A grossa camada de barro sobre as calçadas e as montanhas de lixo, que não cabem mais em containers, transformam o visual de bairros atingidos pelas inundações que assolam o Rio Grande do Sul pela terceira semana consecutiva. Além da vista, o cheiro abominável completa o cenário.
A casa do engenheiro mecânico Luciano ficou toda enlameada – Foto: Vivian LealApós quinze dias longe de casa, o engenheiro mecânico, Luciano, conseguiu entrar na casa em que mora há doze anos, na zona norte da capital gaúcha. Com a ajuda de um lava-jato, ele tenta limpar a calçada, enquanto a esposa e a filha retiram pertences destruídos pela água.
“Eu tive que pedir férias na empresa em que trabalho pra me dedicar à limpeza e recuperação da casa. A gente vai tentar deixar habitável, o mais rápido possível. Enquanto não tirar todos os móveis que estão contaminados, esse cheiro vai permanecer muito tempo. Estamos usando água sanitária, produtos. Não dá pra desistir, né!?”, conta.
Luciano e sua família recorrem a um lava-jato para limpar a sujeira deixada pela enchente – Foto: Vivian LealO empresário Charles Lüdcke se emociona ao ver o bairro Sarandi, onde cresceu, ser devastado pelo água. “Eu me criei nessa rua, ali na esquina era um mercadinho e a dona do mercado me dava bala, só de pensar já arrepia. Eu já vi tanta coisa diferente aqui, agora desse jeito é muito triste”, conta à reportagem.
Ele esteve na casa dos pais e dos avós, e deu de cara com um cenário perturbador. O acesso à empresa, que fica a poucas quadras dos imóveis, ainda não é possível pelo nível da água.
Charles se emociona ao ver o estado que ficou seu bairro – Foto: Vivian Leal“Eu tenho duas casas e uma empresa pra limpar, estou procurando pessoas de tudo que é lugar que queiram trabalhar só por diária, ou até mesmo, por trinta dias, porque vai demorar muito. Esse cheiro é muito incômodo e também não sei quando vai sair porque esse cheiro vem da rua inteira”.
Cheiro de peixe com esgoto
Basta caminhar algumas quadras, da região central de Porto Alegre, para perceber que o mau cheiro é parte do rastro de destruição causada em diversos bairros.
Cheiro do Mercado Público de Porto Alegre ficou insuportável – Foto: Ascomepc/DivulgaçãoO Mercado Público, no coração da Capital, foi vistoriado nesta terça-feira (21) e, conforme relatos de quem esteve no local, o cheiro era “insuportável, uma mistura de peixe com esgoto”.
Alguns móveis foram retirados e os lojistas devem ser recebidos, na quinta-feira (23), para acompanhar o início dos trabalhos de limpeza. A prefeitura da capital estima reabertura em, no mínimo, trinta dias.
A cerca de um quilômetro do Mercado Público, esgoto corre a céu aberto no bairro Cidade Baixa – Foto: Vivian LealO cenário se repete por quase toda área costeira do Centro Histórico, que ficou cerca de quinze dias submersa e sem luz.
A Rua dos Andradas, onde fica a Casa de Cultura Mário Quintana, um dos principais pontos turísticos da região, está cercado por lama. A limpeza e retirada total dos detritos não tem prazo para ser concluída.
Marca de lama carimba Casa de Cultura Mário Quintana – Foto: Vivian Leal