Carnaval 2022 Preto! Por que a maioria das escolas irá falar sobre racismo e sambistas negros?

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Amanda Santos Florianópolis

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Começaram os desfiles das escolas de samba no Rio e em São Paulo. Desde quarta-feira (20) as avenidas apresentam suas agremiações. Primeiro o palco abriu alas para as escolas do Grupo de Acesso. E hoje iniciam os desfiles das escolas do Grupo Especial.

Desfile da Mangueira em 2019 – Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil/DivulgaçãoDesfile da Mangueira em 2019 – Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil/Divulgação

Fato totalmente inusitado já que estamos em abril. O Carnaval foi adiado por conta da pandemia, logo depois de ter sido cancelado em 2021 pelo mesmo motivo. O maior espetáculo da terra silenciou a sua voz por dois anos, mas parece que clama por enviar mensagens de garra, resistência e tradição.

A jornalista, doutora e mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP Claudia Alexandre (profissional que admiro muito) afirmou em entrevista que “os desfiles nada mais são do que veículos para a crítica social, denúncias e um espaço de exaltação dos povos marginalizados da história do Brasil.”

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E é verdade! Apesar de ser considerada por muitos uma festa de bagunça, as avenidas e passarelas espalhadas por todo o país se transformam em palco para retomar histórias que foram consagradas ou excluídas de nossa nação. É uma aula a céu aberto que vem de pesquisa, estudo e que gera, além do espetáculo, também emprego e renda.

Este ano, das 12 escolas cariocas, seis abordam personalidades negras, cultura afro-brasileira, dando protagonismo total a nós. Em São Paulo, sete escolas farão o mesmo. A negritude estará em destaque na avenida dando ao público uma verdadeira aula de história afro. Será uma imersão gigantesca da nossa cultura e ancestralidade.

Toques da bateria e ancestralidade

A título de curiosidade… Esse show de cultura popular que acontece na maioria dos estados brasileiros surgiu na periferia, dentro das comunidades, no interior… E com ligações profundas com as religiões de matriz africana.

De acordo com a jornalista Claudia Alexandre – entre outros pesquisadores que estudam o tema -, a inserção religiosa e cultural é vista, por exemplo, nos toques de base das baterias. Isso porque antigamente eram fundamentados nos toques sagrados dos orixás patronos das escolas –  o que ainda se nota nas baterias das escolas de samba tradicionais do Rio de Janeiro como Portela, Mocidade e Mangueira.

Outra afirmação é referente à carismática ala das baianas. Antigamente era composta por ialorixás, pelas tias do samba – primordiais para a resistência da opressão sofrida pelo estilo musical. Percebam que interessante a nossa contribuição! As escolas de samba são, portanto, um território negro de origem e de direito, que encanta todos nós independentemente de credo, cor, religião ou opinião.

Além das irreverentes e tradicionais baianas, o protagonismo negro feminino está presente na Porta-bandeira, que é cortejada pelo Mestre-sala. Ela leva a força de conduzir o pavilhão e apresenta-lo à grande massa. Na bateria, a Rainha é quem dita as regras… Ela abre alas para o coração da escola. Muitas dessas rainhas são um show à parte.

Protagonismo negro feminino

Este ano, duas mulheres negras de sobrenome Jesus serão referenciadas na avenida. Ambas em escolas de samba de São Paulo.

Escritora Carolina de Jesus e cantora Clementina de Jesus – Foto: Jornal Rascunho 2/Mundo Negro/DivulgaçãoEscritora Carolina de Jesus e cantora Clementina de Jesus – Foto: Jornal Rascunho 2/Mundo Negro/Divulgação

Nesta sexta, a escritora Carolina de Jesus será homenageada pela escola de samba Colorado do Brás, segunda escola a desfilar. Confesso que Carolina é inspiração para mim. Foi uma das primeiras autoras negras publicadas no Brasil. Teve sua vida atravessada pela miséria e pela fome. Transformou toda a dor e dificuldade em livro, algo que ela mesma relata que a impulsionava a resistir a tudo.

Tive a oportunidade de ler o livro ‘Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada’, publicado em 1960, junto de uma das mulheres mais incríveis que já conheci (depois de minha mãe e Carolina): dona Ayesha Polidoro, viúva do ícone Dakir Polidoro e bisavó do meu segundo filho, Gael. A única avó que tive. Avó do coração! Um exemplo… Uma rocha. Aliás, me considero uma mulher de sorte por ter a honra de somar momentos de descoberta e empoderamento com tantas referências negras que conheci.

Dona Ayesha tem 89 anos e não enxerga. Eu lia todas as quartas-feiras para ela – Foto: Amanda Santos/Arquivo Pessoal/NDDona Ayesha tem 89 anos e não enxerga. Eu lia todas as quartas-feiras para ela – Foto: Amanda Santos/Arquivo Pessoal/ND

Voltando ao Carnaval, a Mocidade Alegre – também de São Paulo – vai contar a história da sambista Clementina de Jesus. Dona Clementina era conhecida como Tina ou Quelé. Deixou um grande legado no resgate dos cantos negros tradicionais e na popularização do samba. Sua trajetória foi considerada um importante elo entre a cultura do Brasil e da África.

Estou ansiosa. Fora isso, ainda teremos um debate super importante que será apresentado pelo Grupo Especial do Rio e São Paulo. Sete escolas vão questionar o preconceito e apresentar as religiões de matriz africana. É o silêncio sendo quebrado de forma democrática e consistente. Através da arte, da cultura, do samba, da nossa identidade.

De apropriação cultural ao embranquecimento das escolas

Com o passar dos anos, o Carnaval de avenida vem sofrendo com diversas influências que passam por cenários políticos, de apropriação cultural e midiatização. Esse movimento foi levando ao afastamento de personalidades negras e das comunidades em diversas escolas.

Como resultado, fica cada vez mais evidente o protagonismo apenas branco em postos que antes eram reservados à comunidade (geralmente negra). Exemplos ocorrem nas lideranças, diretores, compositores, musas e rainhas de bateria.

Isso é ruim? Depende: se pensarmos na ancestralidade e no “carnaval raiz”, pode ser.

“Revolução” na Paraiso da Tuiuti

Recentemente tivemos uma “revolução” no reinado da bateria da Paraiso do Tuiuti. Mayara Lima era a Princesa da escola. Posto dividido com uma Rainha de bateria que não tinha o samba no pé – e cujo cargo havia sido comprado (como acontece com bastante frequência, infelizmente).

Mas o gingado de Mayara, menina negra e de comunidade, não deixou dúvidas – nem para quem não entende nada de samba ou Carnaval. Ela brilhou tanto no ensaio técnico que um vídeo viralizou e a história chegou às manchetes do país. A escola não teve outra opção que não reconsiderar quem era de fato a Rainha.

Assista abaixo a sincronia de milhões! É de encher os olhos de qualquer um:

Expectativa catarinense para o Carnaval 2023

Dito isso, por aqui não tivemos os tradicionais desfiles. Mas sei que 2022 segue repleto de garra e sangue nos olhos. Ainda estamos com uma Liga incerta para a tomada de decisões sobre o futuro do nosso Carnaval, mas sigo esperançosa.

Aproveito para parabenizar ações realizadas em agremiações locais como Unidos da Coloninha, que abriu o estádio Orlando Scarpelli com um desfile “diferente” e lindo. O Copa Lord que segue promovendo ações dentro da quadra. Bem como a Consulado do Samba e os Protegidos da Princesa.

Parabenizo também (algo que já citei na coluna) a Dascuia, que recentemente elegeu duas mulheres para a presidência. E por meio delas também comemoro e agradeço outras agremiações que enfrentam as adversidades e seguem seu cronograma em prol da resistência do Carnaval de Florianópolis – assim como repito o gesto com todas as escolas que seguem sua agenda por todo o Estado.

Quanto a nós, mulheres negras catarinenses, o pensamento é de ocupação. Vamos aparecer mais frente as nossas agremiações.  Sigamos firmes. Vamos em frente! Já estamos em abril…2023 ta aí! Trabalhando duro conseguiremos sair da UTI da cultura e respirar sem o auxílio de  aparelhos. Somos resilientes! Bora recomeçar!

Abaixo as escolas que irão apresentar um enredo negro:

Rio de Janeiro

Sexta-Feira (pela ordem dos desfiles):

  • (2ª escola) – Mangueira: “Angenor, José e Laurindo” – homenageia os ícones mangueirenses Cartola, Jamelão e Mestre Delegado.
  • (3ª escola) – Salgueiro: “Resistência” – enredo que reúne pontos de resistência cultural preta.
  • (6ª escola) – Beija-Flor: “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor” – enaltece a história preta e aborda o racismo.

Sábado (pela ordem dos desfiles):

  • (1ª escola)- Paraíso do Tuiuti: “Ka Ríba Tí Ÿe – Que Nossos Caminhos Se Abram”. Falando um pouco sobre a cultura negra e também o sangue que corre em nossas veias de Mandela e de Zumbi.
  • (2ª escola) – Portela: “Igi Osè Baobá” – conta a história e a importância da árvore africana Baobá.
  • (5ª escola)- Grande Rio: “Fala, Majeté! Sete chaves de Exu” – aborda Exu enquanto divindade africana e entidade afro-brasileira das religiões de matriz africana.

São Paulo

Sexta-feira (pela ordem dos desfiles):

  • (2ª escola) – Colorado do Brás: “Carolina – A cinderela negra de Canindé” – uma homenagem à escritora Carolina de Jesus.
  • (6ª escola) – Acadêmicos do Tatuapé: “Preto Velho. Conta a saga do café num canto de fé” – o enredo fala sobre a falange dos Pretos Velhos, entidades da Umbanda e que traz muito sobre a história escravagista no país.

Sábado (pela ordem dos desfiles):

  • (1ª escola) – Vai-Vai: “Sankofá” – explica sobre a importância de Sankofá, um ideograma adinkra representado por um pássaro sagrado e que traz ensinamentos de vida dos povos acã, da África Ocidental.
  • (2ª escola) – Gaviões da Fiel: “Basta” – samba-enredo de protesto sobre o racismo.
  • (3ª escola) – Mocidade Alegre: “Quelémentina cadê você?” – homenageia a sambista Clementina de Jesus.
  • (4ª escola) – Águia de Ouro: “Afoxé de Oxalá – no cortejo de Babá, um canto de luz em tempo de trevas” – tema inspirado na canção “Cortejo de Babá / Afoxé pra Oxalá”, do escritor Luiz Antônio Simas, que retrata sobre a divindade Oxalá, das religiões de matriz africana.
  • (5ª escola) – Barroca Zona Sul: “A evolução está na sua fé… Saravá Seu Zé!” – conta sobre a falange da Malandragem, presente nas religiões Umbanda e Catimbó.