‘Bolsa Família do Tarcísio’: pesquisador do programa federal analisa iniciativa de SP

Alessandro Pinzani, especialista em Bolsa Família, traça pontos em comum e diferenças entre os dois programas

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Adriano Assis São Paulo

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'Bolsa Família do Tarcísio'Projeto que cria o programa apelidado de ‘Bolsa Família do Tarcísio’ foi enviado em maio para a Alesp – Foto: Pablo Jacob/Governo de SP/ND

O Programa de Superação da Pobreza no Estado de São Paulo (SuperAção SP), lançado no dia 20 de maio, rapidamente apelido no meio político de “Bolsa Família do Tarcísio” ainda tramita na Assembleia Legislativa, mas já virou carro-chefe do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em uma eventual candidatura à reeleição ou à presidência. O pesquisador Alessandro Pinzani, especialista em Bolsa Família, analisou a iniciativa estadual.

Professor de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o pesquisador se debruçou, junto a professora Walquiria Rego, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, aos efeitos do programa federal e a dupla lançou o livro “Vozes do Bolsa Família”.

Em conversa com o ND Mais, o pesquisador lembra que só se pode comparar os dois programas quanto a objetivos e propostas, uma vez que o “Bolsa Família do Tarcísio” ainda não saiu do papel. Nesta quarta-feira (4), o projeto de lei que cria o SuperAção SP passou por audiência pública na Assembleia Legislativa (Alesp). Enquanto o Bolsa Família tem 22 anos.

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‘Bolsa Família do Tarcísio’ como complemento

Para Pinzani, o programa estadual não busca rivalizar ou substituir o Bolsa Família. “Ele se serve do CadÚnico [Cadastro Único para Programas Sociais] e tem como público, famílias que já recebem Bolsa Família. É um complemento”, explica.

Assembleia Legislativa sediou audiência pública sobre o SuperAção SP nesta quarta-feira (4) – Foto: Bruna Sampaio/Alesp/NDAssembleia Legislativa sediou audiência pública sobre o SuperAção SP nesta quarta-feira (4) – Foto: Bruna Sampaio/Alesp/ND

O “Bolsa Família do Tarcísio” passaria a atender famílias que não recebem o programa federal na Trilha da Superação, que mira pessoas que estão no CadÚnico, mas não recebem o benefício por não cumprir todos os critérios.

Apesar de ter algumas semelhanças, a inspiração para criação do SuperAção SP não veio do Brasil. “Uma de suas particularidades é o assessoramento individualizado para as famílias. Nisso, ele lembra o programa chileno”, observa o pesquisador. Ele fala do Puente-Chile Solidário, que, de fato, inspirou o programa paulista, segundo o governo.

E essa análise individual de casa família, com criação de trilhas levando em conta a realidade do núcleo familiar, pode ser, na visão do professor, um dos pontos mais positivos do “Bolsa Família do Tarcísio”.

Preocupação com alcance e discurso

“A maior diferença [entre os dois programa] está nos números, sejam recursos ou pessoas atendidas. O programa [SuperAção SP] é bem reduzido, me parece piloto. Talvez, daí, saiam as críticas de ser um programa eleitoreiro”, avalia Pinzani.

Professor Alessandro Pinzani é especialista nos efeitos do Bolsa Família – Foto: Reprodução/Anpof/NDProfessor Alessandro Pinzani é especialista nos efeitos do Bolsa Família – Foto: Reprodução/Anpof/ND

O governo do estado anunciou no lançamento que a primeira fase do “Bolsa Família do Tarcísio”, entre 2025 e 2026, tem como meta de atender 105 mil famílias em situação de extrema pobreza no Estado. São Paulo tem hoje 2,5 milhões de famílias atendidas por programas de transferência de renda.

O pesquisador Alessandro Pinzani assistiu remotamente o lançamento do programa SuperAção SP e viu outros detalhes. “O contexto, tipo de linguagem me chamam muito a atenção. Lembra muito as histórias de superação. Como se o individuo, sozinho, pudesse superar a pobreza”, comenta.

Para ele, o cerimonial, trilha sonora e a forma que foi construído o lançamento, incluindo o discurso do governador Tarcísio de Freitas, teve proximidade com a linha da Teologia da Prosperidade, e tiveram caráter religioso.

O professor defende que o discurso individualiza ao beneficiário do programa a responsabilidade por conseguir o resultado, o que pode causar um possível efeito negativo. “Se a pessoa não sair [da pobreza] é porque não teve fé ou não se esforçou. Coloca um fardo psicológico no beneficiário”, aponta.

Ele lembra que boa parte dos beneficiários do programa Bolsa Família trabalham. Em regiões rurais, parcela significante dos atendidos atua na agricultura de subsistência. Pinzani afirma que a realidade desmente a visão de quem trabalha sai da pobreza. “O que me incomoda, como pesquisador, é o discurso de quem pobre é quem não trabalha”, finaliza.