O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou em dezembro a identificação étnico-racial da população apurada durante o Censo de 2022. O estudo apontou que, em Joinville, o número de habitantes pretos e pardos dobrou na cidade.
Atualmente, Joinville tem mais de 616 mil habitantes – Foto: Joshua Mcknight/PexelsDe acordo com o Censo de 2010, Joinville possuía 57.861 moradores autodeclarados pardos. Este número aumentou 107,80%, passando para 120.284 em 2022. No caso da população preta, o número subiu para 94,48%, subindo de 13.128 para 25.532 nos últimos doze anos.
Os números da população parda e preta representam, respectivamente, 19,50% e 4,1% da população total de Joinville, que chegou a mais de 616 mil habitantes, conforme o Censo de 2022.
SeguirEnquanto isso, o número de pessoas autodeclaradas brancas subiu 6%. Apesar do crescimento menos significativo, dados do IBGE apontam que a maioria da população joinvilense ainda é branca, com 76% das autodeclarações.
Para Rhuan Carlos Fernandes, pesquisador e membro do Movimento Negro Maria Laura de Joinville, o crescimento das autodeclarações de pardos e pretos na cidade se dá por diversas razões, entre eles o processo migratório e de identificação.
Rhuan cita a promulgação da Lei 10.639/2003, que instituiu “o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil” nas escolas.
“Se afirma a discussão das cotas nas universidades e a entrada em massa [de negros] a partir 2012, que a lei é aprovada. Isso melhora o conjunto, mesmo que pequeno, de entrada da universidade da população preta e fortalece a sua identidade”, diz o pesquisador.
Importância de se identificar como negro
A questão da identificação é importante, aponta Rhuan, pois ainda hoje, as pessoas deixam de se autodeclarar como negros devido à população estar mais às margens da sociedade, resultado da escravidão vivenciada por centenas de anos na história do Brasil.
“Tem até um autor, o Cláudio Moura, que diz que a população negra não tem direito, tem uma cidadania incompleta. Porque, se falta transporte público, falta saúde, a gente é mais encarcerada. Como é que essa galera tem direito de cidadania?”, cita Rhuan sobre a falta de oportunidades e direitos da população negra.
“É uma história de hiperexploração da população negra em condição de escravizado, que gera lucro para as pessoas brancas e seus descendentes. E aí, sobra para os descendentes das populações negra os piores índices”, destaca.
Censo pode servir de base para mudanças
O pesquisador lembra que, ao longo de muitos anos, o movimento negro em Joinville reivindica a identidade negra na cidade como a ampliação das discussões e conquistas de direitos. São pontos como o retorno do Carnaval, apoio às escolas de samba e o Kênia Clube, herença do povo negro, reconhecido como patromônio cultural.
Ainda assim, o Censo de 2022 poderá servir como fonte para aumentar ainda mais o acesso aos serviços públicos pela população negra, agora com número ainda mais expressivo em Joinville, acredita o pesquisador.
Para Rhuan, os dados poderão reafirmar a necessidade de pensar a cidade também para a população negra com suas especificidades. “Acesso à saúde, por exemplo. Joinville ainda está patinando em um protocolo de atendimento às doenças ligadas à população negra. Isso demonstra que a gente precisa caminhar, ter uma atenção nesse sentido, e eu acho que esses dados podem auxiliar”, comenta.
Além disso, o pesquisador cita o fortalecimento da cultura negra na cidade, como o hip hop, o samba e o grafite. “A gente quer mudanças estruturais porque envolve diretamente a vida das pessoas. Assim como o fluir da cultura envolve a vida e a identificação, a memória e a história das pessoas, a saúde e a educação envolvem isso também”, lembra.
Outros números do Censo
De acordo com o Censo 2022, a população preta cresceu em 68,8% em Santa Catarina, se comparado a 2010. Ainda assim, a proporção permanece a menor do país: 309,9 mil pessoas se declararam de cor ou raça preta entre a população residente catarinense de 7,6 milhões de pessoas. O estado manteve o menor percentual de pessoas pretas (4,07%) e é o segundo estado com a maior população branca do Brasil, com 76,28%.
Enquanto isso, o país tem a maioria de seus habitantes autodeclarados pardos, com 45,3%, seguidos de brancos (43,5%), pretos (10,2%), indígenas (0,6%) e amarelos (0,4%).