O aniversário de Criciúma poderia ser contado e celebrado de muitas formas. A cidade, que já se chamou “Cresciuma” e viveu unicamente da agricultura, do pequeno comércio e da extração do carvão, completa 143 anos nesta sexta-feira (6) e transformou-se na principal potência do Sul catarinense.
Criciúma sempre teve boas histórias para se orgulhar e, por trás delas, ícones que marcaram e fizeram parte, de alguma forma, do passado da cidade. Eles representam um pouco do que é ser criciumense, seja escrevendo para colunas sociais, educando para além da sala de aula ou vendendo pipoca na praça.
Cintia Santos, Zuleide Herrmann e Deoclecio Cechinel são símbolos de Criciúma – Foto: Ulisses Job/Divulgação/NDSímbolo do glamour, Zuleide Herrmann é figura marcante da história de Criciúma
Um desses exemplos é Zuleide Herrmann. Quem a conhece não poupa elogios e refere-se à musa do colunismo social em Criciúma com muito carinho. “Alma simples e dona de um coração gigante”: este é um comentário comum quando se fala o nome da empresária em uma roda de conversa na cidade.
Admirada por muitos, Zuleide repaginou o colunismo social em Criciúma. A cidade, além de ser reconhecida como capital brasileira do carvão, tem um público assíduo das colunas. As notas sobre socialites, milionários, figuras excêntricas e eventos badalados fazem sucesso entre os moradores.
Zuleide está nesta área há mais de 40 anos. A empresária acumulou experiência como colunista em Londrina, no Paraná, onde morou com o marido por dez anos e criou três filhas.
“Na época, o jornal tinha um suplemento que gostava muito: o Folhinha da Sexta, que dava atenção aos eventos sociais, bares, restaurantes, tudo que envolvesse a sociedade”, lembra.
Mesmo morando em outro estado, as raízes de Zuleide estavam fixadas em Criciúma. Quando ela visitava a cidade em datas especiais, lia os jornais produzidos na região e sentia falta do que era feito lá em Londrina.
Zuleide Herrmann, um marco do colunismo social em Criciúma – Foto: Ulisses Job/Divulgação/ND“Não via algo tão inovador quanto esse suplemento. Jornais da época, principalmente os da região, tinham muitas notícias com poucas fotos. Jornal era mais escrito do que ilustrado”, compara.
Quando voltou para Criciúma, em 1980, a empresária decidiu, então, comprar com o marido o jornal Correio do Sudeste. O casal investiu os dólares que havia recebido com a venda das fazendas na aquisição. A decisão veio após eles perderem duas colheita de soja e trigo pela geada preta fora de época, em Londrina.
“Foi então que surgiu a ideia de lançar um suplemento, o Toda 6ª, com oito páginas, sob minha responsabilidade. Trabalho lindo, elogiado e parabenizado por muita gente. Dávamos cobertura de desfiles de modas, 15 anos, bailes de debutantes, bodas, bares, e completava com entrevistas com médicos, cabeleireiros, dicas valiosas. Era um suplemento que me dava muito orgulho”, relembra Zuleide.
Pouco tempo depois, o Correio do Sudeste foi vendido. O casal, mais tarde, montou o Jornal da Manhã e repetiu a fórmula de sucesso. “Tudo nos mesmos moldes. Fazia com muito amor e dedicação. Ficamos com ele alguns anos e depois vendemos, mas continuei no jornal fazendo uma página pelo menos de sociedade e estou aí até hoje”, conta.
Atualmente, a empresária tem duas colunas diárias em um jornal da cidade e se arrisca nas redes sociais como influenciadora digital. “Tive que aprender para entrar no clima. Não poderia ficar para trás. Não sou essa pessoa desanimadora. Vou em frente aprendendo tudo. Faço com carinho e do meu jeito. Coloco tudo ao natural, sem cortes”, revela.
Para Zuleide, há algumas explicações para o sucesso do colunismo social em Criciúma. “As pessoas gostam de ler sobre outras pessoas, de ver fotos, ou muitas vezes de ver o circo pegar fogo, ou seja: falar mal deste ou daquele. Hoje convivo muito bem com todos. Não tenho inimizade com ninguém. Sou do bem”, diz.
O relato de quem ama Criciúma
Bisneta do primeiro prefeito de Criciúma, Celso Marcos Rovaris, Zuleide define-se como uma pessoa sorridente, feliz, criativa, perfeccionista, bem-casada e que ama morar no município pela proximidade com as duas capitais, com a serra e com o mar.
Zuleide na Praça Nereu Ramos. “Me transporta a minha juventude, de passear depois da missa de domingo. Pegava minhas amigas e dávamos voltas na praça uma grudadinha a outra, para ver os rapazes que ficavam parados nas calçadas”, recorda – Foto: Ulisses Job/Divulgação/ND“Vivi minha infância e juventude vendo uma Criciúma potente, colonizada por italianos que sofreram para ver esta cidade do carvão ser uma potência. Então, ver que a cidade chega neste porte vitoriosa, linda, desenvolvida e abraçando pessoas que chegam de todos os Estados para fixar residência. Sou fã e levo isso quando viajo e conto a todos o que é nossa cidade”, comemora.
Cintia Santos, professora que luta contra o racismo em Criciúma
Apesar de ser um motor da economia em Santa Catarina e estar entre as 50 melhores cidades do Brasil, Criciúma ainda mostra os reflexos de uma sociedade contaminada pelo racismo.
Em 2022, diversos casos chocaram a região. Uma menina, de 7 anos, foi chamada de macaca após aparecer vestida de princesa. Uma mãe denunciou um ataque racista contra o filho, de 11 anos, dentro de uma escola.
O caso mais recente aconteceu no mês passado. Um homem negro, que estava sentado em uma praça da cidade, foi abordado de forma truculenta por policiais militares. A ação indignou milhares de pessoas. O local onde tudo ocorreu foi alvo, dias depois, de protestos.
Uma das lideranças em Criciúma que luta para mudar este cenário é a professora Cintia Santos. Mestra em Educação com foco na comunicação antirracista e secretária-geral do Coletivo Chega de Racismo Criciúma, Cintia tornou-se uma voz potente de combate ao preconceito na cidade.
“É muito difícil ter uma noção do impacto ou da referência que nos tornamos ao longo da vida. Continuo sendo professora e isso dá as diretrizes das minhas ações”, avalia. Além de educadora, ela apresenta um programa de rádio que promove debate antirracista na região.
Cintia Santos, professora há mais de 20 anos, na principal escola de seu bairro – Foto: Ulisses Job/Divulgação/NDPor duas vezes, Cintia também já foi candidata à prefeitura de Criciúma e ao cargo de vice-governadora do Estado, em 2014. “Essas experiências me trouxeram muito aprendizado que não existe nas universidades. E o movimento negro é reflexo disso tudo potencializado pela necessidade de se fazer e não só discursar. Se de alguma forma as minhas ações incentivam a continuidade dessa luta, fico feliz”, revela.
Em sua fala, Cintia também reforça a necessidade de se combater o racismo no município. “Criciúma vem se caracterizando como uma cidade extremamente racista, com isso se torna ainda mais necessário o surgimento de novas lideranças antirracistas nos mais diversos espaços”, opina.
No microfone, sua voz ecoa por Criciúma
Cintia faz um trabalho para além dos muros da escola. Desde 2018, ela apresenta o programa de rádio Protagonista Sem Fronteiras, que tem como principal característica o debate antirracista.
Cintia é professora, militante e comunicadora em Criciúma – Foto: Ulisses Job/Divulgação/NDO programa é transmitido pela Associação de Comunicação Alternativa Web Rádio Santa Luzia, que é sem fins lucrativos e tem caráter educacional. O projeto foi idealizado pela própria professora.
A iniciativa surgiu após Cintia ser diagnosticada com condropatia patelar nos joelhos e precisar ficar afastada por um tempo da sala de aula e do movimento negro. “Fiquei buscando uma forma de continuar me comunicando com as pessoas”, conta.
Foi aí que Cintia se descobriu como apresentadora e passou a conciliar com a carreira de professora e de militante. Hoje sua voz já ficou conhecida com o programa que vai ao ar todo sábado, das 10h30 às 12h30.
“Não é fácil, por mais que seja na internet tem um custo, mas o retorno é muito positivo. Fazer essas discussões no meu programa, entrar na casa das pessoas, ser reconhecida por esse trabalho é muito importante”, comenta.
“Um ícone de Criciúma”
Formada em Geografia pela Unesc (Universidade do Extremo Sul Catarinense), Cintia leciona há 22 anos na Escola Sebastião Toledo dos Santos, em Criciúma.
Além do amor pela educação e comunicação, a professora compartilha um carinho especial pelo bairro Nova Esperança, onde foi criada vive ainda hoje com a família.
“É uma comunidade que teve a sua origem em uma ocupação popular e minha mãe participou desse processo. Ela foi minha principal referência quando se trata de correr atrás dos nossos objetivos. A história do bairro é um ícone de Criciúma. É muito organizado, as associações de moradores sempre foram atuantes, e os moradores têm histórias para contar. Lembro do dia em que chegamos aqui, a única entrada era pelo rio e foi por onde entramos”, conta Cintia.
Pipoqueiro que conquistou todos com o seu carisma
Quem também tem boas lembranças e histórias de Criciúma para contar é o pipoqueiro Deoclecio Cechinel, mais conhecido como o “Titio da Pipoca” entre as crianças, ou “Seu Clésio” por quem cruza a Praça Nereu Ramos, onde ele sempre está com o seu carrinho.
Seu Clésio tornou-se uma figura emblemática da praça – Foto: Divulgação/ND“Tenho uma admiração por Criciúma. Eu vivo a cidade. Já são 62 anos que eu moro aqui. As lembranças são sempre muito boas. O pessoal já tem eu como uma figura popular da praça. Às vezes, eu tô em outro lugar e a turma diz assim: ‘Ó, o titio da pipoca’, ‘Ó, o seu Clésio'”, conta.
Mineiro aposentado e morador do bairro Vera Cruz, Deoclecio já trabalha há 20 anos vendendo pipoca junto com o seu irmão. “Eu sou o homem que tem mais afeto e simpatia com o público. Meu irmão é mais calado”, brinca.
O empreendimento deles em Criciúma iniciou após um amigo viajar para os Estados Unidos e deixar o negócio para os irmãos tocarem. “Desde aquele dia não paramos mais. São 20 anos de praça. Criciúma mora no meu coração e que seja sempre essa cidade bonita e acolhedora. Criciúma é tipo uma mãe, recebe todo mundo com muito carinho”, ressalta.
Ao longo dessas duas décadas, o pipoqueiro construiu laços fortes com o público. “O pessoal que compra não são mais clientes, são amigos. Eles conversam comigo, têm um dialogo aberto. Eu respeito muito as pessoas. As crianças são os meus xódos. Eu cativo muito elas, chamo de príncipe, princesa, meu ídolo”, comenta.
O bom atendimento aos clientes vem de família. O pai de Clésio foi comerciante por 40 anos em Criciúma. Ele tocava o antigo e tradicional Bar Cruzeiro na cidade.
“Tenho muito afeto pelos clientes e pessoas ao meu redor. É tão bom estar ali abrindo o carrinho e todo mundo passando: ‘Bom dia, seu Clésio’. É muito mais que o valor da pipoca, eu cativo muitas amizades”, revela o avó de três pequenos.