Ciranda Solidária já distribuiu mais de quatro toneladas de alimentos

Projeto iniciado por uma família do bairro Trindade beneficia dezenas de moradores da comunidade do Morro da Penitenciária

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Itajaiense radicada em Florianópolis desde que casou, há 23 anos, a advogada Vanessa Schlickmann morou em Canasvieiras e no Centro, até se mudar, em março de 2020, para uma casa na Trindade, em uma rua de acesso ao Morro da Penitenciária. “Costumo falar que sou mais manezinha que muitos nascidos aqui”.

A região, habitada historicamente por familiares de detentos, ex-detentos e funcionários do Complexo Prisional, que teve a primeira unidade inaugurada em 1930, recebeu também ao longo do tempo moradores vindos do Rio Grande do Sul, Nordeste, Haiti e outras procedências.

Era início da pandemia do novo coronavírus. Logo, os pedidos por roupa e comida à sua porta começaram.

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Junto do marido, o administrador de empresas Edemilson Krauss, e do filho, Vinicius Schlickmann Krauss, hoje com 17 anos, Vanessa passou a ajudar a comunidade vizinha, deixando uma mesa com donativos em frente ao seu endereço.

Um grupo de amigos se uniu a eles para arrecadar alimentos e fazer a entrega na garagem da residência. Surgiu, então, a Mesa Solidária, que tem fornecido, semanalmente, de 200 a 250 quilos de comida a cerca de 35 famílias. O projeto cresceu, atendendo também de outras formas, e se tornou Ciranda Solidária.

Além do alimento, que no total já passou de quatro toneladas distribuídas, são doados roupas, cobertores, calçados, brinquedos, móveis, eletrodomésticos, utensílios para o lar, itens de higiene pessoal, material de limpeza, como também oferecidos corte de cabelo e impressão de currículos.

Vanessa Schlickmann, criadora da Ciranda Solidária – Foto: Divulgação/NDVanessa Schlickmann, criadora da Ciranda Solidária – Foto: Divulgação/ND

Como surgiu a Mesa Solidária?

Desde que nos mudamos para a nossa casa, que fica no início da rua de principal acesso à comunidade, muitas pessoas batiam à minha porta, pedindo alimentos, roupas, e eu e minha família nunca negamos auxílio a ninguém. Passamos a comprar alimentos que sobrepujavam a nossa necessidade, já com o intuito de ter o que doar quando solicitado. A pandemia foi se agravando, o desemprego aumentando, as doações e auxílios governamentais minguando e o desespero se instalou na comunidade.

Decidimos montar uma mesa na frente de casa, sempre que possível, e ali deixávamos a disposição ora alimentos, ora outros itens, tais como roupas, calçados, roupas de cama, cobertores, cortinas, persianas, brinquedos, livros, utensílios de cozinha (como havíamos nos mudado recentemente, a cada caixa da mudança que abríamos, separávamos objetos para doação).

Após, alguns amigos souberam e adotaram a iniciativa, arrecadando alimentos, e assim surgiu a Mesa Solidária, em que doamos alimentos à comunidade, todos os sábados, às 14h, na garagem da minha residência.

“Passamos a conversar com as pessoas, entender melhor as necessidades, e concluímos que são carentes de tudo”

Aí se tornou Ciranda Solidária. O que difere da ação anterior?

Às sextas-feiras à noite, já colocamos um cartaz no muro da minha casa, avisando quantas senhas serão disponibilizadas no dia da doação. A comunidade, em um movimento natural, passou a chegar mais cedo para garantir sua senha, sendo que a fila começa a se formar por volta das 11h. Desta forma, visando o mínimo de bem-estar a essas pessoas, de meia em meia hora, um membro da equipe passa pela fila oferecendo água fresca.

Com esse contato mais próximo, passamos a conversar com as pessoas, entender melhor as necessidades, e concluímos que são carentes de tudo. Em reunião com os amigos (equipe), resolvemos ampliar as ações, pelo menos, até o fim da pandemia, o restabelecimento da economia e a volta de ofertas de emprego. Para incrementar, passamos a oferecer a elaboração e impressão de curriculum vitae a quem necessita, limitando-se a 10 cópias por pessoa.

Fila para retirar donativos da Ciranda Solidária se forma cedo – Foto: Divulgação/NDFila para retirar donativos da Ciranda Solidária se forma cedo – Foto: Divulgação/ND

Quais as outras formas de auxílio prestadas?

Lançamos a campanha Desapegue, para arrecadação de roupas, sapatos, cobertores, roupas de cama, utensílios de cozinha, brinquedos, entre outros. Também oferecemos sabonete e sabão líquido artesanal e corte de cabelo, pois entendemos que a pessoa precisa estar com a aparência asseada, de modo a empoderar-se e assim obter mais chances de conseguir se recolocar no mercado de trabalho.

Moradores da comunidade do Morro da Penitenciária entenderam a importância de levar somente o necessário – Foto: Divulgação/NDMoradores da comunidade do Morro da Penitenciária entenderam a importância de levar somente o necessário – Foto: Divulgação/ND

Quantas pessoas estão envolvidas na execução do projeto e quais as tarefas delas?

Meu marido, meu filho, que abraçaram o movimento desde o início, e meus queridos amigos André Rodrigues de Oliveira, Danielli Stähelin Boeing, Rodrigues Viana, Giseli Silva, Adriana Lino e Israel Jucélio.

Nos dividimos entre as tarefas de divulgar a Ciranda para conseguir doações, essas que vêm em forma de alimento, como também por depósitos bancários; idas semanais ao supermercado para a compra de alimentos; porcionar alguns alimentos que necessitem; montar e organizar a mesa solidária; fotografar todas as ações para enviarmos aos queridos doadores; atender na mesa, oferecendo os alimentos (pois o lema é levar somente o que necessita, e a comunidade desde o início já entendeu e comprou a ideia); monitorar e organizar a fila, pedindo distanciamento social e uso de máscara.

Nós oferecemos um determinado número de senhas, que varia conforme a arrecadação de alimentos da semana. Mas, por óbvio, o número de pessoas na fila ultrapassa as senhas ofertadas. Entretanto, eles sempre permanecem, pois com a empatia das pessoas que possuem senha, de levar somente o necessário, sempre sobra algum alimento para os que persistiram na fila reabastecerem a mesa durante a ação.

Da esq. para dir.: Giseli Silva, Danielli Stahelin Boeing, Vanessa Schlickmann, Rodrigues Viana, Vinicius Schlickmann Krauss e Edemilson Krauss, parte da equipe da Ciranda Solidária – Foto: Divulgação/NDDa esq. para dir.: Giseli Silva, Danielli Stahelin Boeing, Vanessa Schlickmann, Rodrigues Viana, Vinicius Schlickmann Krauss e Edemilson Krauss, parte da equipe da Ciranda Solidária – Foto: Divulgação/ND

Por que criar mais uma ação de auxílio a famílias de baixa renda ao invés de colaborar com outras semelhantes já existentes?

Por óbvio, o povo brasileiro hipossuficiente economicamente vem sofrendo sobremaneira em virtude da pandemia, em todos os aspectos, e com isso a procura por ajuda aumentou. Felizmente, ampliou-se também a corrente do bem, com muitas ações semelhantes. A minha escolha em auxiliar essa comunidade foi apenas pela proximidade e por vislumbrar o pedido de socorro a cada pessoa que batia em meu portão, suplicando por ajuda.

Para as pessoas se doarem a causas sociais e fomentar que os outros doem, e se doem, há um fator. O que te moveu? É um chamado antigo?

O chamado é antigo, sim. Desde criança, sempre estive envolvida nas causas sociais da paróquia que eu frequentava, auxiliando e encabeçando diversas ações beneficentes.

Como as pessoas podem colaborar com a Ciranda Solidária?

Enviando mensagem pelo WhatsApp: (48) 99617-1489.