia de Souza Rodrigues, na época com 16 anos, disputou a faixa com 11 candidatas. Essa foi a primeira vez que Blumenau participava do concurso. A jovem, que é natural de Curitiba, mas se mudou para Blumenau com 6 anos de idade, recebeu o título de mulher mais bonita do Estado.

Tânia de Souza Rodrigues representou Blumenau no concurso estadual – Foto: Arquivo Histórico de Blumenau/Reprodução/NDTânia de Souza Rodrigues representou Blumenau no concurso estadual – Foto: Arquivo Histórico de Blumenau/Reprodução/ND

“Minha maior conquista, eu como mulher negra, foi ter conquistado o título de Miss em uma cidade considerada tipicamente alemã, e ainda ser lembrada como a primeira negra da história a ter esse título. Fico feliz em ter deixado esse legado de representatividade, servindo de exemplo para mulheres como eu”, disse Tânia em entrevista ao portal ND+.

Tânia relembra que o processo para participar do concurso foi de muita preparação. “Tive ajuda e incentivo de muitas pessoas, mas não posso deixar de citar uma em especial, Caio Cavichiolli, meu grande incentivador, que acreditou em mim e trabalhou minha mente, fazendo eu acreditar que era possível”.

Ela ainda completa que o concurso mudou a sua vida e abriu a visão para novas possibilidades. “Sentimento de validação de capacidade, que realmente era possível estar ocupando aquele lugar. Naquela época era muito difícil ver uma mulher negra participando de um concurso de beleza. Posso arriscar dizendo que era raro. Então, não tinha representatividade. Se eu não tivesse tido muito incentivo, não teria participado do concurso, pois achava que não era um lugar para uma mulher com as minhas características”.

Mulheres negras possuem um papel fundamental na sociedade. A representatividade e a diversidade vem ganhando cada vez mais espaço, tanto na sociedade como em concursos. “Acredito que hoje os concursos de beleza estão mais democráticos. Podemos observar vários tipos de beleza feminina em um concurso de miss, por exemplo. Isso para as meninas que sonham em ser miss ou até mesmo seguir uma carreira de modelo é extremamente importante. Ver alguém que se parece com você em um lugar que você sonha estar é maravilhoso. É saber que um dia também podes ocupar aquele lugar”, afirma Tânia.

E ela completa “eu acho que evoluiu bastante no sentido de abrir espaço para que mulheres e homens negros sejam vistos e ocupem seus lugares. Mas particularmente acho que ainda temos um longo caminho a ser trilhado de aceitação genuína por parte da sociedade”.

Tânia, que hoje mora em Florianópolis, estuda administração e trabalha como secretária executiva em uma empresa do ramo financeiro, comenta que espera ver cada vez mais mulheres negras ocupando espaços que são de direito e sendo reconhecidas igualmente pelo seu valor. “Podemos ver mulheres negras em posição de destaque em várias profissões, na música, no esporte, na política, na arte, etc. Cada uma com certeza tem a sua história de luta para ter chegado onde estão. São grandes exemplos de representatividade não só para outras mulheres, mas para as crianças negras da nossa sociedade”.

Beleza Negra em Blumenau

Valorizando a diversidade étnica e sociocultural, em 2020, Blumenau criou o concurso Beleza Negra. O concurso foi idealizado por Regina Cardoso da Silva, madrinha do evento, e organizado por Marcos Vinicius da Silva. Com o objetivo de enaltecer a beleza negra, valorizar a cultura e estética afro-brasileira, a autoestima, a diversidade étnica e o respeito.

Aline da Silva Ribeiro, enxergou no concurso a oportunidade de poder dar voz a milhares de meninas negras de Blumenau. “Por muitas vezes pensei em desistir, mas estava decidida a mostrar ao mundo que minha cultura é muito mais do que histórias de senzala e escravidão. Existem belezas que vão muito além de corpos bonitos. Meu maior legado é minha resistência e força”, enfatizou a jovem Miss Beleza Negra de Blumenau.

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    Aline da Silva Ribeiro, Miss Beleza Negra de Blumenau - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
    Aline da Silva Ribeiro, Miss Beleza Negra de Blumenau - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
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    Aline da Silva Ribeiro, Miss Beleza Negra de Blumenau - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND
    Aline da Silva Ribeiro, Miss Beleza Negra de Blumenau - Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

Vaidosa, Aline sempre gostou de moda. “Vivia assistindo concursos, então o desejo já estava em meu coração desde muito nova. Com o passar dos anos, por não termos muita representatividade negra nas telas, me sentia muito insegura. Também sofri muito preconceito no dia a dia na sociedade, então tudo pesava de uma forma negativa fazendo com que eu me reprimisse. Felizmente isso foi mudando e quando soube de um concurso de beleza negra na cidade fiquei super empolgada e me candidatei, foi a melhor decisão que tomei pois me deu forças para aceitar quem sou e mostrar que assim como eu consegui, todas conseguiremos”.

Aline participou do concurso em 2022 – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/NDAline participou do concurso em 2022 – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

Uma jornada de auto descobrimento e superação, é desta forma que a jovem blumenauense descreve a sua participação no concurso. “Pude aprender com pessoas maravilhosas e visionárias que criaram este concurso e o realizam com muito amor e dedicação. Foi uma experiência incrível que irei levar comigo pra sempre”.

Encorajando outras meninas, Aline reforça que “não tenha medo dos desafios nem de julgamentos”. A jovem afirma que na sua opinião, mulheres negras ainda não possuem tanta voz e espaço. “Nós sabemos da nossa força e sabemos que nosso lugar é e sempre será onde nós escolhermos estar. Não tenha vergonha das suas origens pois nós nos tornamos pessoas mais felizes quando aceitamos quem somos e mostramos isso ao mundo. Somos negras e somos de todos os tons, mostra sua força e vai ser feliz!”.

Aline participou do concurso em 2022 – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/NDAline participou do concurso em 2022 – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

A jovem acredita que mundo ainda precisa acompanhar a mudança. “Ainda somos vistos como uma beleza ‘ímpar’, diferenciada. Estão aprendendo a lidar com nossos tons de pele e texturas de cabelos, muitos ainda não possuem profissionais especializados em cachos e crespos, ou maquiadores que não nos deixem com a pele acinzentada ou que escondem nossa negritude”.

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