A cada dez casos de feminicídio, sete foram cometidos pelo companheiro ou ex-companheiro de vítimas em 2022. As informações são do boletim “Elas Vivem: dados que não se calam“, produzido pela Rede de Observatórios da Segurança, que reúne sete organizações acadêmicas de sete estados brasileiros.
O país bateu recorde de casos de feminicídio no ano passado, segundo os dados publicados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 699 casos foram registrados entre janeiro e junho, o que representa o total de quatro mulheres mortas por dia.
País bateu recorde de feminicídio em 2022: em briga de marido e mulher, tem que meter a colher – Foto: Freepik/Kamran Aydinov/NDEm entrevista ao Portal R7, a pesquisadora Francine Ribeiro, da Rede de Observatórios da Segurança, conta que os especialistas tinham esperança de que ocorresse uma queda dos casos de violência contra a mulher em razão do fim do isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19, o que não aconteceu.
SeguirA teoria apontava que com a volta das atividades presenciais, o homem passaria menor tempo em casa, o que diminuiria a convivência com a cônjuge, assim, reduzindo os casos de violência doméstica e feminicídio.
Mas de acordo com a delegada Jamila Jorge Ferrari, coordenadora das DDMs (Delegacia de Defesa da Mulher) de São Paulo, após a pandemia, houve aumento da violência em todos os sentidos. Os motivos são fúteis, geralmente porque a mulher bateu o carro do marido ou por conta do som alto.
A delegada apontou que a cada dia, crimes mais violentos ou com requinte de tortura, são praticados contra mulheres. Em Santa Catarina, uma mulher foi torturada pelo namorado, o homem agrediu, mordeu e queimou a vítima com “bitucas” de cigarro, em São Francisco do Sul, no Norte Catarinense, em fevereiro deste ano.
Casos de violência
No último ano, a Rede de Observatórios da Segurança registrou 2.423 casos de violência, ou seja, a cada quatro horas ao menos uma mulher foi vítima de agressão física e verbal, estupro, tortura, ameaça, cárcere privado ou sequestro nos sete estados monitorados. São Paulo é o líder do ranking com 898 casos – um a cada dez horas.
Em Santa Catarina, o Observatório Da Violência Contra A Mulher registrou 56 casos só em 2022. Cerca de 23.308 medidas protetivas foram solicitadas no mesmo ano, em janeiro de 2023, o número de pedidos está em 2.617.
Um caso que ganhou notoriedade negativa no Brasil foi em junho do ano passado, quando a procuradora-geral do município paulista de Registro, Gabriela Samadello, foi espancada pelo colega de trabalho, Demétrius Oliveira de Macedo, após ela abrir um processo contra ele.
Nos primeiros dias de 2023, Santa Catarina registrou o primeiro caso de feminicídio do ano, em São Bento do Sul, Planalto Norte do Estado. Após ferir a esposa provavelmente com uma faca, o homem fugiu do local e ainda levou a filha do casal, a mulher foi socorrida pelo Corpo de Bombeiros, mas não resistiu aos ferimentos.
Outro caso, em Chapecó, Oeste de Santa Catarina, uma mulher foi morta pelo namorado no momento em que chegava para trabalhar em um Centro de Eventos da região. O suspeito de 34 anos tirou a própria vida em seguida.
Em Santa Catarina foram registrado 56 casos de feminicídios – Foto: Arquivo/Divulgação/NDEnquanto, em maio de 2022, uma jovem de 18 anos teve o rosto tatuado à força com o nome do ex-namorado na cidade de Taubaté, interior do estado paulista. O homem que posteriormente foi preso, não aceitava o fim do relacionamento e descumpriu duas medidas protetivas.
Em 2019, foram registrados 58 casos em Santa Catarina que apresentou uma queda em 2022, com 56 casos. Mas se comparar com 2021, o Estado registrou um pequeno aumento, com 55 ocorrências.
Para Francine Ribeiro, há dois fatores principais que explicam o aumento de casos de violência contra à mulher: o machismo e a falta de estrutura. A pesquisadora aponta que o primeiro problema é o sistema patriarcal e essa relação de poder contra o corpo feminino.
“O segundo está relacionado à falta de estrutura. Na periferia, dificilmente tem delegacia 24 horas. Às vezes as mulheres precisam viajar mais de 40 km para fazer uma denúncia. Você vê que o estado falhou”, afirma Francine.
A coordenadora das DDM’s de São Paulo, acredita que o aumento dos registros de boletins de ocorrências e medidas protetivas por violência doméstica são positivos e não necessariamente indicam um incremento no número de casos.
“A vítima está confiando mais na polícia, pedindo ajuda. A preocupação é quando aumentam os casos de feminicídio”, diz.
Motivação
As brigas, términos de relacionamento e o ciúme são indicados como as principais motivações que levam ao feminicídio. A delegada rebate que, no fundo, a causa é o machismo estrutural que está enraizado na sociedade.
“Desde pequenos são ensinados que não podem chorar porque é coisa de menina, que mulheres não podem ter certas profissões, entre outras coisas. São pequenas situações que estão no nosso dia a dia”, aponta a delegada.
Os dados também mostram que a violência também está concentrada nos lares brasileiros, onde as mulheres convivem com os companheiros e agressores. Segundo as especialistas ouvidas pelo R7, o momento em que as vítimas rompem a relação ficam mais vulneráveis a situações de violência.
O portal do TJSC (Tribunal de Justiça de Santa Catarina), conta a história de Mariana, que após sete anos casada, suportando situações de ameaças, insultos, humilhações, chantagens, vigilância constante e surras, decidiu fugir do marido.
Mesmo sem dinheiro ou destino definido, ela foi a uma agência de viagens para conferir o preço das passagens, talvez pela aparência “magra” ou pelo tom de voz, o atendente percebeu que havia algo errado e sem perguntar nada, lhe entregou um folder sobre violência doméstica contra a mulher.
“Vivemos uma pandemia dentro da outra”, alerta Comissão de Combate à Violência Doméstica da OAB/SC – Foto: Divulgacão/JusCatarina/NDAo voltar para casa, o marido quis saber onde e com quem estava, como ela não lhe disse nada, o homem deu uma surra em Mariana, ela gritou por socorro, mas como em outras vezes que apanhou, ninguém a ajudou.
Mariana conseguiu se desvencilhar do marido e se trancou dentro de um quarto e, durante três dias e três noites, ela ficou escondida no lugar. Só foi resgatada quando uma amiga que sabia os casos de violência sentiu a falta dela e acionou a polícia. Assim, Mariana foi resgatada.
A delegada Jamila aconselha que é essencial a vítima contar com uma rede de apoio familiar e de amigos, além de serviços de acolhimento, de assistência psicossocial e de geração de renda ofertados pelo poder público para garantir a retomada da própria vida.
“Falta a prevenção da violência contra a mulheres e a concessão de ferramentas para libertá-las. Em briga de marido e mulher, tem que meter a colher e trazer medida protetiva”, finaliza Ribeiro.
O mês de março é marcado pelo dia das mulheres, se você que está lendo essa reportagem está sofrendo alguma situação de violência física ou verbal, denuncie, você não está sozinha.
*Com informações do Portal R7