Uma furadeira centenária, roda de carroça, arado, lampião e plantadeira manual. Quais dessas peças históricas você conhece? Rufino da Fonseca, de 91 anos, guarda todas em um pequeno museu da propriedade. O espaço fica na linha Boa Vista, no interior de Chapecó, Oeste de Santa Catarina.
Em seu acervo, Rufino também tem diversos itens em couro de boi que ele mesmo faz. Com entusiasmo, o colecionador explica o trabalho por trás dos detalhes do relho, do buçal e dos chicotes que aprendeu com o pai. Os itens são utilizados para o manejo com os cavalos, uma outra paixão deste incansável senhor.
Objetos históricos
O pequeno museu está instalado em uma das cocheiras onde ficam os cavalos. Um dos itens mais antigos do espaço é uma furadeira manual. A peça tem cerca de 100 anos e foi comprada pelo pai de Rufino.
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Rufino mostra a furadeira antiga – Foto: Angela Bueno/NDOutro objeto histórico é uma roda que fez parte da primeira carroça do morador. Com cerca de 110 anos, o item auxiliou a família de Rufino em diversas mudanças, principalmente até Formosa do Sul.
O lampião de gás, pendurado em um dos cantos da cocheira, está apagado, porém guarda traços de um tempo quando a energia elétrica ainda não era uma realidade. “Além de iluminar os locais, ele era utilizado no aviário com aves pequenas. Só desliguei quando instalaram a luz”, conta o senhor.
Claro, não poderia faltar no espaço a famosa plantadeira manual. Rufino conta que um dos aparelhos ainda funciona e pode ser utilizado. “Hoje eu uso essa aqui com duas caixas, pois você coloca semente em um lado e o adubo em outro”, revela.
As tropeadas de Rufino
Pendurada bem próxima ao lampião, há uma capa de chuva. Esse é um dos itens que guarda as memórias mais lindas de Rufino: as cavalgadas ou ‘tropeadas’, como ele gosta de chamar.
Ao longo da vida foram mais de 20 longas viagens com duração mínima de três dias. A mais demorada foi até o município de Iraí, no Rio Grande do Sul. Rufino se reunia com os amigos e pegava a estrada com os cavalos.
Rufino mostra as fotos antigas e relembra os bons causos – Foto: Angela Bueno/NDA cavalgada era um momento de lazer e descontração para os apaixonados pelo animal, assim como Rufino. O ato também é uma tradição e manifestação cultural realizada no país. Durante o trajeto, os cavalarianos paravam em CTGs (Centro de Tradições Gaúchas) para dormir e preparar os alimentos.
A lida não era fácil
O senhor de muitos “causos” relata que a vida era ‘bruta’ e a lida não era fácil. Os objetos, que hoje descansam no museu, trabalharam muito nas roçadas e no plantio dos alimentos da família.
Ele nasceu na linha Faxinal dos Rosas, também em Chapecó, mas aos sete anos se mudou para Boa Vista, terras do avô, onde vive até hoje. Rufino casou-se aos 23 anos com Luiza Oliveira da Fonseca. O casal teve dez filhos e sete estão vivos.
Ele já participou de algumas entrevistas sobre as vivências quase centenárias. Porém, contou um detalhe que nunca havia revelado: foram três anos de namoro com Luiza sem nunca dar um beijo na namorada, pois o sogro sempre estava de olho. “Não dava nem para pegar na mão”, brinca.
Em compensação, a conquista foi muito fácil. Durante um baile, Rufino tirou a jovem para dançar. “Pedi se queria namorar comigo e ela disse que sim, então, já nos acertamos”. Desde então, o casal celebra 66 anos de casados.
Objetivo do museu
A nora de Rufino, Sonia Fonseca, destaca que o desenvolvimento do espaço foi pensado para as próximas gerações. O resgate histórico das memórias afetivas é muito importante para a família e ela está à frente do projeto.
Em breve, Sonia pretende abrir o espaço para visitas de escolas e da comunidade. Mas, os interessados já podem conhecer o espaço.
Ainda, Sonia registra os causos do vô Rufino em um caderno, pois o desejo é que eles sejam eternizados em um livro com as histórias de vida do aposentado.