Botânico diz que país tem “cidades caóticas” e despreza a vegetação nativa

Ricardo Cardim, que mora em São Paulo e veio a Florianópolis para lançamento imobiliário, falou à coluna sobre o paisagismo brasileiro

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Crítico das cidades brasileiras, que considera áridas e mal planejadas, o botânico e paisagista Ricardo Cardim lamenta que a biodiversidade brasileira seja desprezada.

“90% das plantas usadas no paisagismo brasileiro são estrangeiras”, diz. Cardim conversou com a coluna durante o lançamento do D/Yard, novo empreendimento da Dimas Construções no Centro de Florianópolis.

Cardim, que mora em São Paulo, recebeu em 2021 recebeu o Prêmio Muriqui Pessoa Física, uma das principais premiações ambientais do país.

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Ricardo Cardim, botânico e paisagista – Foto: Divulgação/NDRicardo Cardim, botânico e paisagista – Foto: Divulgação/ND

Você diz que nossas cidades, de modo geral, são feias, mal planejadas e que nosso paisagismo usa plantas estrangeiras, apesar da rica biodiversidade brasileira. Como virar essa chave?
Isso passa, primeiro pela educação. A gente já se acostumou a viver num ambiente ruim, árido, e acha isso normal. E isso é paradoxal se considerarmos que vivemos num país com a biodiversidade mais rica do planeta.

Temos um potencial enorme para transformar essa natureza em aliada – pode ser chave para melhorar a saúde pública, para termos cidades mais resilientes às mudanças climáticas, com menos riscos de enchentes, um ar com mais qualidade.

Somos um país que, além de ter cidades caóticas, não usa sua vegetação nativa para a convivência humana. É um atraso, que precisa ser encarado de frente.

É o conceito de parar de querer domar a natureza e sim se associar à ela?
Sim. No século 19 tínhamos estátuas nos parques públicos de pessoas matando bichos. Isso simbolizava a vitória da civilização contra a natureza, que era inimiga do progresso humano.

Hoje sabemos que isso é errado. Chegamos num ponto que agora precisamos refazer esse caminho e entender que precisamos viver em harmonia com a natureza. Esse é um dos grandes desafios das cidades ao longo do século 21.

E sobre as fachadas verdes, quais os principais desafios?
É tudo muito novo. Ainda não temos normas da ABNT que direcionem como fazer uma fachada verde com segurança e qualidade. Outra coisa: no paisagismo, via de regra, não existem grandes estudos sobre a origem da vegetação, suas funções etc, o que leva a muitos espaços negativos e levam a um certo descrédito da fachada.

Também não temos políticas públicas de incentivo. Se grande parte dos prédios tivessem vegetação no entorno, fachada ou cobertura teríamos edifícios que seriam máquinas de qualidade de vida, de dispersão da biodiversidade nativa. E teríamos cidades mais frescas, com ar mais limpo, menos barulhentas etc.